Brian Flaherty/The New York Times
Brian Flaherty/The New York Times

A poesia insurgente de Lawrence Ferlinghetti, o editor dos beatniks

Um retrato do lendário poeta e editor que abriu as portas para a geração de Allen Ginsberg, Kerouac e Burroughs

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 15h00

O mais surpreendente no poeta, ensaista, editor, artista plástico e livreiro Lawrence Ferlinghetti não foi ter vivido 101 anos, que chegaram ao fim no último dia 22, mas festejado seu centenário, um ano atrás, com um novo livro, o memorialístico Little Boy, por ele concluído e fisicamente editado às vésperas do festão que tomou conta da livraria City Lights, em São Francisco. 

m minha primeira e já longínqua viagem a São Francisco, meu interesse pela mística e feitos literários da Beat Generation já se dissipara e fora substituído por outros polos mitológicos da cidade: os ambientes da ficção noir de Dashiell Hammett, os rastros deixados por Jack London e William Saroyan, os locais por onde Hitchcock filmara Um Corpo que Cai e Os Pássaros (Bodega Bay, a 1 hora e meia de carro de São Francisco).

Jack Kerouac e sua epopeia estradeira me interessaram menos que a golfada poética de Howl, de Allen Ginsberg. Daquela turma, a figura que mais me fascinava era Ferlinghetti—ele próprio e sua obra, que não abarcava apenas poemas, artigos, panfletos, traduções e pinturas, mas um indisputável patrimônio da cultura e da bibliofilia americanas: a livraria (e editora) City Lights.

Desde sua inauguração, em 1953, no mesmo lugar, em North Beach, Columbus Avenue 261, foi uma das primeiras reencarnações da parisiense Shakespeare & Company, não mais a original, de Sylvia Beach, e sim a de George Whitman, instalada na rue de la Bucherie dois anos antes de Ferlinghetti, egresso de mil aventuras no Velho Mundo, ter o estalo de uma livraria diferente, na zona boêmia de São Francisco, distinta no acervo de publicações e no atendimento à freguesia.

Batizada com o título da que muitos consideram a obra-prima de Chaplin, City Lights foi a primeira livraria do país  especializada em livros de brochura (paperbacks). Farta em literatura, autores obscuros, estudos históricos e sociológicos ideologicamente progressistas, tem um andar inteiro dedicado à poesia, e suas paredes adornadas por cartazes com slogans, palavras de ordem e problemas da cidade carentes de atenção e soluções. Não vou a São Francisco há quase 35 anos. Pelo que sei, a livraria em nada mudou. 

Não peregrinei até lá, como muitos fazem, para conhecer e tietar Ferlinghetti. Em nenhuma das visitas à City Lights encontrei o poeta em seus domínios. Só trocamos nossos “nice meeting you”, por acaso, no Caffe Trieste, na vizinhança da livraria, primeiro pouso do café expresso da cidade e ponto de encontro da intelectualidade local desde o final dos anos 1940. Francis Ford Coppola escreveu ali boa parte do roteiro de O Poderoso Chefão

Foi nas mesas do Trieste que Ferlinghetti e seus apadrinhados beats lançaram as bases do “movimento” e aplaudiram a ideia de Ferlinghetti se associar a Peter D. Martin para abrir a City Lights na esquina mais próxima. Os dois sócios iniciais entraram com US$ 500 cada um. O poeta depois segurou as pontas sozinho, um milagre de sobrevivência. 

Ferlinghetti fazia questão de dizer que “não pertencia à Geração Beat”, que não se considerava um poeta beatnik. Embora os tenha editado e admirasse bastante Howl, cuja publicação lhe rendeu problemas com a Justiça, só William Burroughs, daquela turma, parecia figurar em seu panteão pessoal. 

Seu ídolo, desde a adolescência, fora Thomas Wolfe, por causa do caudaloso romance Look Homeward Angel, o principal motivo de sua opção pela Universidade da Carolina do Norte, também a alma mater de Wolfe. Seus translúcidos olhos azuis brilharam quando lhe disse que Look Homeward Angel também fora uma obsessão de James Dean. 

A orfandade precoce levou Ferlinghetti para a Europa, sob a guarda de parentes, proporcionando-lhe a chance de fazer do francês sua primeira língua. Mais tarde, tiraria um diploma pela Sorbonne, ficaria amigo de Jacques Prevert, André Breton e demais surrealistas, alguns dos quais entrariam na América através de suas traduções. 

Os estudos na Sorbonne lhe foram proporcionados por uma daquelas bolsas que o governo americano oferecia a militares que haviam lutado na 2ª Guerra. Ferlinghetti chegou a comandar um submarino durante o conflito. E aqui faço uma pausa para indagar a quem possa me esclarecer: alguma vez o governo brasileiro pensou em instituir semelhante benesse para os seus soldados ou eles, como desconfio, só se interessam por marchar e dar tiros? 

Desmobilizado, o poeta viajou até o Japão, visitou Nagasaki poucos dias depois do bombardeio atômico pela força aérea americana, experiência que o traumatizou mais do que as manobras submarinas contra navios nazistas e daria um rumo à sua inflamada poesia, herdeira de Whitman, Eliot, Maiakovski, e sensível às desgraças da guerra (em especial a do Vietnã), aos contrassensos da sociedade capitalista, às mudanças climáticas e às mazelas de São Francisco. 

Para ele, a poesia era “uma arte insurgente”. Num manifesto, traçou a genealogia da poesia que amava e seus mais destacados praticantes: “Você é Whitman, você é Poe, você é Mark Twain, você é Emily Dickinson e Edna St. Vincent Millay, você é Neruda e Maiakovski e Pasolini, você é americano e não americano, você pode conquistar o mundo com palavras”. Vários de seus versos ganharam a primeira página do diário San Francisco Examiner.

Com seu jeitão avuncular, cordial e solícito com qualquer um que o abordasse, era o prefeito informal da cidade. Ter Ferlinghetti em São Francisco era “como ter um sol brilhando permanentemente sobre a cidade”, disse alguém, com o verbo no presente do indicativo. O poeta ainda brilhava. E brilhará sempre. 

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