A polêmica canonização de Pio XII

Ao contrário de João XXIII, elevado ao patamar de santo pela opinião pública, pairam dúvidas sobre a vida de Eugenio Giuseppe

Juan Arias*, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 21h46

A atual polêmica do Vaticano com Israel e toda a comunidade judaica mundial por motivo da beatificação do papa Pio XII, suspeito de não ter tido coragem de denunciar o nazismo, nem as deportações de judeus, nem de excomungar Hitler, conforme lhe pediam muitos bispos, me fizeram lembrar da ocasião em que o conheci, quando ainda era um estudante de teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a mesma pela qual ele obtivera seu doutorado alguns anos antes.Tinham me pedido que acompanhasse uma pessoa durante audiência com o papa Eugenio Giuseppe Pacelli. Naquele momento o Vaticano era para mim um mundo misterioso, onde o papa usava todos os símbolos herdados do paganismo, como a tiara ornada com pedras preciosas, a cadeira gestatória, os leques gigantescos e os cardeais arrastando uma cauda de seda vermelha de oito metros.Era a época em que, ao se aproximar do papa, tínhamos que nos ajoelhar e beijar-lhe a "sandália sagrada". A sandália às vezes era vermelha e às vezes, branca. A que beijei era branca. O secretário do papa ajudou-me a levantar do chão. Lembro da figura sacerdotal, quase de cera, daquele papa chamado de Pastor Angelicus por causa de sua aura de mistério e espiritualidade. Não parecia ser de carne e osso. Falou comigo como se falasse ao vazio. Lembro-me do seu nariz adunco, seus olhos fundos e seu olhar penetrante.Nunca saberemos a verdade sobre a real posição de Pio XII, cuja família pertencia à nobreza romana, em relação ao nazismo, às perseguições e massacres dos judeus e em relação ao próprio Hitler, já que muitos dos documentos daquela época foram misteriosamente destruídos. Sabemos que sua atitude foi principalmente diplomática, preocupando-se sobretudo em não criar problemas para a Igreja e para o Vaticano, evitando o que ele chamava de "mal menor". Não digo que tenha lavado as mãos, como Pilatos, mas sim que não teve a coragem evangélica de arriscar tudo para defender os judeus. A diplomacia é uma dimensão política e mundana, não evangélica. Por não ter abraçado o caminho da diplomacia, Jesus de Nazaré foi crucificado aos 33 anos de idade. Teria sido melhor para ele ser mais prudente diante dos poderes da sua época? Talvez. Mas o fundador do cristianismo jamais aceitou fazer concessões. O mesmo se pode dizer dos seus 12 apóstolos. Por isso todos morreram de maneira trágica.A notícia que apareceu nos jornais informando que o papa Bento XVI tinha decidido adiar a assinatura confirmando a beatificação de Pio XII diante dos protestos da comunidade judaica mundial e de muitos cristãos progressistas merece aplauso caso se trate de algo além de um gesto de pura diplomacia, à espera de que os ânimos se acalmem. Será que Bento XVI ainda não está convencido de que Pio XII mereça ser apresentado à Igreja Universal como uma pessoa exemplar, de virtudes extraordinárias? Nesse caso, o adiamento da beatificação seria justo.Se, ao contrário, o papa estiver convencido da santidade de Pio XII, não se deve deixar intimidar pelo medo de atrair a inimizade da comunidade judaica e do Estado de Israel, com o qual o Vaticano mantém relações diplomáticas. A Igreja não deve misturar motivações espirituais com motivações mundanas ou diplomáticas.O problema subjacente é que, ao contrário do que aconteceu com com o papa João XXIII, que foi canonizado pela opinião pública universal, a qual o considerava santo antes mesmo de ter sido beatificado oficialmente pela Igreja, no caso de Pio XII há muitas interrogações sobre sua vida. Nem a opinião pública universal nem a da comunidade cristã o aclamaria santo, como se fazia nos primeiros séculos do cristianismo, quando eram as pessoas que proclamavam a santidade de uma pessoa.Sobre a vida e o pontificado de Pio XII pairam muitas sombras para que possam ser colocados como exemplo de santidade aos cristãos. Não apenas pela sua atitude, considerada no mínimo passiva, diante do nazismo e das perseguições aos judeus, como também pelo final de sua vida. Era duplamente prisioneiro, do Vaticano e de sua poderosa secretária, a devota sor Pasqualina, que ele trouxe da Nunciatura de Berlim, sem o consentimento da qual ninguém, nem mesmo os cardeais, podia se aproximar do papa moribundo. Me contaram, a partir de uma fonte muito próxima ao papa, que ela não quis lhe dizer que ele estava morrendo, e por isso Pio XII não pediu que lhe dessem a extrema unção. Teria morrido, assim, sem receber os últimos sacramentos. Sor Pasqualina, de pele branca como a neve e maçãs do rosto rosadas, que impunha autoridade, amenizava a agonia do pontífice com música clássica e uma série de canários engaiolados cujo trinar Pio XII adorava.Até seu médico pessoal, Ricardo Galeazi Lisi, permitiu-se fotografar o papa agonizante em posições pouco decentes, fotos das quais algumas apareceram em importantes revistas estrangeiras. Galeazzi acabou sendo expulso do colégio de médicos da Itália.O sucessor de Pio XII, o chamado Papa Bom, o filho de camponeses João XXIII, deve ter tomado conhecimento da triste e pouco edificante morte de seu antecessor, pois, tão logo se agravou sua enfermidade, pediu a seu secretário particular, Loris Capovilla, que lhe dessem a extrema unção. Com o bom humor que o caracterizava, quis que lhe fossem "preparando as malas" para a Grande Viagem.Pio XII, antes de morrer, concedeu títulos de nobreza a todos seus familiares. João XXIII, no testamento, deixou escrito que nada deixava para a família, pois "havia nascido pobre e morria pobre". *O jornalista e escritor Juan Arias, correspondente do El País no Brasil, foi por 14 anos o representante do jornal espanhol no Vaticano. É autor, entre outros, de Jesus, esse Grande Desconhecido, e A Bíblia e seus Segredos (Objetiva)

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