A polêmica em torno do anel

Ato do presidente de guardar a joia antes de cumprimentar estudantes foi recebido com ressalvas e ironias na Argentina

Rodrigo CavalheiroCORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 06h00

Com um pavor danado de ser roubado por jovens coxinhas de Buenos Aires a quem havia passado dicas para se dar bem nos negócios, Barack Obama foi malandro. Tirou o anel de ouro do anular da mão esquerda antes de cumprimentá-los. Deu azar de ser gravado, a cena parou no YouTube e caíram as casas, branca e rosada. O imperialista gente boa, neoamigo do neoliberal Mauricio Macri, mostrou não confiar nem na claque escolhida a dedo pelo governo argentino, a quem visitou só para isolar a esquerda do continente. Chamado de ladrão em vez de arrogante, o cidadão argentino médio ficou fulo. Pior, só se alguém tivesse gritado “As Malvinas são brasileiras”. Só se fala disso em Buenos Aires.

A única parte precisa desse relato está em negrito. O vídeo foi feito ao fim de um diálogo com empresários promissores no dia 23. Todo o demais falado sobre a cena, capaz de seduzir o leitor em busca um barraco internacional, é interpretação à serviço de interesse político e econômico: diminuir o respaldo que Macri recebeu de Obama e somar cliques para sites.

“Recebi o arquivo de um amigo de tarde pelo WhatsApp e na hora não dei bola. Estava ocupado com outras notícias. Só de noite olhei bem. Achamos engraçado e subimos”, diz Ignacio Fidanza, diretor do site especializado La Política Online, um dos primeiros a publicá-lo. As imagens foram acompanhadas de um texto que descrevia um Obama “muito cuidadoso com um de seus anéis” entre um público “selecionado pelo governo”. “O vídeo é divertido porque a imagem dos integrantes do PRO (Proposta Republicana, partido de Macri) é associada à classe média alta. Só a hipótese de Obama ter guardado a joia para se proteger é um prato cheio para a oposição”, afirma.

Líder de uma coalizão de centro-direita, Macri assumiu a Casa Rosada em dezembro, após 12 anos de kirchnerismo, movimento peronista de viés radical e antiamericano. Tão radical que Fidanza já foi considerado inimigo público pela juventude kirchnerista. Em 2014, cartazes com seu rosto foram espalhados pelo centro de Buenos Aires com a inscrição “perigo: informante”.

Os jornais argentinos que decidiram reproduzir o vídeo (dos maiores, o Clarín sim, o La Nación não) o fizeram em tom ameno. Na TV, a tendência também foi não alimentar polêmica. Uma jornalista teorizou que o anel estava grande porque Obama havia perdido peso, e por isso foi guardado. “Qualquer que tenha sido a razão dele, para que não o roubassem, caísse ou por segurança, não foi encarado como ofensivo. Foi visto como algo que um argentino esperto faria, algo legal”, avalia Fidanza.

A interpretação de como os argentinos se sentiam, ou deveriam se sentir, foi diferente fora da Argentina. Sites de tabloides britânicos adotaram a linha “Obama ofende argentinos”. Nos meios digitais da América Latina, a palavra mais usada foi “polêmica”, algo neste caso, excepcionalmente, que passou longe da Argentina.

Nos EUA, a história foi ignorada pela imprensa e pela Casa Branca. Em 2007, o governo americano divulgou um vídeo próprio quando, em situação similar, desapareceu o relógio de um George W. Bush empolgado com o fato de ser popular na Albânia. A notícia de furto foi desmentida pela gravação oficial que o mostrava colocando o objeto no bolso. Esse precedente sugere a existência de uma orientação para evitar que, mesmo em caso de perda, não se crie um constrangimento diplomático. No de Obama, gravado em uma usina transformada em centro cultural, ele saúda dois jovens com a mão direita, um com a esquerda e outro com a direita, até receber um recado de um dos seguranças. Ele então guarda a joia, mas não o relógio, e segue com o corpo a corpo.

Ainda que tenha tido repercussão mínima na Argentina, se comparado às imagens de Obama dançando tango ou dizendo-se fã do mate e de Lionel Messi, o vídeo do anel ganhou vida extra em setores da militância antimacrista. O ex-senador kirchnerista Alberto de Fazio alimentou isso num tuíte que criticava a visita de dois dias do americano para respaldar a política econômica e externa de Macri. “Tudo muito PRO, muito inspirador, mas guardo o anel porque se não me roubam”, tuitou o político, citado pelos sites estrangeiros como um argentino ofendido sem se considerar um. Compartilhada em um ambiente hostil ao macrismo, a mensagem foi seguida de comentários na linha “é isso que ele realmente pensa de nós e esse governo o adula”.

De Fazio disse estar arrependido de difundir o arquivo “pela imagem negativa” em que deixou o país. “Sou um admirador do Obama e não gostaria de prejudicá-lo. Minha crítica ao governo argentino é ter criado uma expectativa sobre essa visita que não se cumprirá”, diz o político, que apresenta sua teoria sobre a falta da reação indignada que a imprensa estrangeira apregoou existir. “Acho que estamos acostumados a que nos chamem assim. Um ministro uruguaio já disse que somos ladrões, do primeiro ao último”, afirma, rindo. O senador do PRO Federico Pinedo, terceiro na linha sucessória, considerou o caso “coisa de grupos que se dedicam a coisas pequenas”. “Não dá nem para dizer que foi uma iniciativa da oposição”, pondera.

Não é primeira vez que o anelão dourado coloca o americano no noticiário. Quando não a usa, há rumores de crise no casamento. A história mais mirabolante sobre a peça é que ela é anterior ao seu matrimônio e contém, em árabe, a inscrição “Não há Deus senão Alá”. Uma corrente conservadora americana alimenta a tese de que Obama é muçulmano e não nasceu nos Estados Unidos. Na Argentina, ninguém esteve mais próxima do tal anel que a bailarina de tango Mora Godoy. Ela dançou por 44 segundos com Obama no jantar de gala oferecido horas depois de ele guardar a peça no bolso e se mostrou surpresa. “Nem sabia que isso tinha acontecido.”

Na avaliação do filósofo Santiago Kovadloff, dois fatores deram projeção internacional ao fato. “O interesse decorre do encontro de um personagem conhecido e um ato que possa desacreditar a imagem típica dele. Pequenas contradições de uma grande figura alimentam um interesse pornográfico. Isso garante rentabilidade a essa informação promíscua”, analisa. A explicação para que o argentino médio não tenha se irritado é que, colocando-se no lugar de Obama, a iniciativa não pareceu lá tão irracional.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.