Acervo da família Verissimo
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Sérgio Augusto
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A primavera da família Verissimo e a gaforinha de Luis Fernando

A memória daqueles anos foi apagada por um terremoto que derrubou a casa na Costa Oeste

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 16h00

Devo a Érico Verisssimo duas palavras que confesso haver lido pela primeira vez em seus livros: “retaco” (atarracado) e “gaforinha”. A segunda, sinônimo de topete, tenho quase certeza de com ela ter cruzado num trecho de A Volta do Gato Preto, que só fui degustar nos anos 70, a uma boa distância de Gato Preto em Campo de Neve, volume inicial das memórias do escritor gaúcho dedicadas aos períodos em que viveu, deu aulas e frequentou gente famosa nos Estados Unidos, a convite do governo norte-americano, durante a ditadura do Estado Novo. 

A gaforinha pertencia ao filho do escritor, o menino Luis Fernando. Pois é, como todos os adultos calvos e carecas, aos sete anos de idade Luis tinha bastante cabelo – e até uma franja rebelde, “eriçando-se como um penacho agressivo e caricatural”, na descrição paterna. 

Somos apresentados a ele a bordo do Constellation da PanAir que, em setembro de 1943, demorou quatro dias para levar a família Verissimo (Erico, sua mulher, Mafalda, Luis Fernando e Clarissa, a filha um ano e meio mais velha do casal) de Porto Alegre a Miami. O nariz colado à janela do avião, “decerto a imaginar que bombardeia Tóquio” e “derruba os Zeros (aviões de combate) japoneses com rajadas de metralhadora”, assim Erico descreve o seu caçula, tão obcecado com os guerreiros alados do imperador Hiroito que precisou ser levado a um psicólogo infantil. “Esse menino precisa parar de matar japoneses”, recomendou o doutor. Luis Fernando parou e sarou.

Precoce “lobo solitário”, contrastando com a irmã, extrovertida, Luis ia, todas as manhãs à mesma hora, ler livros na biblioteca da Casa Americana. Só podia dar no que deu.

Fui a Porto Alegre em 1985, exclusivamente para checar o que o antigo neurótico de guerra ainda se lembrava daquelas pitorescas histórias relatadas pelo pai. Foi uma das entrevistas mais prazerosas que fiz na vida, com direito a um tour pelo álbum de fotos da família em Berkeley (onde Erico ensinou literatura brasileira) e Hollywood (onde o escritor assistiu a filmagens e almoçou nos estúdios da Metro).

Muita coisa Luis Fernando já esquecera. Tinha mais nítido na memória um terremoto em São Francisco do que os índios e caubóis de verdade avistados da janela de um trem entre o Texas e a Califórnia. Blecautes? Mais memoráveis foram os que pegou em Porto Alegre, também durante a guerra. 

Já casado e com três filhos, Luis levou a mulher, Maria Lúcia, a uma viagem sentimental aos locais onde os Verissimo haviam morado e frequentado na Califórnia. A casa de São Francisco fora adquirida por uma seita religiosa; a de Los Angeles ainda estava de pé, mas a escola não resistira a um abalo sísmico. Buscar o tempo perdido é sempre um desafio à decepção.

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