Ateliê Editorial
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A radical poesia produzida por combatentes da 1ª Guerra Mundial

Chegam ao Brasil dois livros de soldados do conflito, o crítico italiano Renato Serra e o escritor francês Guillaume Apollinaire

Sérgio Medeiros*, Especial para o Estado

18 de janeiro de 2020 | 16h00

Publicado em 1915, na revista italiana Voce, o “exame de consciência” do crítico e escritor Renato Serra (1884-1915) sai agora no Brasil, em edição bilíngue italiano-português, sob o título Exame de Consciência de um Literato. Serra morreu combatendo na 1.ª Guerra Mundial, três meses antes do lançamento de sua autorreflexão, considerada hoje uma das obras-primas da literatura do seu país.

Começando com a declaração do direito de fazer literatura “apesar da guerra”, Renato Serra logo afirma, porém, que é “inútil esperar da guerra transformações ou renovações: como é inútil esperar que os literatos voltem modificados, melhorados, inspirados pela guerra”. Batalha e literatura não se beneficiam uma à outra. Com boa dose de sarcasmo, o autor cita, como exemplos, dois luminares das letras italianas: primeiro, Gabrielle D’Annunzio, que “não cresceu em nada”, como se nada tivesse mudado para ele; e, depois, Benedetto Croce, que pareceu diminuído e distanciado, mas “Croce é sempre Croce: em suma”.

Então ele lança uma de suas mais saborosas e impiedosas reflexões: a guerra “Não melhora, não redime, não apaga: por si só. Não faz milagres. Não paga as dívidas, não lava os pecados. Neste mundo, que não conhece mais a graça.” E prossegue: “É duro para o coração admitir. Gostaríamos que os que fizeram esforços, sofreram, resistiram por uma causa que é sempre santa, quando faz sofrer, saíssem da prova quase como se sai de um banho purificador: mais puros. E os que morrem, pelo menos esses, que sejam engrandecidos, santificados; sem mácula e sem pecado.” 

O sacrifício da guerra, em outras palavras, não acrescenta nada a uma obra: é esse, aparentemente, o principal refrão de Serra. O trabalho que o escritor realizou, antes de ir para o campo de batalha, permanece o que era. Serra duvida que a guerra possa mudar os valores artísticos, e tampouco acredita que ela os crie. No entanto, sabe-se que Guillaume Apollinaire (1880-1918), poeta de expressão francesa nascido em Roma, elaborou a parte mais radical da sua obra nas trincheiras da mesma guerra em que Serra lutou. 

Em tradução de Álvaro Faleiros, especialista em poesia visual, Caligramas reúne os poemas que Apollinaire escreveu e desenhou durante a 1.ª Guerra, nos quais buscou uma forma de expressão poética que incorporasse a palavra e a imagem simultaneamente. Ele adotou a caligrafia, algo que Stéphane Mallarmé, o outro pai da poesia visual moderna, não fez, na medida em que investiu apenas na criação tipográfica especializada, muito embora, na sua composição mais ousada, Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, ele fale da mão do mestre que não consegue mais sustentar a pena de escrever de maneira convencional.

As aspirações modernistas de Apollinaire desabrocharam no ambiente da guerra e, mais especificamente, no campo de batalha, onde ele pôde articular e desenvolver uma concepção mais vasta de poesia. Sem dúvida, foi na prisão e na trincheira, como soldado, que ele registrou, ao usar todo tipo de papel à sua disposição, esboços essenciais das colagens e dos poemas figurados que batizaria de caligramas (caligrafia + ideograma). À disciplina militar (pode-se associá-la ao seu poema dedicado à gravata e ao relógio), ele reagiu com uma nova maneira de se expressar, magnífica e exuberante. Tudo começa com uma dúvida, que ele registra no poema A Pomba Apunhalada e o Chafariz, que se organiza sobre um sinal de interrogação no centro, sob influência da estética cubista. 

A guerra permitiu a Apollinaire tornar-se um poeta extremamente inovador. O estudo de balística, por exemplo, conforme salientou Peter Read, o ajudou a imaginar a interdependência entre a palavra, a espacialização e a imagem. Nada disso impediu Apollinaire de expressar em seus textos que a guerra era, afinal de contas, um banho gigantesco e alucinatório de sangue... Contudo, essa concepção apocalíptica não o levou nem ao desespero nem ao niilismo, mesmo depois de ter sido gravemente ferido na cabeça. Ele certamente concordaria com Renato Serra, que, no seu exame de consciência, declarou: “Caíram, fugiram os indivíduos; mas a vida permaneceu. Irredutível na sua animalidade instintiva e primordial, para a qual o curso do sol e das estações afinal tem mais importância do que todas as guerras, rumores fugazes, pancadas surdas que se confundem com o restante do trabalho e da dor fatal no viver.”

CALIGRAMAS

AUTOR: GUILLAUME APOLLINAIRE

TRADUÇÃO: ÁLVARO FALEIROS 

EDITORA: ATELIÊ/UNB

192 PÁGS., R$ 66

EXAME DE CONSCIÊNCIA DE UM LITERATO

AUTOR: RENATO SERRA

TRADUÇÃO: ANDRÉIA GUERINI E ANDRÉIA RICONI 

EDITORA: RAFAEL COPETTI EDITOR

96 PÁGS., R$ 28,80

*SÉRGIO MEDEIROS É POETA E ARTISTA VISUAL. É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ‘AS ÁRVORES DA VIDA CALIGRAFADAS E OUTROS POEMAS’ E ‘FRISO DE CALIGRAFIA E OUTROS POEMAS

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