A realidade não falha

No Brasil, a blindagem dos shoppings é atravessada com mais frequência do que se faz saber. E cedo ou tarde o ‘mundo de fora’, da cidade real, acaba por invadir o ‘mundo de dentro’, das catedrais não democráticas do consumo

Valquiria Padilha*,

22 de maio de 2010 | 09h19

Outro assalto em loja de shopping center na cidade de São Paulo foi noticiado. As catedrais protegidas, modernas e limpas da sociedade de consumo mais uma vez mostraram-se suscetíveis à vulnerabilidade social.

 

Os bunkers reservados ao delírio coletivo do hedonismo consumista são atacados com armas de grosso calibre. Interessante observar que os ladrões de uma suposta quadrilha de joalherias de shopping centers vestem a fantasia de clientes para circular entre os normais: usam terno e gravata, apresentam-se comme il faut. O Estado – nesse caso representado pela polícia – mostra-se engajado, mobilizando dinheiro, profissionais e operações para “caçar” os culpados e restabelecer a harmonia aos fiéis consumidores, alguns dos quais acompanhados de seus próprios seguranças. Após episódio que evidencia a fragilidade de sua pretensa inviolabilidade, essas corporações especializadas em oferecer o paraíso do consumo aos eleitos prometem “reforçar ainda mais a segurança”.

 

No mundo todo, shopping centers integram complexas redes de empresas privadas e são construídos para parecer espaços públicos. São Paulo não ergueu suas catedrais de consumo para serem democráticas. A capital econômica do Brasil tem, por habitante, mais shopping centers que museus, bibliotecas públicas e centros culturais, o que já revela como a gestão privada dos espaços suplanta as políticas públicas urbanas de lazer e de cultura, apesar de pagarmos nossos impostos... Esses centros comerciais confundem muitas pessoas, que não sabem se têm ou não direito de circular pelos corredores de mármore, vitrines e espelhos.

 

Numa de minhas pesquisas realizadas no interior de São Paulo, constatei que os moradores da periferia veem os shoppings como espaços que não lhes pertencem. Shoppings são cidades artificiais, que denomino de “mundo de dentro”, construídas como réplicas do “mundo de fora”, mas visando a eliminar os problemas inerentes a uma sociedade de classes, da cidade real.

 

Para garantir seus maiores atrativos – segurança e limpeza –, os shoppings brasileiros subcontratam um mutirão de empregados mal formados e mal pagos. Esses “trabalhadores invisíveis” são homens e mulheres relegados socialmente, a quem o Estado brasileiro acaba por impor a fragilização da voz. Aqui estou considerando a invisibilidade atrelada ao subalterno, precário e excluído, como o faz Guillaume Le Blanc, em seu belo livro L’Invisibilité Sociale.

 

Em Montreal, no Canadá, os centros comerciais não possuem seguranças nem câmeras por toda parte. Existem até cidades nesse país onde não há polícia, o que sugere uma série de reflexões possíveis sobre as relações entre (in)segurança e gestão do Estado. Mas vale observar que na semana passada, quando o time montrealense de hóquei no gelo (o esporte nacional dos canadenses) ganhou um campeonato importante, uma multidão de torcedores correu até a principal avenida comercial da cidade e destruiu vitrines e saqueou as lojas que vendem as grandes marcas globalizadas da moda. Em entrevista, o chefe de polícia da cidade disse que essa avenida é sempre escolhida para manifestações populares “destrutivas”. A população parece estar sempre pronta a desafiar a solidez das marcas da sociedade de consumo instaladas no inconsciente coletivo mundializado, de Guess a Tiffany & Co. Situações de “apropriação indevida” das marcas, dos objetos e dos espaços globais reservados a uma parcela da população mundial concretizam-se na forma violenta de assaltos e saques. Quanto mais protegidos forem esses lugares, mais armados os “invasores” devem estar. Reforçar a segurança de um lado é, certamente, aumentar a força do ataque do outro lado.

 

No Brasil, a blindagem dos shoppings é atravessada com mais frequência do que se faz saber. Cedo ou tarde, o “mundo de fora” acaba por invadir o “mundo de dentro”, trazendo um pouco de realidade aos que preferem acreditar que existem lugares feitos para ali permanecerem anônimos, mas no conforto de estar entre iguais. Quando ocorrem esses eventos, nem polícia, nem segurança de shopping, nem segurança particular parecem suficientes para evitar a consumação da violência. Que sentido tem “reforçar a segurança”? Quando estaremos prontos para a desconfiança desse modelo de sociedade para nos lançarmos num projeto capaz de fazer políticas públicas muito mais complexas do que ampliar policiamento? O modelo socioeconômico que seguimos cinde a sociedade entre eleitos e excluídos, os de dentro e os de fora, os visíveis e os invisíveis. Ergue templos para o prazer de quem é capturado pela ilusão de que roupas, bolsas e joias vão preencher o vazio inerente à fragilidade da nossa existência humana. A realidade pode tardar, mas um dia ela passa pelas brechas do sistema e ocupa os espaços mais improváveis.

 

* VALQUIRIA PADILHA É SOCIÓLOGA, PROFESSORA DA USP E AUTORA DE 'SHOPPING CENTER: A CATEDRAL DAS MERCADORIAS' (BOITEMPO)

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