A refavela

Os 12 milhões de favelados do País são felizes, gostam do lugar onde vivem e olham para a frente quando o assunto é eleição, diz pesquisa

Entrevista com

Renato Meirelles e Celso Athayde

Ivan Marsiglia, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2014 | 16h00

“Esta será uma eleição de futuro, não de legado.” A frase do pesquisador paulistano Renato Meirelles, presidente do Instituto Data Popular, resume não só um ânimo político, mas o estado de espírito na base da pirâmide social brasileira. A fotografia que emerge do livro lançado essa semana em parceria com o ativista e produtor Celso Athayde, Um País Chamado Favela – A maior Pesquisa já Feita sobre a Favela Brasileira (Editora Gente), derruba os estigmas e a desconfiança que cercam tantas vezes a população dos bolsões mais pobres de nossas cidades. E tira essa população do lugar de vítima indefesa da desigualdade social. 

Da pesquisa feita com 2 mil moradores de 63 favelas em dez regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia, Pará, Ceará, Distrito Federal, Paraná e Rio Grande do Sul), a imagem que fica é a de empreendedores dinâmicos e otimistas. Que reconhecem os benefícios advindos da estabilização econômica do governo Fernando Henrique Cardoso e da universalização dos programas sociais e expansão da renda sob Luiz Inácio Lula da Silva, mas atribuem a nova condição social sobretudo ao próprio esforço. “Essas pessoas são imediatistas, olham para a frente e apostam em quem vai fazer mais por elas a partir de agora”, resume Athayde, criador da Central Única das Favelas (Cufa), que cresceu na Favela do Sapo, no Rio. 

Representantes do “asfalto” e do “morro”, Meirelles e Athayde falam do projeto que, para o antropólogo Luiz Eduardo Soares, “por seu alcance e originalidade, vai se tornar uma referência incontornável”. 

Por que o termo ‘favela’ em vez de ‘comunidade’, mais politicamente correto?

Athayde: Usamos ‘favela’ não por ser um termo politicamente correto e sim por ser comum no nosso dia a dia. Para nós não é pejorativo, soa familiar. Tanto faz se referir a ela como favela ou comunidade, desde que seja tratada com respeito.

Meirelles: A ideia do livro é destruir muros e construir pontes. Usamos favela para mostrar que, se no passado as pessoas tinham vergonha de falar que moravam lá com medo de não conseguir emprego, hoje ela não é mais gueto. É protagonista desse Brasil que mudou para melhor. 

O que mais os surpreendeu na pesquisa? 

Meirelles: Olha, eu sou branco e faço parte da terceira geração de universitários da minha família. Sou, portanto, um privilegiado. O que chama muito a atenção e quebra estereótipos que a gente costuma ter é verificar que a grande maioria não sairia da favela onde vive para morar em outro lugar, nem se sua renda dobrasse. 

Athayde: Não vou dizer que me surpreendi, por morar na favela e saber qual é a realidade. Mas chama mesmo a atenção o fato de que, com todas as dificuldades, 81% dos favelados gostam da comunidade e 66% não estão dispostos a abandoná-la. 

Surpreende também a economia movimentada nas favelas – R$ 64,5 bilhões por ano – e o salário médio dos moradores: R$ 1.068.

Meirelles: Como todos sabem, na última década a renda dos brasileiros mais pobres teve forte crescimento real. E os salários que mais cresceram foram os de empregos de menor qualificação, muito comuns entre os trabalhadores da favela. Claro que esses salários continuam baixos, mas a melhoria trouxe grande dinamismo econômico para as comunidades. E ampliou a renda dos pequenos empreendedores: a padaria, o bar, a construção civil informal. Números que dão visibilidade a essa população entre a iniciativa privada. Tanto que, após a divulgação da pesquisa, diversas empresas entraram em contato conosco: varejistas, shoppings, agências de turismo, entre outros. 

Athayde: Muitos não entendem que somos cidadãos comuns, que ganham a vida com trabalho e merecem o reconhecimento do ‘asfalto’. A vinda dessas empresas para cá é um dos primeiros passos.

A definição sobre o que define o pertencimento à classe média é alvo de disputa no Brasil. O livro diz que 65% dos 11,7 milhões de moradores das favelas são de classe média. É uma definição justa, levando em conta condições de vida ainda tão desfavoráveis? 

Athayde: Entendo de favela, não dessa disputa pelo que é classe C, D ou E. Se você perguntar a uma família de quatro pessoas cuja mãe é enfermeira, o pai é pedreiro e os filhos, metalúrgicos, que movimenta em torno de R$ 8 mil por mês, a que classe eles pertencem, qual será a resposta? Não acho justo chamar essas pessoas de carentes. E é importante dizer que carência e felicidade não podem ser medidas pela quantidade de dinheiro. 

Meirelles: Antes de tudo, precisamos deixar claro que não estamos falando de classe social, mas de classe econômica, ou seja, de renda. Em um país com renda tão desigual como o Brasil, quem tem a média da renda é classe C. Como todo critério, é preciso entender sua natureza, para não exigir o que ele próprio não se propõe a oferecer. Mas ele é útil para mostrar a mobilidade econômica que ocorreu no Brasil em geral, e nas favelas em particular. Em 2003 apenas 33% desses moradores tinham renda que as colocasse nesse estrato médio. Agora, o porcentual é de 65%. O que também é percebido pelos moradores, quando convidados a se autoclassificar: 54% acreditam que eram de classe baixa na infância, mas só 37% dizem que são de classe baixa atualmente. Pode parecer pouco, mas às vezes comprar uma máquina de lavar significa seis horas a menos lavando roupa. Uma moto, três horas a menos no ônibus. E a escolaridade subiu entre as gerações: 73% dos moradores de 18 a 30 anos têm mais estudo que seus pais. 

Às vésperas das eleições, especula-se sobre como os eleitores desse universo vão se portar. A pesquisa mostra que, na última década, a renda nas favelas cresceu 54,7%, para 37,9% no resto do país. Mas o baixo crescimento e a inflação mais alta derrubaram a avaliação do governo em todas as classes. Isso apareceu nas entrevistas?

Athayde: Na favela, como fora dela, nem sempre as realizações anteriores definem a decisão política. No Rio, por exemplo, nunca se fez tanto a partir de uma parceria entre os governos estadual e municipal, e, no entanto, representantes dessa parceria não estão bem nas pesquisas. As pessoas são imediatistas, olham para a frente e apostam em quem vai fazer mais por elas a partir de agora. 

Meirelles: A favela acredita que sua vida melhorou antes de tudo por mérito próprio, pelo trabalho de seus moradores. Encontramos nas favelas um brasileiro feliz, trabalhador, que chama pra si a responsabilidade sobre a própria vida. E um cidadão cada vez mais exigente com os serviços públicos. Ele não quer dentadura, quer internet de banda larga. Não quer cesta básica, mas acesso à faculdade. 

Cientistas políticos dizem que as chances de reeleição de um governo dependem da balança entre desejo de continuidade x desejo de mudança. Para onde ela está pendendo?

Athayde: Existe uma certeza do avanço, o que aponta para a ideia de continuidade. Mas também uma sensação clara de que o que trouxe a favela até aqui não será suficiente para levar a favela adiante.

O rapper Mano Brown, que apoiou Lula, declarou-se recentemente em dúvida sobre a disputa deste ano: 'Não sei se é prioridade reeleger o PT'. De que maneira os escândalos recentes do partido e o desgaste da gestão Dilma chegaram a essa população?

Meirelles: É muito claro que essa população quer um Brasil diferente do que está hoje, mas com a garantia de que o conquistado não seja perdido. Nessas eleições, a favela será o quinto maior colégio eleitoral do País: são 12 milhões de pessoas. Ganha o voto delas quem souber trazer o debate político para os problemas do cotidiano da comunidade. Esta será uma eleição de futuro, não de legado.

Se as eleições não serão de legado, uma campanha mais propositiva e menos crítica por parte de Aécio Neves tem mais chances? 

Meirelles: O que observo é que o PSDB deveria valorizar o esforço do brasileiro para a melhoria de vida. Não adianta falar em taxa Selic se o eleitor quer saber como de fato ela impacta em sua vida. 

Com a morte de Eduardo Campos, como a eventualidade de uma candidatura Marina Silva seria vista no ‘país favela’? 

Athayde: Tenho só um palpite. Os efeitos da imagem de Lula são ainda um grande diferencial para as pessoas das favelas. Pela história, identificação e o crescimento econômico que se refletiu na vida delas. Dilma continua sendo a candidata mais próxima por isso. O desafio do Aécio é mostrar que pode dialogar com esse público, como fez em Belo Horizonte, através da uma secretaria voltada pra eles, coordenada pelo Chis do Morro. No caso da Marina, caso se confirme como a opção do partido, será o calcanhar de aquiles do PT, pois ela também fala a língua da periferia.

A violência é um tema muito presente na pesquisa: 75% aprovam a pacificação das favelas pelas UPPs (55% totalmente a favor e 20% parcialmente a favor) mas não se mostram satisfeitos. Por quê?

Meirelles: A violência é uma preocupação: 73% dos entrevistados consideram a favela onde vivem violenta. Mas também há uma percepção de que esse ponto é exagerado por quem vive fora da favela, e acaba virando estigma. Há esperança de que a UPP reduza a violência, mas também de que diminua esse estigma. Todos conhecem casos de abuso policial contra moradores honestos. Eles esperam uma polícia que garanta direitos e um Estado que esteja presente não apenas com seu braço armado.

Athayde: Os moradores sempre se mostraram favoráveis a chegada das UPPs. Segurança é uma exigência histórica que fazem. O problema é que os policiais que vão trabalhar nessas unidades não vêm de outros planetas, são oriundos da mesma sociedade que nutre todo tido de preconceito contra essas pessoas.

No prefácio do livro, Luiz Eduardo Soares fala das idealizações, inversas e simétricas, sobre as favelas no Brasil: ora vistas como ameaça que assombra a cidade, ora como força que vai salvar o País pela cultura ou pela revolução. Como superar essas visões?

Meirelles: Luiz Eduardo tem razão. Nenhuma dessas idealizações corresponde à realidade. As pulsões criativas e políticas da favela são uma negação do estigma de espaço violento. Tampouco se trata, no entanto, do universo que irá “salvar o país”. Precisamos é romper os estigmas. 

Athayde: Infelizmente, não acredito que o País esteja pronto para superar visões tão antagônicas. Mas começa a dar passos nesse sentido. Hoje, a gente sente que as favelas são mais valorizadas do que há dez anos. Se alguns ainda as veem como ameaça e as tratam com desconfiança, outros já a reconhecem pela rica diversidade cultural e social que apresentam.

Com todos os problemas, 95% dos moradores das favelas se dizem felizes. Por quê?

Athayde: Muitos de nós crescemos com muitas privações, não tivemos nem metade das oportunidades de nossos filhos, nem acesso ao que eles têm hoje. Dificuldades persistem, mas boa parte delas conseguimos superar. Batalhamos e vimos a nossa vida melhorar. Muito do que conquistamos se deve a nosso próprio esforço e ao apoio dos parentes, amigos e vizinhos que também moram na comunidade. A rede de solidariedade da favela, em que um vizinho toma conta do filho do outro, e os vínculos que se criam por lá são mais fortes que os laços que se tem no asfalto. Por isso, nos consideramos felizes. Sentimos orgulho da favela e não abrimos mão de nossas origens.

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