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'A Reforma da Natureza' antecipa debates sobre Monteiro Lobato

Personagens do Sítio são convidados para uma conferência mundial da paz em livro que ganha nova edição

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2019 | 16h00

Sexto livro da série de obras de Monteiro Lobato voltada para colecionadores, que a Biblioteca Azul acaba de publicar, A Reforma da Natureza vem ao encontro das advertências inseridas no texto de J. Roberto Whitaker Penteado, sobre os perigos de “reescrever” Lobato agora que as obras do escritor caíram em domínio público. Num mundo submetido à uniformização cultural, A Reforma da Natureza é um manifesto contra gente autoritária que defende a cartilha da homogeneização. Lobato, no entanto, nunca foi homem de se curvar. Certo ou errado – e ele foi, por exemplo, injusto com a pintora modernista Anita Malfatti –, sempre disse o que pensava sobre o Brasil e o mundo, os políticos e os educadores. Principalmente, foi um crítico severo de nossa mania reformista.

A propósito, o livro trata também de ditadura. A Reforma da Natureza começa justamente quando Dona Benta e Tia Nastácia, as duas matronas do Sítio do Picapau Amarelo, e o Visconde de Sabugosa, são convidados para uma conferência mundial da paz, representando a humanidade e o bom senso contra ditadores que arrasaram a Europa na última grande guerra. Vão todos, menos a boneca Emília, que pretende aproveitar a ausência deles para fazer suas experiências malucas com a natureza – que, de forma involuntária, remetem, na segunda parte do livro, quando a turma do Sítio volta da Europa, aos perversos experimentos genéticos do doutor Mengele. Com a ajuda do visconde de Sabugosa, que conheceu “diversos cientistas notabilíssimos” no continente europeu, Emília monta um laboratório e transforma em monstros pantagruélicos inocentes minhocas, grilos e centopeias.

Porém, é a primeira parte de A Reforma da Natureza que confronta o discurso politicamente correto. A retórica de Lobato é considerada pouco didática aos olhos contemporâneos, a começar pelo personagem da fábula do reformador da natureza contada por dona Benta e que inspirou Emília a fazer suas trapalhadas: Américo Pisca-Pisca, cujo nome define uma possível vítima de blefaroespasmo. Referência de Emília, que critica seu hábito de piscar, mas não o de reformar, Américo bota defeito em tudo e quer “corrigir” a natureza, a começar por colocar abóboras em jabuticabeiras. Conclusão: seria ele a primeira vítima de sua reforma. Ao dormir à sombra de uma jabuticabeira, desperta com um jabuticaba caindo sobre o próprio nariz – e abandona, definitivamente, a reforma, o que serve como advertência para futuros “revisores” de Monteiro Lobato.

Nessa jornada reformista contra a natureza, a inconformada Emília submete também a amiga Rã (inspirada numa garota carioca, Maria de Lurdes) aos seus caprichos. Sente certa identificação com a menina porque ela também é “emilíssima”, uma verdadeira representante da turma “do contra”. Emília, ao encontrar a amiga, confirma que, entre outras atividades, pretende também reformar as palavras, antecipando os “revisores” inconformados com a obsessão supremacista de Lobato no tratamento de tia Nastácia, além de insinuar que dona Benta, a “democracia em pessoa”, volta da Europa com jeito de ditadora, ao rejeitar a maioria das reformas que a boneca fez na natureza – ela ordena, e não pede, que Emília desfaça o que fez, colocando as jabuticabas de novo nas árvores e a abóboras no chão.

Segundo conclusão de estudiosos que analisaram a reação de alunos à leitura de A Reforma da Natureza, a obra despertou nas crianças um notável interesse por questões ambientais. A irreverência de Lobato no trato de questões científicas tornaram o uso da literatura infantil do escritor comum nas aulas de ciências, embora existam professores que considerem inadequada ou ultrapassada a visão de ciência do escritor para fins didáticos. E o que dizer da insistência de Lobato se referir à Nastácia como “negra”? Lobato, de fato, apresenta Nastácia como supersticiosa e inimiga da ciência – ela chama de feitiçaria a invenção da panela que apita por Emília.

Lobato, que se correspondia com defensores da eugenia, escreveu uma pioneira obra de ficção, O Presidente Negro, que, de certa maneira, antecipou em décadas a chegada de Obama à presidência. Só que Lobato não acreditava em democracia racial. No livro, os negros são submetidos a alisamento de cabelo com raios que esterilizam os afrodescendentes. Nada edificante, claro, mas sua linguagem deve ser analisada considerando o contexto, o discurso eugenista e as discussões sobre diferenças entre raças típicas dos anos 1920 e 1930. Nada indica que seus revisores levem em conta essa e outras questões no futuro. O “sítio” de Lobato, é provável, vai passar por uma reforma daquelas por ter caído em domínio público. Vamos ver se o alicerce do edifício suporta o peso dessas mudanças. 

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