A residência na língua

Imagens do exílio profundo não abandonam os poetas nem no momento do regresso, constata escritor e exilado chileno

Jorge Edwards, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 16h00

O exilado

Não querer retornar e não poder retornar à própria terra não é a mesma coisa. Temos o direito de não querer retornar, mas ninguém pode nos impedir de fazer isso. O exilado chileno aprende muitas coisas na França, mas quando retorna ao Chile começa a se esquecer delas. Existe uma incapacidade quase universal de preservar o que vivemos e aprendemos no exílio.

A família

As pessoas rompem com a família, o núcleo original, normativo e repressivo, para existir; e retornam a esse mesmo núcleo para continuar existindo. O ódio pela família faz parte da tradição literária (André Gide). Será uma questão de um amor-ódio? Desde a tragédia grega, a família permanece uma fonte de inspiração inesgotável. O romance é frequentemente uma história de família. A sucessão das gerações acentua a sucessão temporal: os traumas dos ancestrais nunca param de nos assombrar. Sofremos o exílio por causa dos pecados que outros cometeram antes de nós.

A vida política

Durante minha permanência em Cuba como representante diplomático do governo de Salvador Allende, em dezembro de 1970, soube, ao cabo de três dias, que, se um regime semelhante se instalasse no Chile eu seria um dos primeiros a deixarem o país. Depois do golpe de estado chileno, em setembro de 1973, decidi ficar em Barcelona. Só regressei ao Chile cinco anos mais tarde, quando se tornou possível escrever e mesmo publicar livros no país sem correr riscos excessivos, além dos que somos sempre obrigados a correr. Então, tornou-se possível trabalhar pela recuperação das liberdades públicas desde o interior do país. Estou convencido de que a transição democrática foi principalmente um processo interno: uma história de perseguidores que resistiram e de perseguidos que se converteram, e que a gestação do golpe foi muito mais chilena do que se quer reconhecer. A CIA interveio seguramente, mas ela o fez de maneira inoportuna, desastrada, ineficaz. Também houve a ingerência de outros serviços secretos. O Chile tornara-se um laboratório, um campo de experimentação política. Mas acredito que todos se enganaram.

O exílio em Barcelona

Uma época inesquecível, repleta de conversações extraordinárias, de longos deslocamentos noturnos, personagens singulares, encontros surpreendentes. Lembro de Paco Rabal sentado à mesa com Madame Arthur num dos terraços da Avenida do Paralelo; de Carlos Barral tomando um uísque comigo e Juan Ajuriaguerra, o presidente do Partido Nacionalista Basco, que nos dava sua versão do fim da guerra da Espanha e nos falava de sua missão clandestina em Roma para salvar um destacamento de republicanos bascos cercado pelas tropas italianas. Uma Espanha oculta surgia repentinamente, uma forma de espiritualidade incorruptível. O amor pela liberdade estava no ar, era possível respirá-lo. Havia momentos únicos de cumplicidade, de reencontros. Era surpreendente constatar que o Chile, que fora um país de liberdade, de acolhida, seguia o caminho inverso: passava da democracia para a ditadura. O caminho do excesso não conduzia ao palácio da sabedoria, como diz um poema de William Blake, mas a seu oposto. A aventura política era muito mais perigosa do que a vida literária. Todas essas experiências alimentaram a escritura dos ensaios reunidos em Desde la Cola del Dragón, coletânea organizada e reescrita em 1977. O livro foi publicado em Barcelona, onde inclusive ganhou um prêmio, mas não foi distribuído no Chile - o medo da censura foi maior que a própria censura. No fim, o livro desapareceu por completo.

Paris

A Paris de maio de 1960, a da minha primeira permanência na cidade, há mais de meio século, fez com que eu passasse da literatura, de uma leitura recente de Em Busca do Tempo Perdido para um sonho de olhos abertos: as ruas, repletas de cenas irreais, de ruídos abafados, de rostos e de explosões repentinas de vozes, tinham a cor sépia de fotos antigas. Encontrei Jean Cocteau num salão da Rue Vieille-du-Temple; Jean-Paul Sartre em frente a uma vitrine de Saint-Germain-des-Prés; Samuel Beckett, distraído, vesgo, desengonçado, caminhando por Montparnasse. Também cruzei com Buñuel em Montparnasse, encurvado, com um ar contrariado, segurando uma garrafa de leite. Passei pelo lugar no qual a avó do narrador de Em Busca do Tempo Perdido sofre seu primeiro acidente cerebral, e muitas vezes percorri a Rue de Grenelle, de Stendhal. Fora das invenções da memória, jamais consegui reencontrar essa primeira Paris. Os espaços se enriqueceram com a anexação de territórios adjacentes: o da velha e do papagaio de Flaubert na Normandie, o de algumas páginas de Colette, de Sartre, de Camus, de alguns romances esquecidos de Gide ou de Pierre Loti, de poemas e de prosas de André Breton, de galerias da Rue Vivienne em alguns contos de Julio Cortázar. Porque Paris pertence também a Julio Cortázar, a Julio Ramón Ribeyro, a César Vallejo, a Juan Emar e a todos nós.

O retorno ao Chile

Num poema famoso, Enrique Lihn escreveu: “Jamais deixei o horrível Chile”. Antes da crise de 1973, o Chile horrível era provinciano, cândido, distante, com aspectos sombrios e outros amáveis. Um símbolo e um sintoma do Chile de então era o restaurante La Piojera, no bairro do mercado e da Estação Mapocho. Sentar-se a uma de suas mesas ao meio-dia de um sábado significava mergulhar no lodo primordial, no torpor e nos sonhos. O grupo surrealista Mandrágora, com toda sua extravagância, não era uma invenção, mas uma projeção da vida cotidiana de então. Em contraposição, o mundo do pinochetismo tinha horrores verdadeiros, que não tinham absolutamente nada de amáveis. Entrar num vagão do metrô silencioso, lotado de gente que transpirava medo, era uma experiência sombria. Conheci recentemente uma sobrinha de Eduardo Molina Ventura. Seu tio, que apelidamos de “o pequeno Molina”, ou “o poeta Molina”, era um poeta sem poemas, um leitor onívoro, um fabulador. Gostava de pontificar no balcão de La Piojera. Um dia, ganhou uma bolsa e pus a sua disposição um espaço na residência da embaixada chilena em Paris. Mas os militares chegaram e o puseram para fora, embora seu pai fosse brigadeiro. A sobrinha me contou que ele foi excluído da família porque era poeta e sem dinheiro, e ela só tivera conhecimento de sua existência recentemente.

A literatura francesa

Para mim a literatura francesa foi antes de tudo Rimbaud, Baudelaire, Proust. Descobri uma linguagem que se bifurcava, preenchendo interstícios mentais, colocando questões e insinuando respostas opacas, difíceis de ser interpretadas. Montaigne veio um pouco mais tarde iluminar o espaço, superar a má consciência, trazer a alegria de manusear uma linguagem liberta de certezas acadêmicas. Mas, bem no início, houve uma experiência de leitura juvenil, exaltada: Léon Bloy. Lembro ainda com emoção da raiva justiceira de Léon Bloy que escorraça com rudeza os mercadores do templo e faz voar pena por toda parte.

Paris e a literatura latino-americana

A Paris de Rubén Dario, de Julio Cortázar e de Mario Vargas Llosa, de Julio Ramón Ribeyro, mudou enormemente. É bem possível que não exista mais. Hoje, há uma indiferenças recíproca, uma perda da curiosidade intelectual. Antigamente, Samuel Beckett chegava ao La Coupole, olhava por todos os lados com seus óculos grandes e, se alguém acenava para ele de uma mesa, entrava. Hoje, é preciso comer em 45 minutos, pagar, e deixar a cadeira para o próximo cliente. É um sistema de cadeiras quentes. Nenhum Beckett, Ionesco ou Cortázar ousaria aventurar-se nesse labirinto. Léon Bloy fugiria, alarmado. Enrique Linh seria proibido de entrar.

Romances escritos no exílio

A Cidade e os Cachorros, de Mario Vargas Llosa: um romance de formação escrito a distância, sem preconceitos escolares nem familiares, com o ódio pelo pai e a perplexidade diante das figuras paternais substitutas. O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar: um poema da Paris da distância, da ausência. Galerias de Buenos Aires que desembocam nas da Rue Vivienne. Leio um romance recente de outro exílio argentino (Le Bleu des Abeilles, de Laura Alcoba) e reencontro cruzamentos semelhantes, oníricos, de galerias de Buenos Aires e de Paris. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez: o exílio permite inventar uma cidade de Macondo que se superpõe à outra, a da infância e da família. Os Convidados de Pedra, de Jorge Edwards: a juventude, a rebelião, a ruptura, lembranças convocadas após o exílio.

Pablo Neruda

A lírica hermética de Neruda, pai do surrealismo, termina com a Terceira Residência. Era um Rimbaud do sul do mundo que, em lugar de parar de escrever, adotou outra forma de escritura, intencional, preocupada em mudar o mundo e não a vida. Mais tarde, tentou reencontrar a poesia, mas ela lhe escapou, se dissimulou, fez com ele brincadeiras de mau gosto. Em certas odes elementares, encontramos humildes tentativas de recuperação. Podemos restringir o domínio da poesia, delimitar seu campo, reduzi-la à órbita de uma letra do alfabeto, à esfera cósmica de uma cebola, a um caldo de peixe numa panela de barro? Em alguns poemas do fim, na Geografia Infrutífera, por exemplo, o tempo não inteiramente reencontrado dos campanários e das planícies da Normandia, dos rios do sul do Chile, da chuva de Temuco, tornam-se grandes e enigmáticas presenças. Residência na Terra é um excelente título para definir o exílio. Residência na Terra ou melhor Residência na Língua: a solidão em meio a línguas estrangeiras, nativas ou colonizadoras. Esses “ingleses que ainda odeio”, os administradores da antiga Birmânia, essa “maliciosa” personagem do Tango do Viúvo, inglesa durante o dia, birmanesa, “garota de pés pequenos e com um grande charuto” a partir do anoitecer. As imagens de um exílio profundo, semelhantes à memória profunda dos surrealistas, jamais abandonam os poetas. Nem mesmo no momento do regresso.

Alguns mitos franceses

O índio com as plumas (o bom selvagem, o meteco sul-americano), o último tango, Valparaíso. Muitos mitos franceses são invenções latino-americanas e inversamente. A França como um todo e Paris são mitos sul-americanos. Essa doença, que Joaquin Edwards Bello chamava de “parisite”, afetou grande parte do mundo. Para conhecer os lugares-comuns mais difundidos relativos à França é preciso ler o Dicionário das Ideias, de Gustave Flaubert. Certos personagens romanescos franceses são grandes campeões de lugares-comuns (Homais, Monsieur de Norpois, Madame Verdurin). O lugar-comum serve para dar destaque à bobagem dos outros, exorcizá-la, rechaçá-la de nossos corpos coletivos.

Alguns mitos chilenos

Pablo Neruda e Salvador Allende atingiram as proporções de um mito. Não mais contamos as ruas e as praças, pelo menos na França e na Berlim antes da queda do Muro. Ninguém foi tão longe nesse campo. Roberto Bolaño hoje se encontra entre o mito e a moda, indubitavelmente mais próximo da moda. Fora disso, não resta mais grande coisa, se não for a cordilheira, o mar do sul, os tremores de terra.

O papel do intelectual

Gabriela Mistral disse a respeito de outro grande poeta que ele era a mosca que incomoda o cavalo em sua sesta e o obriga a defender-se agitando a cauda. Ao mesmo tempo inconveniente e provocador. A inconveniência é necessária, a provocação sempre salutar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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Jorge Edwards, escritor e diplomata, nasceu em Santiago do Chile em 1931. Com mais de 20 livros publicados, em 1999 conquistou o Prêmio Cervantes. É um dos convidados da próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)

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