The State Hermitage Museum
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A Rússia por dentro desde os líderes comunistas até Putin

'Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo', da professora Lenina Pomeranz, mostra a transformação sistêmica do país com enfoque rigoroso

Aurora Bernardini *, Especial para O Estado

01 Setembro 2018 | 16h00

 O primeiro capítulo do novo livro de Lenina Pomeranz lançado pela Editora Ateliê, Do Socialismo Soviético ao Capitalismo Russo - A Transformação Sistêmica da Rússia, que vai dos primórdios da fundação do Estado Russo à revolução de Outubro é, sem dúvida alguma, por suas características históricas, antropológicas e até literárias, a abertura ideal para a leitura dos capítulos restantes que, sempre com enfoque rigoroso, são mais marcadamente político-econômicos.

De fato, como diz Lenina na primeira nota, a fonte primária das Preliminares Históricas à Constituição do Sistema é o livro controverso e original The Russian Tradition (Londres, 1974) de Tibor Szamuely, nascido em Moscou em 1925, oficial do Exército soviético, preso político num campo de trabalhos forçados, emigrado primeiro na Hungria e depois na Inglaterra, onde até sua morte, em 1972, lecionou História. Entre as teses que o livro tende a demonstrar está a que a URSS sob Lenin se assemelha, em muito aspectos, à Rússia dos czares (e sob Stalin, dirão outros estudiosos mais recentes, à Rússia dos tártaros).

O livro de Szamuely , que termina com Lenin, se inicia com o testemunho de dois escritores franceses famosos sobre a Rússia: o primeiro é o do marquês de Custine (o mesmo que aparece como “o Europeu” no filme A Arca Russa de Sokurov, acompanhando o narrador pelas salas do Palácio de Inverno de São Petersburgo), que, após sua viagem pela Rússia em 1839, assim a define: “ É um país em que o governo diz o que quer, pois só ele tem o direito de falar...”. O segundo é o de André Gide, o grande apólogo do socialismo da URSS, que, visitando o país um século mais tarde, mostrou seu desapontamento no livro De Volta da URSS (1937).

Quanto à “alma russa”, Szamuely cita o último poema de Aleksandr Blok, escrito três meses após a Revolução de Outubro: “Sim – nós somos Citas! Sim – somos Asiáticos/ Com nossos olhos tortos – de rapina!”. E explica que ela é produto dessa incerteza lancinante que o russo tem quanto a sua posição geográfica, social e espiritual no mundo, a consciência de uma personalidade nacional dividida entre o Oriente e o Ocidente.

O primeiro Estado russo -- começa Lenina –- foi estabelecido no século 9, na cidade ucraniana de Kiev que, segundo Maurice Baring, no ano de 1200 era uma cidade florescente como qualquer grande capital europeia e que dominava milhares de pequenas comunidades camponesas isoladas, principalmente no Nordeste do país. A situação mudou de 1237 em diante, com a invasão mongol que derrotou a resistência russa, estabelecendo um império que durou mais de dois séculos, mas trazendo consigo – diferentemente de outras hordas que haviam invadido precedentemente a Rússia – uma soberba organização militar e administrativa, o conceito de poder absoluto e ilimitado do Khan, a submissão total de todos, e a delegação de certas funções de Estado a príncipes russos de confiança. Alguns desses príncipes, assimilando os conceitos e as práticas dos tártaros, tanto militares quanto administrativo-financeiras, foram anexando pacientemente as antigas terras russas em volta de seus centros, sendo o principal deles o de Moscou sob Ivan IV, dito “o Terrível” (1530-1584), imortalizado no clássico filme de Eisenstein, que instituiu a primeira polícia política da Rússia, a Opríchnina.

Já a assim chamada “modernização” da Rússia começou em meados do século 17 com as reformas de outro czar famoso, o europeizante Pedro, o Grande (1698-1725), sempre com o Estado sendo o motor e o mentor desse processo, que trouxe como novidade a fundação de São Petersburgo, a absorção da tecnologia e da eficiência industrial do Ocidente por duzentas empresas que levaram ao desenvolvimento, em particular, da mineração e da metalurgia, a criação de uma esquadra naval e de um exército permanente.

O reinado de Catarina II ( 1762-1796), outra déspota esclarecida, correspondente de Diderot, Voltaire e Montesquieu, importante por suas conquistas territoriais e pelo poder econômico, não beneficiou, entretanto, as condições de vida de seus súditos mais pobres.

A industrialização era vista pelos czares como uma ameaça à autocracia por parte de um proletariado rebelde, até a derrota russa na guerra da Crimeia (1854-1860), depois do que se tornou acelerada e inevitável. De fato, houve uma série de revoltas que levaria à Revolução de 1917, mas não – inicialmente – promovidas pelas classes subalternas. A Revolução Decembrista de 1825 foi uma revolta de jovens estudantes e oficiais de famílias aristocráticas, que pretendiam abolir a servidão da gleba e instituir um regime constitucionalista. Foram traídos e a repressão foi violenta: exílio, prisão e morte, além de o país acabar coberto por uma rede de espiões policiais e de informantes. O medo – diz Lenina -- tornou-se a regra básica de vida. A cisão entre a sociedade e o poder tornava-se cada vez mais insustentável, fazia-se necessária uma liberalização. Foi o que tentou o novo czar Alexandre II (1855-1881), concedendo emancipação formal aos servos da gleba, em 1861. Entretanto, a fórmula adotada foi tão confusa e contraproducente que acabou preservando as condições da servidão (confusão esta que prenuncia o que aconteceu 130 anos mais tarde com a “privatização de massa”, quando da passagem do socialismo para o capitalismo). Ironicamente, diz Szamuely, foi a emancipação dos servos, pelo desapontamento causado pelos termos duros impostos aos camponeses, que deslanchou o movimento populista. A filosofia do populismo fora criada por Herzen (1812-1870) e, adaptando o conceito europeu de socialismo, passou a ser considerada a base ideológica do movimento revolucionário russo do século 19.

A pedra angular do populismo russo era uma instituição tipicamente russa: a “óbschina”, propriedade comunal ou conjunto de terras cultivadas em comum pelos camponeses, de responsabilidade coletiva e regida por cláusulas validadas por uma assembleia (mir) que incluíam o pagamento da taxa devida ao governo. Foi essa instituição que, esparsa no país, contribuiu para salvaguardar, de certa forma, a consecução da Revolução Russa, embora o livro de Lenin, O Desenvolvimento Capitalista na Rússia (1899), tenha vindo a defender a ideia de que a revolução devia apoiar-se na classe operária.

A emergência do populismo como ideologia político-social deveu-se à obra literária do líder reconhecido da intelligentsia, Tchernichevski, O Que Deve Ser Feito? (1863), romance que, ao lado de Pais e Filhos (1862), de Turgueniev, inspirou muitos jovens a se voltarem para a atividade revolucionária. Antes da Revolução de Outubro de 1917 houve outras duas, a de 1905, depois da derrota que a Rússia sofreu na guerra contra o Japão e famosa por haver sido precedida pelo “Domingo sangrento”, quando, em janeiro de 1905, foi dizimada a grande multidão de manifestantes pacíficos que se dirigiam ao Palácio de Inverno, em São Petersburgo, para apresentar uma petição a Nicolau II, e a de Fevereiro de 1917, que levou o czar a abdicar no dia 2 de março (pelo calendário juliano).

Tanto sobre os primórdios da Revolução de Outubro, como sobre sua eclosão e seus desdobramentos, descritos detalhadamente por Lenina, há um sem número de livros publicados, tanto no Ocidente como no Oriente, que não têm como ser comentados aqui. Questões há, é claro, que mereceriam ser levantadas. Mas fiquemos aqui com a primeira e a mais importante: a Revolução de Outubro foi golpe de estado bolchevique ou foram os profundos conflitos sociais que levaram os bolcheviques a uma posição dominante? 

A tomada de poder pelos bolcheviques realizou-se em dois momentos: a dissolução da Assembleia Constituinte na qual os socialistas revolucionários obtiveram 40% dos votos, ficando os bolcheviques em segundo lugar (dissolução esta decretada por Lenin em 5 de janeiro de 1918) e a dissolução da coalizão socialista entre os bolcheviques e os socialistas revolucionários, em março de 1918, com a assinatura por parte dos bolcheviques do Tratado de Brest-Litovsk, pelo qual a Rússia se retirava do conflito da 1.ª Guerra Mundial. A insurreição de outubro foi um golpe vitorioso, não porque golpista, mas porque foi combinado com o atendimento a reivindicações das amplas maiorias.

Claro está que um governo de classe, em que os estratos mais baixos da sociedade excluíam os outros estratos do poder político, juntamente com os interesses dos países inimigos, acabou levando à Guerra Civil, que durou até 1922. Lenina detém-se, como economista e estudiosa de política que é, particularmente na Nova Política Econômica (1921-1928) até 2016, justamente nos aspectos político-econômicos tanto da URSS quanto da Federação Russa, mostrando como se deu o processo de transformação da URSS socialista na Rússia capitalista, o que torna o livro extremamente elucidativo e, em muitos casos, completamente original. Ficamos conhecendo as causas (Ieltsin, em grande medida) do fracasso da perestroika e a intensidade dos conflitos políticos que vieram à luz graças à glasnost, chegando-se à dissolução da URSS e à constituição de países independentes nas ex-repúblicas soviéticas.

A anomia governamental e a grande corrupção da equipe de Ieltsin (ele próprio doente e mentalmente abalado) levaram à renúncia presidencial e à fase ulterior de transformação. Nessa fase, com Putin, o ex-agente da KGB na Alemanha Oriental como herdeiro longamente buscado, foram consolidadas as transformações do sistema nos moldes em que funciona hoje: a centralização do poder e a institucionalização do nacionalismo como base ideológica, implicando uma política externa de defesa dos interesses nacionais russos e, simbolicamente, a assimilação do passado pelas três bandeiras que expressam a trajetória do país pelos diversos sistemas que marcaram a sua história: o Império, o Czarismo e a Revolução. 

* É professora de pós-graduação em Literatura e Cultura Russas daUSP

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