A salvação

"Nada acontece quando você fica em casa", disse uma vez o fotógrafo franco-americano Elliot Erwitt. O paulistano Rafael Stedile, de 28 anos, acrescentaria: "Quando você fica no escritório, também". Por quatro anos ele foi publicitário. Por quatro anos sentiu falta. O tudo aconteceu em 2012 em uma viagem ao Haiti intermediada pela Via Campesina, que lá mantém trabalhos sociais. "Levei uma câmera e toda a minha experiência de fotógrafo turista", conta. Trouxe de volta uma decisão, ou duas: largar a publicidade, abraçar a fotografia. Prestes a se formar psicanalista, ele diz ter dificuldade de se considerar fotógrafo - embora trabalhe como tal e as imagens destas páginas deixem claro o que ele é.

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2013 | 02h05

O que te incomodava tanto na vida

de publicitário?

É uma profissão ingrata. Por trás da imagem jovial de um publicitário descolado que trabalha de bermuda e come em restaurantes bacanas existe um funcionário hiperexplorado, muito bem ou muito mal pago, condicionado a abrir mão de uma vida fora da agência para satisfazer a alguma exigência desmedida dos clientes. Tem quem goste, só que não é pra mim. A coisa mais sensata - e saudável - que pode se passar com um jovem publicitário é estar em crise com a própria profissão. Isso acontece com muita gente. E é ótimo, porque nessa profissão, quanto mais velho e mais experiência você tem, mais obsoleto você fica.

E aí aparece a fotografia como libertação?

Nunca planejei nada. Simplesmente fui indo, vivendo. Com medo, mas fui. Desconfio dessas coisas libertadoras. Quando surgiu a oportunidade de conhecer o Haiti, não pensava na volta, só na experiência. Se pensar muito você não faz as coisas. Não achei que me tornaria fotógrafo. Até hoje tenho dificuldade em me considerar um fotógrafo. Só que você não vai ao país mais miserável da América, com as contraditórias forças de paz da ONU militarizando o local, com surto de cólera e febre tifoide, porque quer dar uma arejada no seu problema de classe média. Eu fui atrás de uma experiência significativa. Queria construir algum sentido. Então, tomar a decisão foi fácil. Difícil foi me virar depois, recomeçar do zero numa nova profissão em que eu ainda sou iniciante. Mas a questão é simples: o IBGE te promete, em média, uns 70 anos aqui no Brasil. Quanto tempo você está disposto a passar dentro de um escritório vendo as mesmas pessoas e rindo das mesmas piadas? É disso que se trata.

Que Haiti você encontrou?

Um país tranquilo onde o cuidado maior deve ser com a higiene e com a água que você toma. Fiquei um mês no interior fotografando os projetos sociais que a Via Campesina mantém com os movimentos sociais haitianos. Trabalhos ligados à produção orgânica de alimentos, instalação de cisternas, reflorestamento. Não havia luz elétrica nem água encanada. Um país devastado por causa de sua matriz energética, o carvão, mas ainda assim um lugar bonito, de gente receptiva, digna e forte, que padece há anos da falta de um Estado. Mas o Haiti não tem pontos turísticos. Qualquer foto lá é foto social.

E o que você trouxe além de belas fotos?

Uma experiência inigualável. Viajei na garupa de uma moto numa estrada de lama, sem falar creole, num país 100% negro, onde ser branco chama absurdamente a atenção. Eu tinha certeza de que era o primeiro branco que algumas crianças viam na vida. Os olhares estarrecidos, fascinados, assustados e curiosos... Foi fascinante, inesquecível. De longe a melhor coisa que fiz na minha vida.

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