CTI Records
CTI Records

A saudade de Tom Jobim, morto há 25 anos

Sérgio Augusto relembra as memórias que teve do compositor em vida e em seu último adeus

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2019 | 16h00

Se eu fosse supersticioso, carregaria comigo uma culpa de proporções bíblicas: a culpa de haver matado Tom Jobim. Como não sou supersticioso, ela foi facilmente superada. 

De tanto eu protelar a execução do obituário antecipado do Tom para o Banco de Dados da Folha de S.Paulo, deu-se que o maestro soberano acabou morrendo sem o previsto necrológio na morgue do jornal. Por ser um obituarista pé-quente (meus “mortos”, mesmo os mais caquéticos e mofinos, demoravam à beça a bater as botas), cismei que Tom não teria morrido em 8 de dezembro de 1994 se eu, conforme combinado, tivesse escrito seu obituário antes dos de Nora Ney (viveu mais 10 anos) e Marlene (mais 21 anos). 

Resultado: tive de escrever o obituário no laço, ainda impactado pela notícia da morte. 

Seis anos depois, não para me redimir, publiquei o Cancioneiro Jobim, uma biografia musical daquele que, para mim, foi o nosso mais inspirado e completo compositor, a síntese perfeita do que nos legaram Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Ary Barroso

Não fomos amigos, apenas conhecidos, de obas e olás, entrevistador e entrevistado. Posso, no entanto, me gabar de haver presenciado um dos momentos mais discretamente grandiosos do maestro. Foi durante a primeira gravação de Águas de Março, a face A de um compacto com o selo do Disco de Bolso do Pasquim, feita num estúdio em Botafogo, bairro da zona sul carioca, em plena Semana Santa de 1972. 

Ao chegar ao estúdio, Tom, que apenas cantou no disco, surpreendeu-se com a presença de quatro flautistas, pois seu arranjo previa três. O violonista Eduardo Ataide, coordenador da gravação, convidara um a mais, para cobrir um eventual forfait. 

“Posso dispensá-lo”, propôs Ataíde. “Nada disso”, reagiu Tom, "o rapaz pode ficar muito triste”. Ato contínuo, sentou-se no chão do estúdio, enganchou no nariz seus oclinhos meia-lua, pegou de um lápis e reescreveu o arranjo. Tom não precisava ser tão humildemente generoso.

Ao velório também fui de penetra, caroneado pela jornalista Maria Lucia Rangel, que cobria as exéquias para o Jornal da Tarde e, por ser íntima de Tom desde a adolescência, tinha livre acesso a todas as etapas do cerimonial. O que se segue é um resumo, no pretérito perfeito, do que testemunhei naquele dia, mais do que imperfeito, avassaladoramente triste. 

Ana Jobim, viúva de Tom, não quisera vir no cortejo fúnebre entre o aeroporto do Galeão e o Jardim Botânico. Preferiu espairecer um pouco antes do velório entre as flores, as árvores e os bichos do lugar que seu marido considerava "o recanto mais bonito do mundo". Trouxe consigo a filha Luiza, de sete anos, e foi deixada em paz por repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, que, respeitosamente, se limitaram a observá-la de longe, recolhida a um banco defronte ao minúsculo lago que marca o acesso à Aleia Caminhoá.

Sereníssima, cercada por quatro ou cinco amigos muito íntimos, Ana se confessou confortada por ter sido curta a agonia do marido e menos traumática do que se podia esperar a reação da filha. A Prefeitura do Rio lhe havia proposto o óbvio, o saguão do Teatro Municipal, Ana preferia o Jardim Botânico, espaço aberto e arejado. Fazia calor na cidade, mas, ainda que a temperatura estivesse amena, ali era o paraíso do Tom. Duas semanas antes ele passeara naquelas aleias com Luiza. 

Ana ainda desconhecia a intenção do prefeito César Maia de trocar o nome da avenida Vieira Souto, frontal à praia de Ipanema, para avenida Antonio Carlos Jobim. Achou ótima ideia, apesar das suspeitas de que Tom talvez preferisse ser homenageado com um teatro ou centro cultural. Como é sabido, ele acabou virando nome do aeroporto internacional do Rio e de um espaço no Jardim Botânico.

Às especulações da mídia sobre uma suposta barbeiragem médica cometida no hospital Mount Sinai, de Nova York, onde Tom morreu, Ana acrescentou o estritamente necessário. Segundo ela, apesar das deficiências cardiovasculares,Tom estava apto a ser operado da bexiga, desde que não fosse submetido a uma anestesia geral, cujos efeitos em pacientes com obstrucao de coronária podem ser fatais. A opção pela anestesia peridural não teria maiores consequências se o anestesista do Mount Sinai, abusando do otimismo, não tivesse submetido Tom a uma pequena dose de anestesia geral.

Só às 14h15 o esquife chegou ao Jardim Botânico e foi levado para o interior da Casa dos Visitantes, onde apenas duas coroas de flores, uma dos familiares e outra do embaixador do Chile, Heraldo Munoz, emolduraram o velório. As 14h25, Ana pediu aos amigos que se recolhessem, por alguns instantes, às duas salas contíguas à Casa dos Visitantes, para que Tom—todo de branco, com três rosas rubras e uma orquidea sobre o peito—fosse velado exclusivamente pela família.

Dez minutos depois, os amigos retornaram à sala principal para o último adeus. Rafael Rabello beijou, aos prantos, a testa do mestre. Billy Blanco, comparsa do primeiro sucesso de Tom, Teresa da Praia, alisou os cabelos do parceiro durante quase um minuto, enquanto balbuciava uma prece. Francis Hime repetiu o gesto de Billy, derramando sobre o rosto de Tom um longo olhar de infinita ternura. Aberta a porta, outros amigos e parceiros foram entrando, para ver Tom, alisar seu cabelo, acariciar sua testa, beijar seu rosto, e desejar-lhe um feliz reencontro natalino com Vinicius, Pixinguinha e outros que já haviam partido desta terra que nunca deixou de ser uma promessa de vida em seu coração.

Tudo o que sabemos sobre:
Tom Jobim

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.