A sedução de Hillary

TOM LASSETERQuando Hillary Clinton visitou Mianmar, na quarta-feira, os vizinhos ficaram observando atentamente. A viagem a esta nação costumeiramente fechada, a primeira de um secretário de Estado americano em mais de meio século, aumentou as suspeitas da China de que os Estados Unidos estejam adotando uma estratégia de contenção para bloquear a ascensão chinesa.

, MCCLATCHY NEWSPAPERS, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h07

Um editorial da edição em língua inglesa do Global Times, tabloide chinês de tendência nacionalista controlado pelo Estado, afirmou que a visita de Hillary a Mianmar "suscitou especulações quanto à possibilidade de os EUA tentarem tirar a ex-colônia britânica da China, porque parece que os países vizinhos da China se mostram cada vez mais favoráveis aos EUA". Vários observadores da política externa chinesa se interrogam sobre o objetivo da visita.

"Estamos preocupados com a influência que os EUA pretendem exercer em Mianmar", disse Zhu Feng, um especialista em relações internacionais da Universidade de Pequim. "Mianmar será um teste para a política americana em relação à China."

Será que os americanos pressionarão para que Mianmar empreenda uma série de reformas, desdobramento ao qual a China provavelmente não se oporá desde que estes avanços sejam controlados e comedidos? Ou será que os EUA pretendem usar a nação na fronteira meridional da China como contrapeso a Pequim? Ou ainda talvez ambas as coisas?

As preocupações destacam a complexidade das relações entre os EUA e a China. De um lado, estão os vínculos econômicos que incluem mais de US$ 457 bilhões em comércio, no ano passado, e o fato de a China deter mais de US$ 1,1 trilhão de títulos da dívida do Tesouro americano. Do outro, o crescente poderio chinês que incomoda os EUA e grande parte do Ocidente por causa dos planos de Pequim a longo prazo.

Quando o presidente Barack Obama anunciou, no dia 18, que Hillary visitaria Mianmar, ele enfatizou o "vislumbre de progresso" realizado pelo presidente Thein Sein e o desejo americano de "fortalecer uma transição positiva". E frisou que recebeu apoio para da mais famosa militante de Mianmar em prol da democracia, Aung San Suu Kyi, para o envolvimento dos Estados Unidos na questão.

O contexto do anúncio de Obama sugeriu que a China e seu prestígio na região preocupam bastante os membros do governo. Obama anunciou a viagem de Hillary enquanto participava de uma cúpula em Bali, na Indonésia, onde funcionários americanos insistiram numa discussão aberta sobre as atuais disputas territoriais da China com os vizinhos no Mar da China Meridional. Foi uma conversação, com Obama e o premiê chinês Wen Jiabao na sala, que a China queria muito ter evitado.

Um dia antes, Obama disse ao Parlamento australiano que os EUA adotaram uma "decisão estratégica e deliberada, como uma nação do Pacífico", assumindo um papel de longo prazo no desenvolvimento desta região e no seu futuro". Ainda na Austrália, ele anunciou planos para enviar um contingente rotativo de 2.500 fuzileiros navais ao país.

Para muitos observadores da política americana, a presença de Hillary Clinton em Mianmar - país alvo de sanções econômicas dos EUA e governado por uma junta militar conhecida pelos abusos contra os direitos humanos - é uma peça a mais do que consideram um mosaico muito claro. "Ela se insere no grande ajuste político dos EUA para restaurar sua presença na região Ásia-Pacífico, mas a principal força propulsora é a preocupação com a China", disse Wang Yong, diretor do Centro de Economia Política Internacional na Universidade de Pequim.

Não há dúvida de que Washington ganhou diplomaticamente com a disputa entre China e outros países, incluindo Vietnã e Filipinas, relacionada com reivindicações concorrentes ao Mar do Sul da China. A cada altercação, aumenta a importância americana, como proteção contra a dominação chinesa. O mesmo vale no caso de desacordos que quase transbordaram no ano passado entre China e Japão envolvendo a propriedade de uma faixa de ilhas no Mar da China Oriental conhecidas na China como Diaoyu e no Japão como Sensaku.

No ano passado, a China teve desavenças com a Coreia do Sul, que se aproximou ainda mais dos EUA, depois que os chineses se recusaram a condenar seus aliados norte-coreanos por terem, supostamente, torpedeado e afundado um navio da marinha sul-coreana. E a China também não se manifestou depois que a Coreia do Norte lançou bombas contra uma ilha sul-coreana.

Apesar dessas idas e vindas, hoje a questão fundamental para China e EUA é manter os vínculos, disse Zhu Feng. "A competição geopolítica não é tudo nas relações entre os dois. Não é uma Guerra Fria", afirmou. Wang, seu colega na Universidade de Pequim, concorda, mas com uma advertência: "Temos confiança em nós mesmos. Com a economia dos EUA em crise e a Ásia, sob vários aspectos, dependendo da China", afirmou ele, "se os EUA adotarem uma estratégia de contenção, acho que esses países terão cautela em se aliar aos americanos"./ TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA E TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.