A sedução do abismo

A sedução do abismo

Entrevista com

Miguel Rio Branco

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2014 | 16h00

A poetisa Adélia Prado diz que tudo no mundo gira em torno de três coisas apenas: sexo, morte e Deus. “Meu trabalho é exatamente isso”, concorda Miguel Rio Branco, multiartista plástico, gigante da fotografia contemporânea, provavelmente o maior. Filho de diplomata brasileiro, nascido na Espanha em 1946, morador do mundo e agora estabelecido em Petrópolis (RJ), ele está lançando Maldicidade, livro que reúne fotografias feitas entre 1970 e 2010 em zonas urbanas de diversos países. Não há identificação de lugares, tampouco de época. A obra não traz um texto sequer. Mesmo assim, é de uma loquacidade nauseante. Para Rio Branco, uma fotografia sozinha é uma palavra. Uma sequência de fotografias pode ser uma frase, um verso, um poema. E, falar demais de fotografia (sobretudo se for para tentar mais compreendê-la do que senti-la), uma chatice. A montagem acima foi elaborada por ele, a pedido dele, com imagens do livro. Na entrevista a seguir, o criador comenta suas criaturas feitas à base de sexo, morte, Deus, muita cor e alguma crueldade.

Sua obra me remete ao livro O Mal Ronda a Terra, do historiador inglês Tony Judt. Muito pelo título e menos pelo conteúdo, uma crítica ao mundo conservador neoliberal.

Nem sempre meu trabalho é pessimista. Este livro não é. Maldicidade é um jogo de palavras pensado no francês mal d’amour. Você sofre de amor: ama, isso te dói e você não consegue evitar. Às vezes melhora, depois piora... Maldicidade é isso em relação às cidades. No Brasil não existe mais amor pelas cidades. Existe sedução, atração, como a que sentimos pelo abismo. Em 1978 eu fiz a exposição Negativo Sujo mostrando a situação de bangue-bangue no Nordeste. O Brasil continua um bangue-bangue. Esse Estado totalitário disfarçado de ajuda aos pobres é a maldicidade: não resolve porra nenhuma nas cidades. Mas vemos aqui e ali comunidades se organizando para viver de maneira alternativa.

Você partiu para isso ao ir morar no campo?

Não totalmente, porque ainda estou preso a situações de trabalho na cidade. Mas minha tendência é me afastar pra pensar a cidade fora dela. A cidade não tem mais jeito. Esse livro traz a postura crítica e o lirismo que sempre me acompanharam. É um panfleto. Eu vivo no mato, cercado de natureza e sossego, mas, quando saio, caio na estrada esburacada, sem calçada para as pessoas caminharem, com um ponto de ônibus logo depois da curva e onde toda semana morre um motociclista. Aí mergulho no pessimismo mesmo.

Qual o mal maior que ronda o mundo hoje?

O de sempre: a ganância, a vontade imperialista de dominar os outros, a falta de abertura pra ideias diferentes, esse processo industrial que leva as pessoas a uma vida de consumo de supérfluos. Aqui perto de casa tá tudo queimando. E não é porque tá seco, é porque as pessoas tacam fogo. É tudo uma cagada gigantesca: a gente não considera nem a própria sobrevivência. E ainda chamam as comunidades indígenas de selvagens. Selvagens somos nós. Estamos dominados por um sistema falido, perverso, moralista e baseado no medo. A salvação é ter consciência, dividir e boicotar. Desobediência civil.

Só isso?

E a mulher. O feminino é algo que ainda segura o mundo, impede que ele desmorone de vez. Se bem que hoje muitas mulheres perseguem o poder como se o poder fosse algo interessante... 

Você disse uma vez que sua vida é toda de juntar pedaços. A fotografia te ajuda a recuperar alguma inteireza?Às vezes tento formalizar um quebra-cabeça, juntar umas partes, ver quais coincidem, se fazem sentido. Mas recuperar inteireza não recupera não. Nem me interessa recuperar. A fotografia sozinha nunca foi a minha preocupação. É mais o processo de montagem, colagem. Nunca fui só fotógrafo, fotografo pouquíssimo hoje, mas continuam me chamando de fotógrafo. Eu uso o documento fotográfico pra transformá-lo numa visão poética pessoal. A criação artística como função espiritual, um jeito de tocar as pessoas com algo que está dentro de você. Outro dia o Maldicidade caiu nas mãos de um artista plástico médio e o cara não parava de perguntar: “Essa foto é onde? Isso é o quê?”. Não conseguiu entrar no discurso do livro. Pra ele, é um álbum de turismo. A fotografia tomou o lugar da pintura descritiva, aquela coisa lambidinha que todo mundo sabe o que é. O tal boom da fotografia embute uma visão estética reacionária.

Fala-se tanto da democratização da fotografia, do bom momento do mercado...

Isso é bobagem, né, porra! Democratização é vender? Eu não acho essencial todo mundo comprar fotografia pra pendurar na parede. Um bom colecionador é o cara que, por meio da coleção dele, faz um retrato de si mesmo. Mas hoje tem esses curadores aí que ficam dizendo pros caras o que eles devem comprar porque vai valorizar. Então, 90% dos colecionadores são só especuladores. Essa democratização da fotografia é, na verdade, uma burrificação total das pessoas.

Sexo, morte e Deus. Você acredita em Deus?

Acredito. Não um Deus de uma igreja específica. Uma questão de energia.

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