A segunda morte
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A segunda morte

Com o declínio das visitas aos cemitérios os finados morrem definitivamente, relegados à indiferença e ao esquecimento

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

08 Novembro 2014 | 16h00


A declinante frequência de visitantes dos cemitérios no Dia de Finados provoca apreensão sobre os fatores do declínio. Há uma ponta de censura aos contemporâneos e à modernidade pelo desapego à tradição e aos lugares da memória. Já em tempos recuados, quando os cemitérios ainda eram recentes entre nós, um jornalista do Correio Paulistano visitou os cemitérios da cidade, no Dia de Finados de 1898. Constatou que poucos apresentavam sinais de que haviam sido objeto do interesse de alguém, como a limpeza e a colocação de flores, não obstante o lugar dos enterramentos fosse ainda considerado lugar sagrado. O progresso material e a decorrente banalização da morte, o arrefecimento dos laços de família e de amizade, afetaram ainda mais a observância do dia por excelência do ritual do luto. 

Desde então vem se robustecendo uma insidiosa segunda morte de nossos mortos. Raramente temos consciência de que eles morrem uma segunda e definitiva vez quando os relegamos ao esquecimento e à indiferença em relação ao que foram para nós. Uma coisa é morrer biologicamente, o que os antigos chamavam de “último suspiro”. Outra coisa é a morte decorrente da cessação da relação interativa com quem se vai. A morte mata um pouco, também, quem fica, que na morte do outro perde uma de suas referências, perde a referência bilateral da ressocialização contínua, que é o pilar da sociedade. 

A ressurreição é mais comum e normal do que supomos. Nas aulas de sociologia que eventualmente dou nos cemitérios para alunos do curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia da USP, segunda morte e ressurreição são temas subjacentes e implícitos. A maioria nem se dá conta de que a visita aos lugares da memória é um modo de resistir, em nome do que os mortos foram, à segunda morte. Nossos mortos morrem de novo quando nós os abandonamos pelo esquecimento. Renascem quando deles nos recordamos, seja nas visitas a seus jazigos, seja nas conversações em que os rememoramos. 

Nunca encontrei Monteiro Lobato pessoalmente, mas me lembro vivamente de um dia de 1948 quando a professora do terceiro ano do Grupo Escolar Pedro Taques, na estação de Guaianases, um pequeno povoado de gente muito pobre, comunicou aos alunos que ele havia morrido. E nos disse que ele faria falta porque escrevera histórias para crianças como nós. Mais tarde, quando tive dinheiro para comprar livros, eu descobriria que histórias eram essas. E numa visita ao Cemitério da Consolação fui visitar seu túmulo para ouvir as palavras de seu silêncio que falam dentro de mim sobre a imortalidade de seu saber e de sua alma de criança. 

Tenho um número grande de conhecidos nos cemitérios de São Paulo e de outros lugares. Gente que nunca vi, mas que mesmo na sua morte deram vida à sociedade em que vivo. Já saí de minha casa, no Butantã, só para visitar o túmulo do capitão Joaquim Távora no Cemitério do Chora Menino, lá para os lados de Santana. Ele foi o grande comandante da Revolução de 1924 que sonhou com um país que não chegou a ver, democrático e próspero: fora abatido num ato de traição em combate na Rua Vergueiro. Surpreendeu-me que, sepultado tão longe de seus familiares e amigos, ainda haja quem mantenha limpa e bem cuidada sua campa. Alguém que o ressuscita todos os dias em nome de uma generosa consciência de pátria. 

No Cemitério da Consolação, visito imaginariamente o túmulo, que já não existe, de Emiliano, o filho do poeta Fagundes Varela. Em horas tardias vinha o poeta chorar os versos do Cântico do Calvário sobre um montículo de terra, na Quadra dos Anjos Pequenos, a dor pelo seu menino que morrera de pobreza numa casa simples do bairro do Brás, aos 3 meses de idade. Ainda posso ouvir seus versos soprados pela brisa da manhã: “Eras na vida a pomba predileta / Que sobre um mar de angústias conduzia / O ramo da esperança”. 

Com frequência junto minha gratidão à Prece, do escultor Bruno Giorgi, no túmulo de Armando Sales de Oliveira, criador da Universidade de São Paulo. Milhares de brasileiros, de São Paulo e de outros Estados, puderam estudar na melhor universidade pública do País graças à decisão desse estadista que, em 25 de janeiro de 1934, a criou como um grande e imorredouro gesto da civilização contra a barbárie. Não fosse esse gesto eu mesmo e a maioria dos alunos que ali me ouvem nunca teríamos tido a oportunidade de ingressar na universidade.

A ressurreição está também simbolizada na mais bela escultura cemiterial que conheço, O Sepultamento, de Victor Brecheret. No Cemitério da Consolação, ela celebra a vida cidadã de d. Olívia Guedes Penteado e seu marido, patronos da formação de grandes artistas paulistas. Mesmo que muita gente se mostre indiferente aos mortos e ao que eles representam, a arte funerária dos nossos cemitérios fala pelos ausentes e os povoa com a saudade do belo. Quem assume a grande missão da emancipação dos seres humanos de suas misérias e carências, as da matéria e as do espírito, nunca está só. Nem morre.

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José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Autor, entre outros livros, de Uma Sociologia da Vida Cotidiana (Contexto, 2014)

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