Lidia Ueta
Lidia Ueta

'A sobrevivência da língua requer a sobrevivência do corpo', diz o escritor Francisco Mallmann

Poeta e dramaturgo curitibano prepara o terceiro livro, que será lançado pelo Grupo Record, enquanto levanta bandeiras sob forma de poesia concreta na paisagem urbana: 'A palavra é um gesto coletivo'

Gustavo Queiroz, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 10h00

O escritor curitibano Francisco Mallmann estampa poesia concreta em bandeiras: “AMÉRICA É MARICA”, decreta. O rearranjo das letras para ocupar um novo espaço de sentido ecoa com força na paisagem urbana. Quando esta bandeira foi fixada no alto de uma movimentada esquina em Curitiba, causou estranhamento, já que é impossível compreendê-la em um único instante. É preciso alguns sustos, sobressaltos, memórias e, então, os 16 caracteres que caberiam em um tuíte se transformam em um manifesto compartilhado - o mesmo descrito na obra As Veias Abertas da América Latina (1971), do uruguaio Eduardo Galeano. 

Bandeiras são levantadas em espaços de fronteira, onde muitas existências se encontram e se dividem. Com elas, Francisco usa a palavra para transformar territórios disputados em gestos coletivos. “Na fronteira muitas coisas atravessam e acontecem. É um lugar de paragem transitória, então eu me sinto fronteiriço em relação à criação mas também em relação a quem eu sou”, afirma.

Graduado em Jornalismo e Artes Cênicas e mestre em filosofia, Mallmann produz uma obra em trânsito. Uma sobreposição de narrativas que inevitavelmente acontecem “no quadro único em que a história se dá”, forma como o geógrafo Milton Santos descrevia o conjunto de ações que constituem as cidades. Profundamente envolvidas com o território, as palavras de Mallmann não carregam slogans, pois não existem para serem vendidas. Seus textos são sintomas das dores coletivas. Por isso, ele escreve em alta escala: “A memória é uma ação política”; “escrever como quem diz estou viva”, “não há reconciliação possível".

Como forma de criar costuras entre poesia e cidade, Francisco às vezes usa a rua para ler em público as 102 páginas de seu primeiro livro publicado, Haverá Festa Com o que Restar (2018, Urutau). O título da obra também virou bandeira. Ou, ainda, virou convite. Francisco nos chama para juntar os cacos que nos unem e, juntos, “devolver a eles esse grande susto”.

Com o livro, o escritor ficou em terceiro lugar no Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, em 2019. No mesmo ano, a atriz Nena Inoue ganhou o Prêmio Shell de melhor atriz pelo trabalho em um monólogo escrito por Mallmann, a peça de teatro Para não morrer. Em 2020, seu segundo livro também virou bandeira: o América, publicado pela editora Urutau. Agora, prepara o lançamento de sua terceira obra de poesia, que será publicada pela editora José Olympio, do Grupo Record. 

Em qualquer cenário. A poesia existe porque junto dela existe vida. “A sobrevivência da língua requer a sobrevivência do corpo”, diz Mallmann. Em conversa com o Aliás, o escritor fala sobre sua obra, sua relação com a palavra, a “fabricação do impossível” no ambiente online e a criatividade em meio à pandemia. 

Francisco, seu trabalho é muito marcado pela sobreposição entre dramaturgia, poesia e performance. Como você costura esses elementos em uma única obra? 

A lida com a palavra, com a escrita, vai me levando para muitos caminhos em que eu faço esse movimento de modo mais amplo, tentando entender como as coisas se conectam. Meu trabalho com a poesia tem muito a ver com o que faço no campo das artes cênicas, que tem muito a ver com as experimentações com as bandeiras e com a escrita em larga escala. Por isso me interessa investigar esses trânsitos com a palavra, pensando a palavra como material de trabalho central. Eu penso em diminuir essas distâncias entre criação, teoria e prática, tentando dissolver isso numa experimentação contínua que não é compartimentada, separada. A minha relação da escrita para o teatro e o trabalho em coletivos me dá uma conexão muito grande com esses espaço da sala de ensaio em que as coisas acontecem sendo experimentadas, ensaiadas, repetidas. É uma palavra criada para ser falada em voz alta, uma palavra que vira cena, um acontecimento que se dá na arena teatral e na arena pública. A palavra na paisagem compartilhada é criada para ser testada e experimentada.

Essa arena pública é a que leva a poesia do livro às bandeiras?

É interessante essa noção um pouco fixa que o livro tem, no sentido de ser uma palavra estável, que fica esperando um leitor que vai fazer isso sozinho. Para mim é sempre um susto publicar. O dinamismo que a dramaturgia me dá, a palavra sendo renovada a cada novo acontecimento, a cada nova noite, a cada apresentação não acontece no livro. O livro às vezes me espanta. Está impresso, não tem como editar. Não vou ter nenhuma mínima desconfiança da entonação que as pessoas vão dar para isso. Tem uma emancipação que é muito bonita e ao mesmo tempo muito assustadora: o livro vai. Mas as experimentações com essa palavra impressa no tecido, nos grandes papeis, vem da relação carnal que o teatro tem com a ideia de acontecimento. Eu começo a fazer as bandeiras pensando de que modo pensar a palavra materialmente, no campo do visível, em um espaço que é compartilhado por muitas pessoas e aquela palavra surge como um ruído na paisagem, uma espécie de interrupção em um caminho que se dá via distração ou automatismo. 

Como você começou a publicar em bandeiras e o que elas representam para você?

A  bandeira é algo feito por muitos artistas historicamente. Não por acaso, nesse momento de nacionalismos enviesados, a bandeira está sempre como elemento central de disputas de narrativa. Um dos meus primeiros trabalhos nesse sentido teve justamente o nome de Novas Bandeiras, e foram instaladas três bandeiras juntas. A bandeira tem relação com o território, nação, fronteira. Há algo muito interessante para pensar numa perspectiva histórica que a gente atravessa, pois isso remete às noções territoriais e espaciais em que a colonização é instalada, que divide primeiro e terceiro mundo. Eu acho que isso de instalar em lugares que essas palavras podem ser vistas tem uma relação de tentar pensar o que são esses regimes de visibilidade e invisibilidade. Isso envolve uma cognição cultural histórica treinada para ver ou não ver determinadas coisas. Que corpos são vistos e não vistos? Eu gosto de ficar observando as reações das pessoas e perceber o momento em que existe um deslocamento de sentido, como acontece em “América é Marica”. Esses trânsitos entre o normativo, a loucura, o desvio, o ruído, aquilo que não cabe, é uma existência que escapa. Existem várias conexões e recepções possíveis. Quando o sentido também é compartilhado, quando o sentido está posto para ser construído coletivamente, ele ganha uma multiplicidade . 

Como foi o lançamento do seu primeiro livro? Ele também virou bandeira? 

As coisas aconteceram meio juntas. O meu primeiro livro de poesias, o “Haverá festa com o que restar”, foi escrito em 2016 e publicado em 2018. E o cenário desse  livro, dessa promessa de festa, atravessa todo o livro. Diz bastante respeito àquele momento que a gente estava vivendo em 2016 em relação à política institucional e à situação de cerceamento da criação artística que a gente começou a viver a partir dali. A discursividade da criação de inimigos foi se avolumando nos anos seguintes. Então, a primeira bandeira que eu faço é com o título do livro. Eu o escrevi em um pano de mais de dois metros, de modo artesanal, costurando. A partir daí, entendo o que é fazer isso e começo a criar circunstâncias para que a bandeira fosse instalada, para que eu segurasse a bandeira, ou seja, passo a fazer essas espécies de performance. Para mim nada é mais instigante do que voltar a escrever isso publicamente numa paisagem compartilhada.

Há uma relação muito próxima entre seu trabalho e a poesia concreta de Augusto Campos. Quase uma rima sonora entre a obra “Viva Vaia”, de Campos e seu poema “Viado Vivo Viva Viado”. Você se entende influenciado por poetas como ele?

Eu tenho um pouco essa ética de saudar quem veio antes e entender que as nossas criações fazem parte de um cenário mais amplo de experimentações que já foram feitas. Então sou completamente influenciado por essas experimentações de poesia visual, de poesia concreta. Eu consigo perceber como essas experimentações com as palavras via construção, desconstrução e rearranjo e essa sonoridade que o Augusto faz linda e incrivelmente bem chegam para mim. Gosto de pensar a língua e a palavra enquanto essa matéria que vibra, que pode ser rearranjada em uma instância visual, mas também quanto a uma construção e desconstrução semântica e de significado, de ambiguidade,  de sentidos abertos. 

As bandeiras trazem textos curtos e funcionam como um respiro em meio a uma caquistocracia informacional, em que se espera que o mundo seja resumido aos caracteres do Twitter. Como você vê seu trabalho neste ambiente?

Muitas pessoas estão criando para as redes sociais e pensando no impacto que isso vai ter.  Eu percebi que algumas pessoas estavam me lendo como alguém que criava para a internet ou para as redes sociais ou acreditavam que eu penso em visualidade a partir do uso do Instagram. Isso me levou a pensar um pouco sobre recepção de trabalho, sobre o modo com que ele se dá a ver, os contextos em que é compartilhado. Ao mesmo tempo eu percebi que a coisa está tão aberta a ponto das pessoas conseguirem se sentirem aptas a nomear do jeito que elas quiserem nomear, porque nome também é disputa. Nome também é lugar de anunciação. Nome também é contexto. Então, o modo das pessoas estarem me vendo como isso ou aquilo não me diz respeito propriamente.  Mas eu acho que as redes sociais geram um grande interesse das pessoas pela poesia. De fato, esses perfis em que os poemas curtos funcionam como pílulas visuais geram compartilhamentos e uma nova relação com a poesia. Mas eu vejo isso de um jeito completamente oposto ao purismo. As pessoas falam de modo muito purista nessa relação de entender a arte, escrita e leitura. 

A filósofa Hannah Arendt fala que o espaço público da rua é o espaço da visibilidade. A internet também se torna um espaço público de debate?

O que me interessa na Internet é o afastamento de um centro único de enunciação. A forma de pensar a circulação de informações ou de materiais ou de conteúdos mudou profundamente e a gente sabe que meios  hegemônicos, meios tradicionais, perderam o seu lugar de evocação privilegiada. Há uma outra produção de discursividade, uma outra produção de imagem, uma outra produção de enunciado, de narrativa, de enquadramento. A internet consegue, de algum modo, subverter classe, gênero, cor, geografia e uma porção de coisas e criar um descentramento. Mas eu também estou revendo o modo como minha presença se dá porque eu acho que também pode ser um espaço prejudicial. Estou próximo de discussões que as pessoas definem como pautas de cancelamento, por exemplo, e fico olhando para as armadilhas que isso produz. Essas discussões podem ser muito poderosas em relação a criar pequenos-grandes acontecimentos que às vezes freiam uma violência e estancam uma sangria. Mas eu me preocupo em saber o que acontece depois - uma outra espécie de cancelamento. Não um cancelamento midiático e temporário, mas uma alteração substancial de hábitos e de políticas. 

De todo modo, eu acho muito interessante esse potencial imaginativo e de fabulação que a Internet permite que algumas pessoas criem possibilidades de vivenciar uma outra coisa para além do atual estado que está posto. Ela permite que um afrofuturismo venha à tona, por exemplo. Existe uma fabricação do impossível no ambiente online. As pessoas produzem impossibilidades para atuar no estado do horror. Como criar possibilidades para um mundo falido.

Como tem sido o processo de criação durante o período de isolamento social? 

Eu passei por várias fases: de uma tristeza muito profunda e uma desimportância com as coisas que me deixou muito preocupado e foi um momento em que eu não consegui criar absolutamente nada mais efetivo. Fiquei muito assustado com muitas pessoas próximas, com vulnerabilidades muito grandes. Mas eu acabei lançando um livro ano passado no meio da pandemia, o America. Eu acho que esse processo de lançar uma coisa eu havia realizado antes e que estava previsto para apresentar em diversos lugares me resgatou uma espécie de engajamento para saudar o que eu estava fazendo até então. Isso de não deixar com que as coisas parassem, embora estivessem suspensas, me deu uma espécie de chamada de responsabilidade para a construção disso que virá. “Não deixar dormir quem não nos deixa sonhar”. E me vem um pouco esse chamado da criação, uma espécie de ação especulativa. Respeitando muito profundamente o que a gente está vivenciando e atravessando. Também isso acontece com os editais em que tivemos que criar maneiras, e jeitos para fabular a partir desse lugar do confinamento. Isso foi bastante exigente, mas de algum jeito também foi super vibrante. Senti um cansaço muito grande das telas, mas também uma percepção de como seria possível fazer isso acontecer. Um dos projetos que ia acontecer em 2020 era uma dramaturgia que se chamava Yo vi el fin del mundo y me gustó. E, de repente, eu de fato agora vi o fim do mundo.

Seu próximo livro tem sido preparado em meio à pandemia também. Como está essa criação? Ele é diferente do formato dos anteriores?

Eu fui tensionando e aprofundando essa experiência que já estava integrando os contextos em que eu vivia e acabei finalizando esse livro, o Tudo Que Leva Consigo Um Nome, que vai sair pela editora José Olympio, do Grupo Record. Diferente dos outros, ele tem uma espécie de narrativa que o atravessa. Nenhum poema está dissociado do outro e eles acompanham a formulação dessa voz, que é uma figura que escapa. As pessoas não conseguem identificar qual é o gênero. Eu acho que ela tem relação com isso que falamos da fronteira. Essa voz vai se dando via poema e vai entendendo o que é a escrita e como é que ela pode se formular via escrita.

 

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