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A sonegação fiscal, de Al Capone e Edmund Wilson a Trump

Muito antes de o New York Times revelar o beiço que Trump deu no imposto de renda americano, circulou na mídia social uma entrevista do então deputado Bolsonaro jactando-se de suas proezas como sonegador fiscal.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 16h00

Virou ideia fixa a eleição presidencial de 3 de novembro. Consensualmente, é a mais importante do século. Como este século tem apenas 20 anos, amplio o prazo até as eleições de 1932 que levaram Franklin Delano Roosevelt à Casa Branca e à salvação da América pelo New Deal. O que faz do confronto Biden-Trump a segunda mais importante disputa presidencial dos últimos 88 anos. 

O mundo torce mais contra Trump, o monstro a ser derrotado, do que a favor de Biden, o morrinha a ser pragmaticamente tolerado, sobretudo por nós, brasileiros, pois ninguém duvida que uma vitória democrata daqui a um mês poderá resultar desastrosa para as pretensões reeleitorais de nosso clone trumpista em 2022.

Noutro dia, um cartum do Laerte imaginou agentes de nossa Polícia Federal batendo à porta de Joe Biden para prendê-lo, por ordem de Bolsonaro. Desejo não falta ao mais fiel aliado de Trump. Mas, por enquanto, a PF do Capitão Coronga terá de se contentar com ameaçar apenas os adversários políticos daqui que lhe fazem críticas, como é o caso do candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos. 

Ademais, antes de mover qualquer ação repressiva contra o adversário de Trump, Bolsonaro teria de aprender a grafar corretamente o nome de Biden, em seus esperneios por escrito. Não é “John Biden”, porque Biden é Joseph, não John. E se fosse John, como o ex-presidente Kennedy, seria “Jack Biden”, não Joe Biden.

A menos que grafar errado o prenome de Biden tenha sido intencional, o que é bem possível com a chancelaria rancorosa de que no momento dispomos, ainda prefiro apostar na incompetência sistêmica do atual governo, repleto de semianalfabetos disfuncionais, em qualquer idioma. 

Se Laerte tivesse esperado mais uns dias, teria feito outro cartum, com a PF perguntando pelo “Mr. John Biden”, e uma voz de dentro da casa respondendo: “Aqui não mora nenhum John”. 

Agora um mea culpa. Fomos parcialmente injustos ao acusar Bolsonaro de copiar o presidente americano em tudo—exceto, é claro, no cabelo, que o capitão, até por não ser louro e muito menos ruivo, prefere pentear ao estilo Adolf Hitler. Na verdade, pelo menos uma vez na vida Trump copiou ou, no minimo, inspirou-se em seu avatar mais aplicado e subserviente, ao sul, ao norte, ao leste e a oeste do Rio Grande. 

Muito antes de o New York Times revelar o beiço que Trump deu no imposto de renda americano, circulou na mídia social uma entrevista do então deputado Bolsonaro jactando-se de suas proezas como sonegador fiscal.

A um programa de entrevistas, o futuro presidente não só admitiu sonegar “tudo que for possível”, como aconselhou o entrevistador a fazer o mesmo. Não disse “deduzir” nem “abater” ou “descontar”, mas “sonegar”. Tudo que for possível. Só aquela confissão, de resto feita com uma espáfia de baderneiro, justificaria uma ação da Receita Federal, que poderia, eventualmente, culminar com o impedimento de sua candidatura à presidência. Nada, porém, aconteceu. 

A irresponsável bravata do capitão voltou a circular nas redes sociais depois do flagra nas fraudes fiscais do presidente americano. Um vez mais não dará em nada; na melhor das hipóteses, em zombeteiras comparações de Bolsonaro com o gângster Al Capone e outros históricos sonegadores de impostos (o empresário Walter Anderson, a magnata hoteleira Leona Hemsley, o ator Wesley Snipes), como vem acontecendo ao Trump. 

A piadinha que o comediante Stephen Colbert fez com Trump dias atrás—“Ele é tão religioso que paga seus impostos como se fosse uma igreja”—poderia ser adaptada literalmente ao sonegador daqui, se é que Bolsonaro de fato cumpriu o que bazofiou naquela entrevista, por sinal contemporânea de outra em que ameaçou matar, se eleito, “umas 30.000 pessoas, a começar pelo FHC”. 

Uma coisa é líquida e certa: ninguém se atreveria a comparar Bolsonaro a Edmund Wilson, o grande crítico literário e, para muitos, o maior intelectual americano do século passado. Especialmente admirado no mundo inteiro por sua épica história do socialismo e da Revolução Soviética, Rumo à Estação Finlândia, primeiro livro editado pela Cia. das Letras e best-seller instântaneo em nossas livrarias 34 anos atrás, Wilson (1895-1972) consagrou-se também como um sonegador de imposto de renda. Um sonegador do bem, digamos assim.

Vivendo de frilas, Wilson se recusava a considerar como renda os caraminguás que a duras penas amealhava no mercado editorial. Avoado e alheio às mais comezinhas transações financeiras, ficou sem declarar seus proventos à Receita Federal de 1946 a 1955. Um advogado amigo convenceu-o a acertar a dívida com o fisco, para não acabar atrás das grades e devendo uma fortuna em tributos e multas que nem vivendo mais 50 anos teria condições de quitar.

A odisseia que foi o acerto de Wilson com a Receita gerou um livrinho intitulado The Cold War and the Income Tax (A Guerra Fria e o imposto de renda), lançado em 1963, em que ele não só contou em detalhes sua labiríntica e kafkiana defrontação com a burocracia governamental mas também recapitulou a história do imposto de renda americano, instituído em 1861 pelo Republicano Abraham Lincoln, para financiar a Guerra Civil. 

Wilson via o imposto de renda como um tributo para, precipuamente, financiar guerras e a indústria armamentista. O nosso, por exemplo, foi projetado para bancar a Guerra do Paraguai e, sabe-se agora, proporcionar ao Messias das Queimadas um pequeno show de fanfarronice fiscal.

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