BRYAN THOMAS/THE NEW YORK TIMES
BRYAN THOMAS/THE NEW YORK TIMES

A tentação senta ao lado

Cresce a desavença entre judeus ultraortodoxos que querem seguir sua crença e mulheres que desejam apenas manter seu lugar no avião

Michael Paulson, NEW YORK TIMES

11 Abril 2015 | 16h00

Francesca Hogi, 40 anos, havia se acomodado em seu assento de corredor para o voo entre Nova York e Londres quando o homem designado para a janela adjacente chegou e recusou-se a sentar. Ele disse que sua religião o impedia de se sentar ao lado de uma mulher que não fosse sua esposa. Irritada, mas ansiosa para partir, ela acabou concordando em mudar de lugar. 

Laura Heywood, 42 anos, teve uma experiência parecida enquanto viajava de San Diego para Londres via Nova York. Ela estava num assento do meio – seu marido ocupava o assento do corredor – quando o homem com o assento da janela na mesma fileira perguntou se o casal não trocaria seus assentos. A sra. Heywood, ofendida pela noção de que seu sexo a tornava uma colega de assento inaceitável, recusou.


“Não fui rude, mas considerei a razão sexista, por isso fui direta”, ela disse.

Um número crescente de passageiros aéreos, particularmente em viagens entre os Estados Unidos e Israel, vem partilhando histórias de conflitos entre homens judeus ultraortodoxos que tentam seguir sua fé e mulheres querendo tão somente se sentar. Muitos voos de Nova York para Israel, no ano passado, foram retardados ou abortados por essa questão e, com a mídia social espalhando indignação e debate, as disputas geraram uma iniciativa de protesto, uma petição online e um vídeo de segurança paródico de uma revista judaica sugerindo um colete à prova de bala de corpo inteiro (“Sim, é kosher!”) para proteger homens ultraortodoxos de mulheres sentadas perto deles em aviões.

Para alguns passageiros, os pedidos de mudança de assento foram surpreendentes e perturbadores. Em muitos casos, porém, a questão expôs e ampliou tensões entre diferentes facções do judaísmo.

Jeremy Newberger, documentarista de 41 anos que testemunhou um episódio num voo da Delta Air Lines de Nova York para Israel, estava entre vários passageiros judeus que ficaram ofendidos.

“Eu cresci como um conservador, e sou simpático aos judeus ortodoxos”, disse ele. “Mas esse hassídico chegou parecendo muito pouco à vontade e não quis nem sequer falar com a mulher”, afirma Newberger. Houve cinco a oito minutos de ‘Como é que vai ser?’ até a mulher aquiescer e dizer, ‘Eu vou me mudar’. Ele parecia um idiota.”

Representantes dos ultraortodoxos insistem em que o comportamento é anômalo e raro. “Acho que o fenômeno está longe da frequência que algumas reportagens da mídia fizeram parecer”, disse o rabino Avi Shafran, diretor de relações públicas da Agudath Israel of America, que representa a comunidade ultraortodoxa. O rabino Shafran observou que, a despeito de leis religiosas que proíbem o contrato físico entre homens judeus e mulheres que não sejam suas esposas, muitos homens ultraortodoxos seguem a orientação de um eminente erudito ortodoxo, o rabino Moshe Feinstein, segundo o qual é aceitável um homem judeu sentar-se ao lado de uma mulher num metrô ou ônibus contanto que não haja nenhuma intenção de busca do prazer sexual num contato incidental.

“Os homens haredi que eu conheço”, disse o rabino Shafran, usando a palavra hebraica para ultraortodoxo, “não tem nenhuma objeção a se sentar ao lado de uma mulher em qualquer voo.”

Mas inúmeros viajantes, pesquisadores e as próprias companhias aéreas dizem que o fenômeno é real. O número de episódios parece estar aumentando à medida que as comunidades ultraortodoxas crescem em número e confiança, mas também que outros passageiros, por razões de conforto e também de política, reagem.

“É muito comum”, disse o rabino Yehudah Mirsky, professor associado de estudos judaicos na Universidade Brandeis. “O multiculturalismo cria uma linguagem moral em que um grupo pode dizer ‘Você tem de respeitar os meus valores’.”

Anat Hoffman, diretora executiva do Israel Religious Action Center, que começou uma campanha conclamando mulheres a não desistirem de seus assentos, disse: “Eu tenho cem histórias.” E o rabino Ysoscher Katz, pesquisador do Talmude Ortodoxo Moderno que cresceu na seita ultraortodoxa Satmar, admitiu: “Quando eu ainda fazia parte dessa comunidade, e no lado mais conservador, me esforçava ao máximo para não me sentar ao lado de uma mulher no avião, pelo medo de tocá-la por acidente”.

Com frequência, empresas de aviação e comissários de bordo são apanhados no turbilhão. Morgan Durrant, porta-voz da Delta Air Lines, reconheceu o fenômeno: “É a dinâmica de alguns clientes que utilizam o nosso serviço. Temos consciência dela, e fazemos o que podemos para nos anteciparmos a esse fato antes do embarque”.

Outras companhias tiveram pouco a dizer sobre a situação além de concordar que diversos passageiros fazem diferentes pedidos quando viajam, e que as empresas procuram acomodá-los.

A questão não é exatamente nova. Alguns viajantes ultraortodoxos tentaram evitar assentos com sexos mistos durante anos. Mas agora a população judaica ultraortodoxa está crescendo rapidamente em razão das altas taxas de natalidade. Homens ultraortodoxos e suas famílias constituem hoje uma fatia maior dos viajantes aéreos para Israel e outros destinos, e eles vêm exercendo sua influência econômica com maior frequência, tornando suas opiniões mais amplamente conhecidas em resposta ao que veem como sexualização da sociedade.

As questões envolvendo aviões lembram controvérsias sobre os esforços para separar homens e mulheres em ônibus e ruas e para retirar mulheres de certas fotos noticiosas. “Os ultraortodoxos têm visto cada vez mais a separação de gêneros como uma espécie de tira-teima da ortodoxia – nem sempre foi assim, mas ficou assim”, disse Samuel Heilman, professor de sociologia no Queens College. “Há uma guerra cultural em curso entre essas pessoas e o restante do mundo moderno e, como o mundo moderno tem buscado ser cada vez mais neutro em questões de gênero, isso aumentou o desejo de dizer: ‘Nós não somos assim’.”

Alguns passageiros são simpáticos. Hamilton Morris, jornalista de 27 anos do Brooklyn, disse que concordou em ceder seu assento num voo da US Airways de Los Angeles a Newark via Chicago porque lhe pareceu a coisa atenciosa a fazer. “Havia um judeu hassídico sentado no outro lado do corredor entre duas mulheres. Um comissário de bordo me abordou e perguntou discretamente se eu estaria disposto a trocar de lugar porque o judeu hassídico estava desconfortável por sentar ali”, disse. “Eu concordei. Todos estavam tentando ser acomodatícios porque em aviões todos ficam aflitos de ofender alguém por razões religiosas.”

Mas a sra. Heywood, assistente jurídica de Chula Vista, Califórnia, se recusou a ceder seu assento por razões tanto políticas como de preferência – seu marido acha menos estressante voar quando está sentado num assento de corredor. “Eu não iria colocar o conforto do outro acima da razão de meu marido”, disse ela.

Outros passageiros, como Andrew Roffe, escritor de 31 anos baseado em Los Angeles, disse que ele e um amigo se envolveram num debate sobre a ética da situação depois que Roffe descreveu sua experiência num voo da United Airlines para Chicago. Quando começaram a embarcar, um homem ultraortodoxo ficou parado no corredor recusando-se a se mover e retardando a partida por 15 a 20 minutos até outro passageiro aceitar a troca de assentos.

“Meu amigo, que é ortodoxo, estava dizendo que isso é uma coisa tradicional, ele não quer ser tentado quando sua mulher não está lá. E eu disse: ‘Está brincando?’ Era apenas uma mulher voando para o trabalho ou para casa e cuidando de seus próprios assuntos.” 

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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