A todo gás

Na sexta-feira, o primeiro-ministro turco, Recep Erdogan,

ELIZABETH HEWITT , SLATE, ELIZABETH HEWITT É JORNALISTA BASEADA , EM ISTAMBUL, VERMONT, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h06

disse que há "terroristas" infiltrados nos protestos em Istambul

e criticou "a campanha de mentiras" na internet contra o governo.

"Ninguém, somente Alá, pode deter o avanço da Turquia", bravateou

Os turcos têm muitos motivos para sair às ruas, e a indignação e o ressentimento que alimentam as manifestações em curso no país têm muitas causas. Os secularistas se insurgem contra os islamistas. Os esquerdistas desafiam os conservadores. A classe média tenta conter o desenvolvimento sem trégua do centro de Istambul. Muitos jovens querem apenas salvar as árvores do Parque Gezi, a pequena área verde onde os protestos tiveram início na semana passada. E a maioria dos manifestantes está feliz só por poder levantar a voz contra o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento.

Mas há uma coisa que une todos esses grupos, pessoas e interesses: gás lacrimogêneo. O gás esbranquiçado, doloroso, mas não letal, virou símbolo de todas as coisas contra as quais os turcos protestam, em especial os preocupantes passos que o governo tem dado na direção do autoritarismo. Desde muito antes da eclosão dos atuais protestos o gás já se tornara elemento onipresente em reuniões ou manifestações públicas contra o governo de Erdogan. Os policiais turcos não usam essa substância tóxica como último recurso, quando é preciso dispersar uma multidão: já chegam com o dedo no gatilho. Intoxicar as pessoas com gás lacrimogêneo é a reação inicial e automática do regime de Erdogan a qualquer manifestação pública de dissensão. Por isso, ao chegarem à internet, as fotos da polícia pulverizando o rosto dos jovens que haviam ocupado o Parque Gezi - especialmente a imagem incrível da "moça de vermelho" - foram recebidas por uma sociedade já saturada de gás lacrimogêneo.

O gosto das autoridades turcas por vapores quimicamente nocivos data de vários anos. Em 2008 o primeiro-ministro ganhou o apelido de "Tayyip, o Químico" por causa da quantidade de gás pimenta usado pela polícia nas manifestações do 1º de maio. Não que os gases sejam reservados apenas para protestos de maior porte. Em abril, a polícia usou gás e canhões d'água para dispersar um comício convocado para salvar da demolição um cinema antigo.

O exemplo mais gritante dos excessos cometidos no uso de gás lacrimogêneo ocorreu no 1º de maio, quando milhares de turcos saíram às ruas para celebrar a data e acabaram se envolvendo numa batalha com a polícia que se estendeu pelo dia. O elemento de discórdia foi o acesso à Praça Taksim, que reabriu oficialmente para as manifestações do 1º de Maio em 2010, depois de ter passado três décadas fechada. Este ano, uma obra provocou novo fechamento. Apesar disso, muitos grupos de sindicalistas rumaram para o local e acabaram entrando em confronto com a polícia. Ao final do dia, os policiais tinham utilizado 14 toneladas de água misturada com gás lacrimogêneo. Milhares de cilindros de gás jaziam pelas ruas. Pelo menos 16 pessoas foram hospitalizadas por intoxicação.

De lá para cá, as notícias sobre o uso de gás lacrimogêneo pela polícia vêm se multiplicando. Foi esse o método empregado no início de maio por policiais que tentavam apartar uma briga entre um juiz e um grupo de jogadores de futebol adolescentes. Também foi a maneira que a polícia de Istambul encontrou para dispersar um grupo de torcedores do Besiktas, uma das principais equipes de futebol do país, antes do último jogo a ser realizado no estádio do clube - que será demolido. E, poucos dias depois do atentado terrorista ocorrido na cidade de Reyhanli, que resultou na morte de 51 pessoas, a mesma tática foi adotada para dispersar dezenas de estudantes reunidos em Istambul para protestar contra a posição da Turquia em relação à crise síria.

Os manifestantes não são os únicos a sofrer os efeitos do gás. Para impedir que a substância entre em suas casas, os moradores da região central de Istambul agora vedam as janelas assim que começa uma manifestação. Os transeuntes cobrem a boca com a camisa quando sentem que os olhos estão começando a arder. Nas ruas, os turcos, jovens e idosos, especializaram-se em fugir das nuvens de gás branco.

Mesmo com tanta prática, às vezes o pânico toma conta das pessoas. Na sexta retrasada à noite, manifestantes que se encontravam no bairro de Besiktas anunciaram pelo Twitter que a polícia havia começado a usar outra substância além de gás lacrimogêneo. Não tardou para que a expressão "portakal gaz", literalmente "gás laranja", desse origem ao boato de que a polícia estaria usando agente laranja. Nas redes sociais, os manifestantes turcos começaram a se mostrar receosos. O boato era falso. Sem dúvida, é preciso certa dose de credulidade para se deixar levar pela ideia de que um governo democraticamente eleito seria capaz de empregar algo como agente laranja contra a população. Mas o fato é que o uso generalizado que Erdogan faz de substâncias asfixiantes, até contra manifestações absolutamente pacíficas, deixou os turcos ressabiados.

Na quinta-feira retrasada, depois de a polícia ter lançado gás pimenta pela segunda manhã consecutiva contra os manifestantes no Parque Gezi, um deputado de um dos partidos de oposição apresentou um projeto de lei proibindo o uso do lacrimogêneo. "De hoje em diante, o nome do primeiro-ministro é 'Gazman' (homem do gás)", disse Umut Oran. É provável que o rótulo pegue e continue a ser usado mesmo depois que a nuvem de gás tiver se dissipado. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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