A tradição reinventada

Os que dizem que a renúncia trouxe consigo risco de 'dessacralização' da função do papa subestimam a capacidade de adaptação da Igreja

Marcelo Cândido da Silva e Néri de Barros Almeida,

17 de março de 2013 | 02h09

O conclave que elegeu o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio como sucessor do papa Bento XVI foi, de todos, o que mais atraiu a atenção dos meios de comunicação, principalmente em razão da singularidade da renúncia de um pontífice. Durante os dias seguintes à renúncia de Bento XVI e à sua ida para a residência de Castel Gandolfo, os jornais, televisões, sítios especializados, bem como as redes sociais, foram inundadas com análises, especulações ou simples rumores a respeito do equilíbrio de poder no seio do Colégio Cardinalício, das intrigas e escândalos no interior da Cúria, e de como tudo isso influenciaria a escolha do próximo papa.

É verdade que os meios de divulgação de notícias são hoje, graças notadamente à internet, mais numerosos, diversos, rápidos e abrangentes do que eram na época do último conclave. Além disso, os conclaves anteriores, as atenções estavam divididas entre, de um lado, a preparação da eleição e, de outro, o luto pela morte do papa e a rememoração dos fatos marcantes do pontificado que acabava de se encerrar. Em 2005, o balanço do longo pontificado de João Paulo II ocupou boa parte do noticiário. Com o retiro de Bento XVI em Castel Gandolfo, as atenções se voltaram para o conclave. A renúncia papal não é em si uma novidade na história da Igreja Católica (a última havia ocorrido em 1415), e está prevista pelo Direito Canônico, mas o ato de Bento XVI trouxe à luz inovações no cerimonial que tinham por objetivo responder a novos dilemas: é o caso do título de "Papa emérito" (ou "Romano Pontífice Emérito"), criado em fevereiro de 2013 para ser usado por Bento XVI após a renúncia. O "Papa emérito" não poderá calçar os sapatos vermelhos, eles serão marrons, mas continuará a utilizar a batina branca, sem adornos e sem o Anel do Pescador, que será destruído. Além disso, o "Papa emérito" conviverá nos muros do Vaticano com o papa Francisco, o que trará problemas que o cerimonial terá de resolver.

Alguns analistas alertam que a renúncia trouxe consigo um risco de "dessacralização" do poder e da função do papa. Esse diagnóstico subestima a capacidade de adaptação da Igreja. A renúncia de Bento XVI fez com que aparecessem com mais nitidez as inovações que se escondem por trás de ritos, de doutrinas e de símbolos aparentemente imutáveis. Trata-se, portanto, de um momento privilegiado para os estudiosos da Igreja e do papado. Falar em inovação pode parecer um contrassenso quando lidamos com uma das mais antigas instituições do Ocidente. E também com uma instituição que é guardiã de ritos e doutrinas que remontam, ou parecem remontar, no mínimo, à Idade Média. A eleição do papa por um colégio de cardeais é uma criação medieval, mais precisamente do ano de 1059. No entanto, se observarmos atentamente o conclave, veremos que seu rito é, em parte, tributário de modificações introduzidas nos últimos pontificados.

Paulo VI incluiu os Patriarcas orientais ao Colégio de Cardeais, e limitou a 80 anos a idade dos eleitores. João Paulo II estabeleceu que se o conclave durasse mais do que trinta dias, a eleição do papa poderia ocorrer por maioria simples. A medida foi revogada sob o pontificado de Bento XVI, que pretendia assegurar que o novo papa fosse eleito com o maior número possível de sufrágios. Em 22 de fevereiro deste ano, o papa estabeleceu que o conclave poderia ser convocado antes de um prazo de quinze dias a contar da Sé Vacante. Ou seja, foram definidas condições de sucessão que expusessem ao mínimo a Igreja às especulações e crises do período de vacância, e ainda permitissem um discussão interna prévia ao conclave com a participação de um número maior de representantes do clero. Nesses quesitos, fica evidente a vontade de dar ao novo papa maior representatividade, tanto diante do alto clero quanto diante da opinião pública - que não é constituída apenas de católicos. A pressão representada por essa opinião pública tem sido enfrentada nos últimos anos por meio de ações tanto de ordem política quanto pastoral. É o que aconteceu durante o pontificado de Bento XVI quando se buscou enfrentar, com resultados mitigados, o problema da pedofilia e incrementar o diálogo inter-religioso.

A Igreja muda, mas possui um ritmo próprio para fazê-lo. As mudanças das últimas décadas não podem ser entendidas como fruto da pressa de uma instituição em crise, elas se devem à vontade de disciplinar o clero, e também derivam da necessidade de implantar as diretrizes do Concílio Vaticano II. No que diz respeito ao casamento, por ser considerado um sacramento desde o século XII, as mudanças são bem mais difíceis. Se pensarmos que, do ponto de vista da Igreja, a contracepção e o casamento de pessoas do mesmos sexo fazem parte do domínio das matérias referentes ao casamento, entenderemos melhor sua dificuldade para efetuar mudanças nesta área. Mesmo assim, no domínio da valorização à vida, o papado acabou por se manifestar favoravelmente ao uso de preservativos com a intenção de evitar a contaminação (ainda continua a recusa a seu uso como um gesto contra a concepção).

Acostumados que estamos a avaliar o mundo que nos cerca do ponto de vista dos sinais externos de brusca mudança, dificilmente enxergamos na tradição, ou em discursos nela fundados, a capacidade de criar valores de referência que sobrevivem às transformações de conjuntura, da mesma forma que não damos a atenção devida às pequenas mudanças.   MARCELO CÂNDIDO DA SILVA (USP)   E NÉRI DE BARROS ALMEIDA (UNICAMP) SÃO PROFESSORES DE HISTÓRIA MEDIEVAL, COORDENADORES DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS MEDIEVAIS (LEME)

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