A triste e solitária vida de Donald Trump

A política é um relacionar contínuo, mas o candidato republicano parece incapaz disso. Não é difícil imaginar Trump sozinho no meio da noite, tuitando seu ódio

David Brooks, The New York Times

13 Outubro 2016 | 12h44

O propósito dos debates em prefeituras é os eleitores poderem fazer perguntas. Em todos estes debates a que assisti, o candidato encara o eleitor, ouve-o com atenção e dá sua resposta, pelo menos parcial, à sua pergunta.

Candidatos fazem isso porque é educado, pega bem ser visto levando os outros a sério e porque nós, na maioria, instintivamente, desejamos iniciar alguma conexão com as pessoas às quais estamos nos dirigindo.

Hillary Clinton, que não é exatamente um paradigma de intimidade, agiu normalmente sábado à noite. Donald Trump, não. Tratou seus interlocutores como autônomos impossíveis de se relacionar e respondeu para o vazio, mesmo quando teve a oportunidade de se mostrar simpático com uma atraente jovem muçulmana.

Isso enfatiza a solidão intrínseca de Donald Trump.

A política é um relacionar contínuo, mas Trump parece incapaz disso. Ele é essencialmente impermeável a conselhos, a amigos. Sua equipe de campanha é constituída na melhor das hipóteses de mercenários frios, e na pior, de Roger Ailes (fundador e ex-presidente da Fox News e conselheiro de políticos republicanos). Seu partido o trata como um odor desagradável do qual ainda não conseguiu se livrar.

Ele foi um apavorado com germes pela maior parte da vida e cortou o contato com as pessoas. Agora, eu o imagino sozinho no meio da noite, tuitando seu ódio.

Trump bateu a cada semana seu próprio recorde mundial de apavorar, mas, à medida que sua campanha afunda cada vez mais, vejo-me experimentando uma sensação de profunda tristeza e piedade.

Imagine o que seria passar um único dia sem compartilhar pequenos momentos de alegria com estranhos ou amigos.

Imagine ter de suportar apenas uma semana num mundo cheio de ódio, povoado de inimigos que você mesmo criou, sendo objeto de repulsa e escárnio.

Você se sentiria encolhido, retorcido, e talvez explodisse em insultos e tentasse se vingar cruelmente do universo. Toda a vida de Trump foi assim.

Trump continua a mostrar sintomas de alexitimia, a incapacidade de verbalizar as próprias emoções e descrever sentimentos. Incapazes de autoconhecimento, os afetados pela doença não conseguem entender os outros, relacionar-se com eles ou a eles se ligar.

Na ânsia de provar a própria existência, eles cobram uma infindável atenção externa. Sem parâmetros para medir o próprio valor, têm de confiar em insuficientes critérios exteriores como riqueza, beleza, fama e tributos de submissão.

Nesse sentido, Trump parece não desfrutar de nenhum dos prazeres advindos da amizade e cooperação. Mulheres podem ser fonte de amor e afeição, mas em seu estado desordenado ele só consegue odiá-las e humilhá-las. Suas tentativas de intimidade são paródias sinistras em que ele investe sobre elas como se fossem peças de carne.

A maioria de nós encontra uma satisfação calorosa quando sentimos que nossas vidas estão alinhadas com valores supremos. Mas Trump vive num universo alternativo, amoral, no estilo Howard Stern (radialista conhecido pelo humor escatológico, racista e sexista), em que não pode usufruir da tranquilidade que o altruísmo e o serviço comunitário podem às vezes proporcionar.

Os valentões só conseguem paz quando são cruéis. Sua pressão sanguínea cai quando surram o colega no playground.

Imagine que você é Trump. Você blefa durante um debate. Disputa um cargo para o qual não tem nenhuma qualificação. Busca algum vislumbre de aprovação que desaparece cada vez mais.

Seu único descanso é quando insulta alguém, ameaça colocar sua oponente na prisão, quando a assedia, ameaçando-a como um brutamontes mafioso, quando vocifera e afirma que ela carrega “um ódio tremendo no seu coração” quando está claro para todos que você está apenas projetando o que existe dentro de você próprio.

A constituição emocional de Trump sugere que ele só consegue emitir fúria e agressão. Sob alguns aspectos seu desempenho nos debates parece uma exibição de dominância primata – repleta de batidas no peito e grunhidos. Mas os primatas pelo menos vivem em grupos que se relacionam, ao passo que Trump está tão só que se a sua floresta emocional desmoronar, não se ouvirá nenhum som.

É muito patético.

Na segunda-feira, um dos seus críticos, o conservador Erick Erickson, publicou um ensaio comovente intitulado “Se eu morrer antes de você despertar...” Erickson tem sido alvo de ataques ferozes da parte de apoiadores de Trump. Ele e sua mulher estão enfrentando sérios problemas de saúde e podem morrer antes de seus filhos crescerem. Mas como o ensaio deixa claro, ambos vivem uma vida de amor, fé, devoção e trabalho. Ambos têm a máxima confiança na bondade da criação e seu lugar pleno de graça dentro dela.

Você pode compartilhar dessa crença ou não, mas Erickson vive uma vida com base nela, do ponto de vista emocional, espiritual, moral e comunitário. A vida de Donald Trump, ao contrário, parece superficialmente bem sucedida e profundamente miserável. Nenhum de nós gostaria de viver no vazio absoluto da sua própria solidão, não importa o tamanho da sua riqueza.

Em 9 de novembro, um dia depois da derrota de Trump, não veremos expressões de solidariedade e gritos de indignação. Todos simplesmente se distanciarão. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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