A última batalha de Churchill

Obama mandou tirar busto do líder britânico do Salão Oval da Casa Branca; Romney diz que, se eleito, manda recolocar

PROJECT SYNDICATE, IAN BURUMA É PROFESSOR DE DEMOCRACIA, DIREITOS HUMANOS NO BARD COLLEGE, AUTOR DE TAMING THE GODS: RELIGION AND DEMOCRACY ON THREE CONTINENTS (PRINCETON UNIVERSITY), O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h09

IAN BURUMA

A eleição do futuro presidente dos EUA é seguramente a disputa mais importante do mundo democrático. Entretanto, suas questões mais polêmicas podem parecer extremamente triviais. Por exemplo, a questão do busto de Winston Churchill.

A escultura em bronze do primeiro-ministro britânico estava no Salão Oval da Casa Branca desde os anos 1960. Ao tornar-se presidente, Barack Obama a substituiu por um busto de Abraham Lincoln. Mitt Romney, seu adversário republicano no pleito de novembro, prometeu recolocá-la no lugar, se vencer. Ocorre que, segundo um porta-voz da Casa Branca, o busto ainda está no edifício, num outro salão. Então, ao que tudo indica, os bustos de Churchill seriam dois, um ainda na Casa Branca, e um outro que Obama devolveu à embaixada britânica.

Por que alguém iria se preocupar com isso? Dois assessores de Mitt Romney informaram que seu candidato aprecia particularmente o "relacionamento especial" com a Grã-Bretanha por causa da "herança anglo-saxônica" comum aos dois países. Herança, declararam, que não foi suficientemente "valorizada" pelo atual presidente.

Quando essa bizarra declaração, de um mal disfarçado tom racista, ameaçou tornar-se um escândalo, Romney rapidamente fez questão de tomar a devida distância, não querendo ser considerado racista. Mas de que outra maneira deveríamos entender sua nostalgia peculiar pelo busto de Churchill?

Na realidade, o termo "anglo-saxônico" não é mais ouvido com tanta frequência nos EUA, onde a maioria da população deixou, há muito, de ser de origem anglo-saxônica (o que também podemos afirmar a respeito das principais cidades britânicas).

Quando os americanos usam esse termo, em geral é para diferenciar os americanos brancos do resto, o que a maioria dos americanos, e muito menos os candidatos presidenciais, jamais faria em público.

"Anglo-saxônico" é usado mais frequentemente num sentido negativo pelos franceses, como em "banqueiros anglo-saxônicos" ou "conspirações anglo-saxônicas" (sempre contra os franceses). Recentemente, o jornal Le Monde saiu com uma manchete maravilhosa: "Hollande defende o foi gras francês contra os lobbies anglo-saxônicos" (uma referência à proibição de foi gras na Califórnia, que condena a crueldade contra os animais).

O próprio Churchill não se referia muito a anglo-saxões. Ele falava da "raça britânica" ou dos "povos de língua inglesa". O chamado "relacionamento especial" entre a Grã-Bretanha e os EUA, certamente valorizado por Churchill, não era tão racial, mas antes um produto da 2ª Guerra Mundial - e bastante complicado, aliás.

Durante a guerra, Churchill e Roosevelt concordavam que, uma vez derrotados Alemanha e Japão, as forças militares da Grã-Bretanha e EUA deveriam atuar como uma polícia global. Eles acreditavam que o mundo se livraria de futuros Hitlers se, pelo menos por algum tempo, permanecesse sob a iluminada liderança dos democráticos povos de língua inglesa.

Entretanto, no final da guerra, a Grã-Bretanha estava exausta demais para policiar o mundo. O país falira e as colônias súditas de Sua Majestade mostravam-se cada vez mais insubmissas. O futuro pertencia aos EUA e à União Soviética, nenhum dos quais tinha laços sentimentais com o Império Britânico, muito menos com os "anglo-saxônicos".

Mas a elite britânica, consciente do declínio do seu país, levou muito a sério o "relacionamento especial" com os EUA, pois era a única maneira de a Grã-Bretanha sentir-se ainda uma potência, ao contrário, por exemplo, da França. E continua se sentindo. Certamente Churchill via a questão dessa maneira, mas também Tony Blair, que presenteou o presidente George W. Bush com o segundo busto de Churchill.

Os americanos, em geral, têm muito menos interesse que os britânicos no tal "relacionamento especial". Mas frequentemente se mostram sentimentais a respeito de Churchill. Ele é o homem com quem muitos presidentes americanos gostariam de parecer, não por afinidades raciais, mas pelo fascínio que exercia como líder em tempos de guerra. Os EUA são a maior potência militar do mundo, como a Grã-Bretanha na juventude de Churchill. E, assim como os construtores do Império Britânico do passado, as elites americanas muitas vezes declaram que têm como missão moral reconstruir o mundo à imagem de seu país.

Em outras palavras, Churchill tornou-se o símbolo da arrogância presidencial nos EUA, ainda que o "relacionamento especial" simbolize o declínio britânico. As pessoas costumam esquecer de que o famoso poema de Rudyard Kipling sobre "o peso do homem branco" não era uma ode ao Império Britânico, mas ao empreendimento colonial dos EUA nas Filipinas.

O poder excessivo corrompe, como todos sabem. Presidentes arrogantes que contemplam o busto de Churchill em seu gabinete tendem a acreditar que foram chamados para ser "presidentes em tempos de guerra", que, assim como Churchill em 1940, precisam se opor ao próximo Hitler. Esse canto de sereia levou os EUA ao Vietnã, ao Afeganistão e ao Iraque.

Portanto, quando Obama decidiu retirar o busto de Churchill do seu gabinete em 2008, o gesto me impressionou por sua sensatez. Um pouco menos de arrogância faria bem aos EUA, e também ao mundo.

Mas agora Romney o quer de volta. O que quer que ele possa tornar-se, Romney não chega a ser o que chamaríamos um líder em tempo de guerra capaz de convencer. Os empresários raramente são. Entretanto, ele gosta de definir a si mesmo como um profundo patriota, e a Obama, como um fracote antiamericano.

Talvez Romney queira outra guerra, na qual possa posar como um novo Churchill. Ou, quem sabe, seus dois assessores tenham falado a verdade. Talvez Romney esteja sendo sentimental em relação à "herança anglo-saxônica", enquanto cresce o poder da Ásia. Nesse caso, a nostalgia por Churchill não será um sinal de vitalidade americana, mas mais uma batalha romântica travada na retaguarda, típica de um país em declínio. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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