Laura Daudén
Laura Daudén

A última colônia

No norte da África, um povo do deserto vive o exílio dentro do próprio país

Laura Toledo Daudén*, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2010 | 07h19

Seguíamos de longe. A derraá branca destacava a silhueta alta de Brahim Sabbar entre os passantes. Com a tradicional túnica masculina saaráui, o ativista parecia ainda maior do que realmente era. A manhã na principal avenida de Aaiun estava agitadíssima. Homens enchiam as mesas dos cafés, vendedores já barganhavam nas esquinas, crianças levavam o pão fresco para casa. A capital do Saara Ocidental vibrava, e Sabbar, que parava a cada pouco para dar atenção a tantos conhecidos, parecia liderar aquele pulsar. Nós, ao contrário, éramos dois elementos estranhos: jornalistas brasileiras dispostas a escrever sobre um conflito esquecido. Daí a orientação de guardar distância de Sabbar: na última colônia africana, as aparências precisam ser mantidas sempre, mesmo que sejam falsas.

Estávamos no norte da África, espremidos entre o Marrocos, a Argélia, a Mauritânia e o Atlântico. Sob nossos pés, um território que foi colônia espanhola de 1884 a 1975 e teria uma história similar à de outras colônias africanas se não fosse por um detalhe: até hoje os saaráuis não passaram pelo processo de autodeterminação, direito fundamental expresso na Carta da ONU. Esse povo de origem nômade vive em um país que oficialmente não existe, numa condição entre a ocupação e o exílio. Sua estreita faixa de terra seca é, a leste, controlada pela Frente Polisário (movimento que reivindica a autonomia); e a oeste, onde fica a capital, Aaiun, dominada pela monarquia marroquina desde a saída da Espanha. No meio passa um muro de 2.200 quilômetros de extensão, e 5 metros de altura, fortemente minado e vigiado dia e noite por mais de 100 mil soldados a mando do rei do Marrocos, Mohamed VI.

Em que pesem todas as adversidades, 84 países reconhecem a legitimidade da República Árabe Saaráui Democrática, fundada em 1976 por um governo no exílio. E mesmo sem fronteiras próprias, é nela que se forja o ideal de Estado-Nação ansiado pelos saaráuis. E é nessa "pátria de vento e estrelas", como a descreveu o escritor francês Saint-Exupéry, que começa a história pouco conhecida do Saara Ocidental, da qual Brahim Sabbar - e os cerca de 350 mil saaráuis dispersos sob quatro bandeiras diferentes - são protagonistas.

Na segurança das paredes da casa de Brahim Dahane, grande amigo de Sabbar, falamos pela primeira vez com o homem que seguíamos e percebemos seus pequenos olhos, quase infantis, espreitando por detrás dos óculos redondos. Eram doces, mas guardavam uma angústia inacessível. E Sabbar era ainda maior de perto. Uma rodada de chá nos preparava para a conversa, e da janela avistávamos um salão de cabeleireiro estrategicamente aberto pela polícia real para vigiar a movimentação no pequeno edifício que funciona como sede da ASVDH, a Associação Saaráui de Vítimas de Graves Violações de Direitos Humanos Cometidas pelo Estado Marroquino. Sabbar é o secretário-geral e Dahane, o presidente, mas a organização é ilegal. "Não nos deixam registrá-la", diz Dahane. Os ativistas estimam que, dos 190 mil habitantes de Aaiun, 25% sejam militares - como se vê nas ruas e nas fardas penduradas nos varais. E ainda há um bom punhado de colonos marroquinos, incentivados a ocupar a capital saaráui.  

 

A presença de colonos marroquinos acentua a instabilidade na porção a leste do muro

VIDAS FRAGMENTADAS

A história da militância de Sabbar começou na juventude, nos tempos da Marcha Verde e da retirada passiva do contingente espanhol. Sabbar viu de perto a multidão rumando para o sul, levando retratos do rei e bandeiras dos Estados Unidos. "Quando os marroquinos começaram a organizar a Marcha Verde, acamparam perto do colégio onde eu estudava, em Gurmin. Estavam se preparando para invadir." A coluna civil organizada pelo então rei Hassam II chegou até a fronteira do Saara Ocidental em 1975 e forçou a assinatura do Acordo Tripartido, que dividiu o território entre a Mauritânia e o Marrocos. Sabbar se uniu à resistência. Distribuir panfletos e organizar peças de teatro nacionalistas o levou à prisão pela primeira vez, em 1981.

Sabbar prestava atenção ao telejornal na sede da ASVDH, que exibia os conflitos na Faixa de Gaza. No intervalo, ele desviou o olhar, esticou os punhos para fora da túnica e, como se de súbito relembrasse a própria história, deparou-se com as cicatrizes dos dez anos de prisão e dos seis meses que passou vendado e com as mãos atadas. Seus olhos então se perdem na parede oposta, que pareciam guardar as duras lembranças da tortura. "Perguntava-me a todo o momento quando me matariam e como. Era o inferno."

Foi libertado em 1991, ano em que a Anistia Internacional e a Cruz Vermelha iniciaram uma campanha que culminou na liberação de 332 presos políticos saaráuis, mas não acabou com a angústia: "Saímos de uma prisão para entrar em outra muito maior", ele diz, referindo-se ao Saara Ocidental sob julgo marroquino. A família de Sabbar não soube de seu paradeiro durante os dez anos de isolamento. Ele nunca foi a julgamento. Para todos, tinha morrido na prisão. "Ao chegar em casa vi que minha mãe tinha ficado muda e não podia se levantar. Meu pai disse que se me encontrasse na rua, não me reconheceria."

A guerra, que duraria de 1976 a 1991, opôs dois povos e duas ideologias: os combatentes da Frente Polisário, saaráuis independentistas e de inspiração socialista; e os soldados marroquinos, leais ao bloco ocidental e ao projeto expansionista do rei Hassan II. As violações contra os direitos humanos foram sistemáticas dos dois lados: muitos marroquinos e dissidentes da Frente Polisário também sofreram nas prisões do movimento independentista. Foi assim que a guerra conseguiu converter a disputa em ódio, e o ódio, em vontade de vingança.

Isso explica em parte a segunda intifada (levante), iniciada em 2005 pelos saaráuis nas zonas ocupadas. Em uma das sucessivas manifestações, Sabbar foi preso uma vez mais e passou outros dois anos encarcerado. "O que está acontecendo desde a intifada é um sinal de que podemos fazer algo, apesar da pressão e da intimidação que sofremos a cada dia. Nós estamos ajudando a criar uma consciência", ele acredita.

DESENHANDO FRONTEIRAS

Para o homem do deserto, que tem uma relação diferente com o espaço e com o tempo, a sensação de não pertencer, de não estar em casa, é mais forte do que qualquer linha em um mapa. Mas de todas as maneiras essa linha está lá, serpenteando na forma do muro construído pelo Rei Hassan II na década de 80. A parede de areia, pedras e arame separa a parte controlada pelo Marrocos daquela sob domínio da Frente Polisário, as chamadas "zonas liberadas". Os poucos nômades que permanecem nessa região convivem com o medo das minas terrestres, que somam 9 milhões, segundo a organização britânica Land Mine Action, a única que trabalha no lado oriental do muro.

Rabuni, a base administrativa da República Árabe Saaráui Democráitica, está mais a leste, em solo argelino. Fica rodeada pelos cinco acampamentos onde vivem cerca de 200 mil refugiados. Essa é a região mais seca do deserto, e a única ponte entre as famílias dos dois lados do muro são os voos esporádicos organizados pela ONU.

O governo no exílio recebe suporte político e financeiro da Argélia, sedenta por manter sua hegemonia no Magreb, por uma saída para o Atlântico e por desgastar o regime marroquino, seu inimigo histórico. Ainda não há acordo de paz, mas um frágil cessar-fogo permitiu que em 1991 a ONU iniciasse a Minurso, uma missão com a responsabilidade de elaborar um referendo de autodeterminação. Por ele, se poderia escolher entre a independência, a autonomia ou a anexação ao Marrocos. Há 19 anos todos esperam.

O fracasso nas negociações desafia a resistência nas zonas ocupadas e leva, pouco a pouco, a uma situação de emergência humanitária nos acampamentos de refugiados. A atitude da comunidade internacional é ambígua: apesar de concordarem com a ilegalidade da anexação, governos, União Européia e empresas negociam com o Marrocos em troca dos benefícios da exploração da pesca e do fosfato - os dois recursos-chave do Saara Ocidental. A estabilidade da monarquia, principal aliada do Ocidente na região do Magreb, onde proliferam as organizações terroristas ligadas à Al-Qaeda, também é fator determinante para que nenhuma atitude impositiva seja aplicada para resolver o conflito. Nessa semana, o diplomata americano Christopher Ross, mediador do conflito desde janeiro de 2009, pela primeira vez mencionou oficialmente a necessidade de incluir a questão dos direitos humanos nos objetivos da Minurso. Ele também conseguiu que as duas partes, Marrocos e Polisário, concordassem em voltar à mesa de negociações na próxima quarta-feira.

ENTRE GUERRA E PAZ

Decidimos chegar até a costa, para tentar ver como se afastavam os navios carregados de fosfato rumo à Europa, aos Estados Unidos, à Austrália e ao Japão. O Saara guarda 9% das reservas mundiais do mineral - usado, principalmente, na produção de fertilizantes. Durante os 21 quilômetros que separam a capital da praia de Foum El Wad, Dahane não tirou os olhos do carro que nos seguia desde que deixamos o primeiro posto policial, na saída de Aaiun. Sabbar mostra o estado de deterioração do seu documento de identidade, "de tanto que me pedem...". Ele está proibido de conseguir um passaporte e desde 2000 não pode viajar para o exterior.

Descemos do carro para acompanhar uma partida de futebol de crianças saaráuis. Sabbar tirou o casaco e começou a correr entre os garotos. Do outro lado, caminhando pelas pedras, Dahane lembrava de fragmentos de um poema do palestino Mahmud Darwish. "Dizia algo como... "os árabes vivem em um tempo vazio. Seu relógio é a areia, que apaga todas as marcas". É uma existência desprovida de densidade..." Ele mal podia imaginar que, pouco tempo depois, perderia de novo sua liberdade. Dahane está preso atualmente, acusado de questionar a integridade territorial do Marrocos. Ele enfrentará um tribunal militar e corre o risco de receber a pena de morte.

Os saaráuis mantêm como podem a cultura nômade. Assim como à praia, costumam ir ao deserto, à noite, quando conversam sobre o que normalmente não podem e escutam a rádio dos acampamentos de refugiados. "Vivemos em uma zona fechada, policial, onde existem poucos jornais ou jornalistas. O embargo é midiático e militar. Essa é a situação", resumiu Sabbar, para logo em seguida, olhando uma pequena rosa branca que inacreditavelmente brotou na aridez, explicar por que não desiste de sua causa: "Essa pequena flor que cresce no deserto, entre os grãos de areia... onde ela cresce, torna tudo um pouco mais bonito". COLABOROU GIOVANA SUZIN

*Jornalista e fotógrafa brasileira baseada em Madri

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