A última de Berlusconi

O primeiro-ministro comete gafes, atrai confusão e é mulherengo, mas os italianos no fim lhe dão votos. Talvez por isso tudo

Anne Applebaum*, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2009 | 03h21

QUINTA, 15 DE OUTUBRO

Curva descendente

A popularidade do premiê italiano, Silvio Berlusconi, cai a 45% - nível mais baixo desde que ele assumiu o cargo, no ano passado. Os escândalos sexuais e a suspensão da imunidade do premiê seriam as causas, segundo a pesquisa, divulgada pelo jornal La Repubblica.

Silvio Berlusconi tem sido acusado de suborno, evasão fiscal, corrupção e manipulação da imprensa. Sua mulher o deixou, acusando-o de andar com prostitutas e promover orgias em sua villa na Sardenha. O primeiro-ministro italiano faz piadas embaraçosas (e depois as repete, como aquela sobre o "bronzeado" do presidente americano, Barack Obama). Desaparece periodicamente para se submeter a novas cirurgias plásticas. Está em guerra com o establishment legal italiano, com quase todos os jornalistas que não trabalham para ele e com a Igreja Católica. Na semana retrasada o tribunal constitucional italiano retirou sua imunidade, o que significa que o país pode esperar uma nova série de processos e escândalos.

Mas, de longe o mais interessante sobre Berlusconi é que... os italianos continuam votando nele. A coalizão um tanto esfarrapada que lidera - ll Popolo della Libertà, Povo da Liberdade - teve uma vitória decisiva nas eleições gerais de 2008 e deu uma surra na oposição no pleito para o Parlamento Europeu em junho de 2009. Quer se concorde ou não com sua filha, que diz que ele "entrará para os livros como o líder mais amado e mais longevo na história da república italiana", não se pode contestar o fato de que Berlusconi tem sido a força dominante na política italiana desde que se tornou primeiro-ministro pela primeira vez, em 1994. Mas por quê? Parece haver várias respostas, algumas relacionadas ao estranho impasse que o levou ao poder.

No início dos anos 90, o sistema político da Itália se desfez depois de uma série de investigações judiciais que revelaram uma corrupção profunda permeando toda a classe política. Em consequência, os principais partidos e os principais líderes políticos desapareceram da noite para o dia, às vezes literalmente: Bettino Craxi, líder do Partido Socialista durante quase 20 anos, fugiu para a Tunísia quando ia ser preso e acabou morrendo no exílio.

Berlusconi ocupou o vácuo político prometendo atacar questões que ninguém ousava abordar - especialmente a imigração em massa do Norte da África - e enfrentar problemas que ninguém conseguia resolver, entre eles a intricada legislação tributária e a notória burocracia do país. Mas, olhando em retrospectiva, fica claro que Berlusconi (cujo histórico na concretização efetiva de qualquer das reformas que prometera é bastante pobre) trouxe consigo a contrarrevolução. Ele havia feito carreira sob a velha ordem - como a maioria dos demais políticos - e, uma vez no poder, pôs fim à limpeza judicial. Os italianos, como me disse o jornalista Beppe Severgnini, "estavam com medo da própria ousadia". Também temiam o caos e, num país que tivera em média um governo diferente por ano nas últimas seis décadas, Berlusconi parecia trazer algum tipo de estabilidade.

A esquerda italiana está desorganizada, a centro-direita está paralisada, mas muita gente prefere o diabo que já conhece. Berlusconi, é claro, tem uma ferramenta que nenhum dos outros políticos tem: uma televisão popular. Como dono, controla três canais de TV aberta e vários canais digitais. Também controla de fato a televisão estatal, pois é o primeiro-ministro. Há jornais, revistas e talk-shows noturnos que o criticam, mas não atingem o mesmo número de pessoas. Assim como seu amigo Vladimir Putin, primeiro-ministro russo, Berlusconi não tenta exercer influência sobre toda a mídia - apenas sobre a parte que influencia a maioria dos eleitores. Isso pode não determinar o resultado de eleições, mas certamente ajuda, e também fez da Itália o centro do maior movimento pela liberdade de imprensa fora da antiga União Soviética.

Mas, no fim das contas, mesmo esse poder não explica a grande quantidade de votos. Tem de haver algo de sedutor no próprio Berlusconi. Severgnini o chamou de "espelho" da Itália moderna. Percebe-se o que quis dizer com isso. Berlusconi é um novo rico (como quase todo o mundo no país) e não tem medo de mostrar isso (vide a villa na Sardenha); ama as mulheres e o futebol (é dono do clube Milan); é leal aos amigos (chegando a protegê-los da lei); e, claramente se divertindo nas festas e em seu iate, Berlusconi representa de algum modo uma versão caricatural do ideal de vida italiano. Precisamente por ser caricatura é que convive bem com situações em que outros se embaraçariam. Os italianos rolam de rir contando casos de Berlusconi. Além disso, com ele como primeiro-ministro ninguém precisa se levar muito a sério. Nem tem de se preocupar com geopolítica, estado do planeta, pobreza, falência do Estado. Pode-se ficar em casa, pensando abobrinha e discutindo o mais recente escândalo legal. E talvez também isso seja parte da atração do primeiro-ministro italiano.

*Colunista do Washington Post e da revista Slate (www.slate.com), onde esta coluna apareceu originalmente. Autora de Gulag: Uma História Polêmica dos Campos de Prisioneiros Soviéticos (Ediouro), pelo qual ganhou o Prêmio Pulitzer

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