A última palavra

A última palavra

'Quando nos abraçamos, uma sombra só nossa nos envolveu. E decidimos desafiar.' Os derradeiros dias de Christopher Hitchens, narrados por sua mulher

Carol Blue - O Estado de S.Paulo,

16 de setembro de 2012 | 03h10

Tradução de Terezinha Martinho

No palco, meu marido era de uma vitalidade impossível de se acompanhar. Se você um dia o viu no pódio talvez não compartilhe da afirmação de Richard Dawkins de que "ele foi o maior orador do nosso tempo", mas saberá o que quero dizer - ou pelo menos não vai pensar "é claro que ela diria isso, é a mulher dele". Fora do palco, meu marido era de uma vitalidade impossível de se acompanhar.

Em casa, dávamos com frequência aqueles jantares improvisados, ruidosos e divertidos, que duravam oito horas, com a mesa tão cheia de embaixadores, escritores, dissidentes políticos, universitários e crianças se acotovelando que ficava difícil achar lugar para se pôr um copo de vinho. Meu marido então se levantava para um brinde que podia se prolongar por 20 minutos emocionantes, fascinantes, histericamente divertidos, declamando versos humorísticos e picantes, fazendo piadas, exortando a causas. "Como é bom sermos nós", dizia com sua voz perfeita. Meu marido era um ato impossível de se acompanhar. E, no entanto, agora devo acompanhá-lo. Sou obrigada a ter a última palavra.

Foi numa dessas noites de verão em Nova York, quando tudo que se pode sentir é alegria de viver. Era 8 de junho de 2010, para ser exata, o primeiro dia de seu périplo para divulgar seu livro nos Estados Unidos. Fui o mais depressa que pude para a Rua 93 Leste, feliz e entusiasmada para vê-lo em seu terno branco. Ele estava deslumbrante. E também estava morrendo, embora ainda não soubéssemos disso. E não saberíamos com certeza até o dia de sua morte.

Mais cedo naquele dia, Christopher havia se desviado do lançamento do livro para o hospital, pois achou que sofrera um ataque cardíaco. À noite, quando eu o vi parado na entrada do teatro pela Rua 92, eu e ele já sabíamos - e só nós dois - que ele estava com câncer. Quando nos abraçamos, uma sombra só nossa nos envolveu. E decidimos desafiar. Estávamos eufóricos. Ele me levantou nos braços e rimos.

Tudo perfeito, só que não estava - Entramos no teatro, onde ele conquistou mais uma plateia. Participamos de um alegre jantar em sua homenagem e voltamos a pé para o hotel, caminhando mais de 50 quadras numa noite perfeita de Manhattan. Tudo parecia estar como deveria, exceto que não estava. Estávamos vivendo em dois mundos: o antigo, que nunca pareceu mais belo, e ainda não havia desaparecido; e o novo, sobre o qual sabíamos pouco, exceto que o temíamos, que ainda não havia chegado.

Esse novo mundo durou 19 meses. Durante o período, que chamamos de "viver agonizantemente", Christopher insistiu ferozmente em viver, e sua constituição, física e filosófica, fez todo o possível para se manter viva.

Christopher pretendia estar entre os 5% a 20% de pessoas que podem chegar à cura. Sem jamais se deixar enganar sobre a doença, e jamais permitindo que eu tivesse ilusões sobre suas perspectivas de sobrevivência, ele reagia a qualquer boa notícia do ponto de vista clínico ou estatístico com uma esperança extrema, infantil. A vontade de manter sua existência intacta, continuar engajado com sua intensidade sobrenatural, era espetacular.

Quimioterapia e festa - O feriado de Ação de Graças era seu predileto e observei, maravilhada, como ele organizou, mesmo sentindo os terríveis efeitos da quimioterapia, uma esplêndida reunião de família em Toronto, com todos os filhos e o sogro, às vésperas de um importante debate sobre religião com Tony Blair. Foi uma festa orquestrada por um homem que havia me afirmado, no quarto do hotel, que aquele seria provavelmente seu último feriado de Ação de Graças.

Pouco tempo antes, em Washington, numa ensolarada e agradável tarde de outono, ele convocou, entusiasmado, a família e os amigos que nos visitavam para irmos à exposição As Origens do Homem, no Museu Nacional de História Natural, onde eu o vi sair apressado do táxi e subir as escadas de granito para vomitar numa lata de lixo e, em seguida, conduzir seus pupilos pelas galerias e impressioná-los com as realizações da ciência e da razão.

O carisma de Christopher jamais desapareceu, fosse em público, na vida particular, e até mesmo no hospital. Ele fez uma festa com isso, transformando o quarto estéril, frio, sob a luz e os sons intermitentes do bip, num estúdio e sala de conferências. Seus papos inteligentes nunca cessaram.

As constantes interrupções - exames, picadas, colheita de amostras, aparelhos respiratórios, bolsas de soro - não o impediam de ser o centro das atenções, dizer algo importante, apresentar um argumento ou terminar com uma piada para seus "convidados". Ele ouvia e nos induzia a falar, e provocava o riso em nós. Estava sempre pedindo algum jornal, uma revista, um romance, ou falando sobre seu conteúdo. Nós ficávamos em volta do seu leito e reclinados nas cadeiras cobertas de plástico ouvindo seus discursos socráticos.

Uma noite ele começou a cuspir sangue e foi levado para a UTI para uma broncoscopia de emergência. Passei todo o tempo ao seu lado, observando-o e dormindo numa poltrona reclinável. Ficamos lado a lado em camas separadas. Num dado momento ambos acordamos e começamos a tagarelar como crianças numa festa. Naquele momento, era o melhor a ser feito. Quando voltou da broncoscopia e o médico informou que o problema em sua traqueia não era câncer, mas pneumonia, ele continuou entubado, mas fazendo avidamente anotações e perguntas sobre todos os assuntos imagináveis. Guardei as folhas de papel com seus comentários. Há palavras de afeto e um desenho que ele fez no topo da primeira página, e depois:

"Pneumonia? De que tipo?"

"Estou livre do câncer?"

"É difícil lembrar da dor, neste exato momento."

Ele perguntou sobre os filhos, e meu pai.

"Como está Edwin? Diga a ele que eu perguntei."

"Estou preocupado com ele."

"Porque eu o amo."

"Quero ter notícias dele."

Logo abaixo escreveu o que gostaria que eu lhe trouxesse da casa em que nos hospedávamos em Houston:

"Livros de Nietzsche, Mencken e Chesterton. E todos os papéis espalhados. Ponha talvez numa sacola. Olhe nas gavetas. Ao lado da cama, etc. Em cima e embaixo da escada".

Naquela noite, um querido amigo da família chegou de Nova York e estava no quarto quando, num dos seus momentos noturnos de insônia e energia, Christopher deu um largo sorriso, o tubo ainda na garganta, e escreveu em sua prancheta:

"Vou ficar aqui (em Houston) até que esteja curado. Depois vou levar nossas famílias de férias para as Bermudas."

Na manhã seguinte, depois de o tubo ser retirado, entrei no quarto e ele me deu um sorriso matreiro:

"Feliz aniversário!"

A enfermeira entrou com um pequeno bolo, pratos de papel e garfinhos de plástico.

Corta para outro aniversário de casamento. Estamos lendo o jornal no terraço da nossa suíte num hotel de Nova York. Um dia de outono impecável. Nossa filha de 2 anos está sentada, feliz, a nosso lado, tomando mamadeira. Ela pula da cadeira e se abaixa, olhando alguma coisa no chão. Tira a mamadeira da boca, me chama e aponta para uma abelha, imóvel. Fica alarmada, balança a cabeça como se dissesse "não, não, não". Aí diz: "A abelha parou". E me ordena que "faça ela se mexer".

Na época ela acreditava que eu tinha o poder de reanimar os mortos. Não me lembro o que lhe disse sobre a abelha, mas me recordo das palavras "faça ela se mexer". Christopher pegou-a no colo, consolou-a e procurou distraí-la mudando de assunto e de humor. Da mesma maneira que faria com todos os seus filhos, tantos anos depois, quando estava doente.

Uma voz para cada situação - Sinto falta de sua voz incomparável. Eu a ouvi dia e noite e noite e dia. Sinto falta do som da sua voz quando ele acordava; o som grave da sua voz matinal, quando lia para mim trechos de artigos nos jornais que o indignavam ou o divertiam; a expressão divertida e irritada (na maior parte das vezes irritada) quando eu o interrompia enquanto ele lia; as frases repetidas, como riffs de jazz, ao falar pelo telefone com uma emissora de rádio, enquanto preparava o almoço na cozinha; a acolhida alegre, aquele trinado alegre quando recebia nossa filha que voltava da escola; e o tom tranquilizador, pianíssimo, de suas últimas palavras antes de dormir.

Sinto falta, como seus leitores também devem sentir, da voz do escritor, sua voz nas páginas. Sinto falta do Hitch que não foi publicado; as incontáveis mensagens que me deixava no hall de entrada, no meu travesseiro, os e-mails que enviava quando nos sentávamos em salas diferentes no nosso apartamento ou em nossa casa na Califórnia, ou quando estava viajando. E sinto falta dos seus comunicados escritos à mão; de suas inúmeras cartas e cartões postais (começamos a namorar ainda no tempo da epístola...), de seus faxes, da emoção de receber mensagens instantâneas quando ele estava a caminho de algum lugar incerto ou de outro continente.

A primeira vez que Christopher tornou pública sua doença, escrevendo sobre ela na revista Vanity Fair, ele foi ambivalente a respeito. Sua intenção era proteger a privacidade da família. Ele não tirava a doença da cabeça e não queria ser dominado, definido por ela. Queria continuar pensando e escrevendo enquanto mantinha a doença à parte. Fez um acordo com seu editor e amigo, Graydon Carter, para escrever sobre tudo menos esportes, e manteve o acordo. Procurou se enquadrar nisso, mas de repente passou a ser o tema definitivo da história.

Suas últimas palavras das intermináveis anotações incompletas no fim deste pequeno livro parecem ir se esvanecendo, mas na verdade foram escritas no seu computador durante explosões de energia e entusiasmo quando, ainda no hospital, ele se sentava e usava o suporte da bandeja de comida como escrivaninha.

Quando se internou pela última vez, achamos que seria por um curto período. Christopher achava - nós achávamos - que ele teria a chance de escrever um livro mais longo que estava se formando em sua cabeça. Sua curiosidade intelectual fora despertada pela genômica e os tratamentos de radiação por próton aos quais se submeteu e ele estava animado com a perspectiva de que seu caso viesse a contribuir para novos avanços da medicina. Avisou a um amigo editor que aguardava um artigo seu: "Desculpe o atraso, logo estarei de volta à casa". Ele me disse que mal podia esperar para assistir a todos os filmes que tinha perdido e ver a exposição de Tutancâmon em Houston, nossa residência temporária.

O fim foi inesperado.

Em casa, em Washington, tirei os livros das prateleiras, das torres pelo chão, empilhados sobre as mesas. Dentro das contracapas estão notas escritas à mão para revisões e para ele próprio. Pilhas de páginas e anotações estão por todo o apartamento. No momento que desejar, posso examinar nossa biblioteca e suas anotações e redescobri-lo, resgatá-lo.

Quando faço isso, eu o ouço e ele tem a última palavra. Christopher agora e sempre tem a última palavra.

Carol Blue é viúva do escritor britânico Christopher Hitchens, que morreu em dezembro de 2011. Ela escreveu este texto como posfácio do derradeiro livro dele 'Últimas Palavas' (Globo).

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