KEINY ANDRADE/ESTADÃO
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'A Um Passo', obra-prima de Elvira Vigna, é relançado

Não é fácil a leitura do livro para quem que descobrir a literatura da escritora, pois ele exige familiaridade com seu estilo

Mateus Baldi *,  , Especial para O Estado

18 Agosto 2018 | 16h00

1. É impossível fazer uma crítica convencional para um livro zero convencional. Então esse texto é estranho. Porque o livro é estranho – e excelente. Em um vídeo postado no youtube em 2009, Elvira Vigna apresentava A um Passo como o seu preferido. Constituía-se no mais difícil de ser feito e, de todos, era o que teve menos prestígio junto a público e crítica. Balançando a cabeça em afirmação, sarcástica como só ela sabia ser, Elvira diz: “Paciência, é assim mesmo.” O vídeo continua, mas estas palavras são fundamentais: paciência, pode-se dizer a cada um dos 88 capítulos e um epílogo que compõem A um Passo: este livro é assim mesmo. Existe uma história? Existe. Ela é explicável? Não exatamente. Entendível? Sim. O leitor que se vire para compreender esse jogo. E essa é a beleza.

2. O primeiro capítulo abre com um sofá. Nele, duas pessoas – a moça e o gringo. E um diálogo. Esquisito, pausado, quase que uma colcha de retalhos de cacos cortantes. Uma mulher e um homem. Estranhos. Conversam. Elvira corta. Segundo capítulo. O livro continua. E vai. Desemboca em uma confusão. Num epílogo com jacarés. 

3. Como em quase todos os seus livros, A um Passo também tem um assassinato. Mas não só. Também temos pedofilia, crítica social, homens imbecis, mulheres ardilosas e uma estrutura que pode até ser comparada ao Jogo da Amarelinha de Cortázar, mas não chega perto. Porque sabemos poucas coisas de antemão. Há o homem, a mulher, uma espécie de cidade fronteiriça, um plano de vingança, um clube onde mulheres jogam escondidas e o calor. Muito calor. 

4. As relações que começam no primeiro e nos outros capítulos são explicadas não em si mesmas, mas na totalidade. A um Passo é um nó lógico que só permite ao leitor entendê-lo se reler detidamente cada capítulo. Talvez isso tire um pouco a graça. Pode ser mais interessante ir de uma vez só e deixar Elvira Vigna guiar dentro da caverna escura. Porque tem isso – A um Passo soa como uma caverna cheia de pedras afiadas que podem rasgar o leitor ao menor sinal de descuido. 

5. Quando morreu, em 2017, Elvira deixou o mundo literário em choque. Dona de um estilo único, ajudou a concretizar a força definitiva das grandes protagonistas deste século 21, sempre com palavras agudas em direção ao patriarcado. Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, seu último romance, foi premiado, considerado o seu melhor e, crivam alguns, é o livro da década. Pode ser que sim. Se naquela estrutura Elvira parecia ter atingido seu ápice, também não é absurdo dizer que A um Passo, originalmente publicado em 1990 e bastante alterado em uma edição maior de 2004, consistia em tubo de ensaio. Os temas estavam prontos, bastava chacoalhar e ver o que saía. 

6. O resultado é explosivo, bonito e cheio de pequenas pílulas de sabedoria sobre a condição humana. Elvira nunca fez concessões. O livro atingia uma condição de objeto para além de fetiche, algo que precisaria ser consagrado dentro da cabeça de cada leitor – e só dele – antes de ganhar o mundo. É quase como se ela dissesse “Eu quero que você entenda, e isso basta”. Portanto, nesse sentido A um Passo é perfeitamente entendível. Só não tente explicar ao amigo. Estou tentando há algumas linhas e falhando miseravelmente. 

7. O posfácio de José Luiz Passos ajuda a preencher as possíveis lacunas. Não que A um Passo seja fácil para quem quer descobrir Elvira Vigna – este é um livro que exige um mínimo de familiaridade com o estilo. É grande o risco de vertigem. De cair em um poço sem fundo. De compreender a realidade do mundo: a vida, por fim, a vida – que também é perfeitamente entendível e nunca, em hipótese alguma, possível de ser explicada.

* Mateus Baldi é escritor, roteirista e fundador da plataforma literária 'Resenha de Bolso'

 

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