Jenn Ackerman/The New York Times
Jenn Ackerman/The New York Times

A veia autoral do maior falsificador de arte de todos os tempos

Elmyr de Hory falsificava trabalhos de Picasso, Matisse e Modigliani, mas uma nova exposição mostra sua faceta criativa

Max Horberry, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 16h00

ST. PETER, MINNESOTA – A casa de Mark Forgy na periferia de Minneapolis parece um museu. Obras de arte estão penduradas do chão ao teto. Espalhadas embaixo de escadas. Na sala, um busto de bronze do artista que produziu todas essas peças sorri num canto, admirando seu trabalho: um Matisse, um Modigliani, vários Picassos.

Forgy possui a maior coleção de obras de Elmyr de Hory, um dos mais conhecidos falsificadores de arte do século 20. Nos anos 1950 e 1960 de Hory teria falsificado mais de mil obras de grandes artistas. Muitas foram removidas dos museus. Outras não, segundo alguns especialistas.

Forgy passou anos dedicado à memória de de Hory. Escreveu um livro, dá palestras e contribui para exposições de obras falsificadas. É a sua missão diz ele, o que o levou ao seu mais recente empenho: realizar uma exposição dos trabalhos originais de Hory. Nenhuma obra falsificada.

“É um trabalho tentando mostrar o talento de nenhum outro senão dele próprio. Sem nenhuma simulação”, disse Forgy.

A exposição, no Hillstrom Museum of Art em St. Peter, Minnesota, se concentra nos retratos feitos por Hory. Mais de quatro décadas depois da morte do pintor, os visitantes poderão “esquecer a parte sensacionalista e digna de um tabloide da sua história”, afirmou Forgy. Este é o primeiro vislumbre do artista por baixo do falsificador.

Durante toda a sua vida de Hory lutou para despertar o interesse para o seu próprio trabalho. Húngaro, ele chegou aos Estados Unidos em agosto de 1947 e, em janeiro de 1948, expôs algumas obras na Lilienfeld Galleries em Nova York. ARTNews descreveu a mostra como um surpreendente “acorde bem conhecido da Escola de Paris”. Numa cidade explodindo com a modernidade do expressionismo abstrato isso significava “belo, mas antiquado”. De Hory vendeu somente um quadro. E culpou por isto a nevasca que caiu na noite de inauguração da mostra.

Mas ele já havia vendido várias falsificações na Europa. Durante a década seguinte, viajou pelos Estados Unidos fazendo se passar por um aristocrata vivendo dias difíceis depois da guerra. Vendeu obras falsificadas no estilo de alguns artistas que ainda estavam vivos, como Picasso e Matisse, e criou muitas falsificações.de Amedeo Modigliani que é impossível compilar um catálogo definitivo das obras do artista italiano de acordo com Kenneth Wayne, diretor do The Modigliani Project.

Algumas centenas de falsificações que ele fez mais tarde o levaram a ser perseguido por vários marchands, que o processaram, e ele foi expulso do país.

Mark Forgy conheceu de Hory foi numa praia em Ibiza na Espanha, em 1969. Uma série de escândalos recentes ligavam de Hory à falsificações de obras de arte nos Estados Unidos e na França. Mas na Espanha ele estava seguro. Assim adotou sua nova persona: o grande falsificador que enganou o mundo da arte. Ele se juntou com o escritor Clifford Irving, que, levando suas invenções e exageros a sério escreveu uma biografia do falsificador que foi sucesso de vendas. Fake é o título do livro. (O projeto seguinte de Irving foi uma autobiografia fraudulenta de Howard Hughes, o que o levou para a prisão).

E nessa era de criação de mitos surgiu Mark Forgy, de 20 anos. Os dois ficaram íntimos e com sua diferença de idade de quatro décadas, a amizade parecia a de um professor e seu aluno. De Hory deu lições de etiqueta da realeza (a maneira correta de beijar a mão de uma princesa) e o submetia a testes regulares sobre história da arte (Quando Botticelli viveu?).

Depois de seis anos juntos a amizade acabou. De Hory estava às voltas com novo pedido de extradição feito pela França. Quando surgiu a notícia de que a extradição fora autorizada, Forgy foi o único a lhe dar a notícia. Em 11 de dezembro de 1976, de Hory se suicidou.

Ele deixou tudo para Forgy, que voltou para Minnesota com 300 obras suas. Durante décadas Forgy manteve-se em silêncio. Somente em 2007 começou a escrever um livro de memórias. Depois de publicar o livro com recursos próprios em 2012 ele adaptou-o para uma peça de teatro e depois um musical. Um novo objetivo em sua vida começou a tomar forma, tornar-se o guardião do legado de de Hory. Emprestou obras para exposições sobre falsificação de arte e relatou a história do adorável canalha cujas transgressões viraram o mundo da arte de ponta cabeça. As pessoas achavam a história irresistível. Alguns ficaram tão inebriados a ponto de surgir um pequeno mercado para as falsificações e pastiches de de Hory. Mark Forgy disse que em 2014 um trabalho de de Hory no estilo de Matisse foi vendido por US$ 28 mil. Outras peças foram vendidas por alguns milhares ou centenas.

Forgy acha que esta nova exposição pode dar a de Hory o reconhecimento que ele sempre buscou durante sua vida. As pinturas foram feitas em Ibiza e muitas são retratos de amigos, incluindo alguns de Forgy. Algumas estão inacabados ou foram extraídas do caderno de rascunhos de de Hory. A variedade de estilos é surpreendente. Muitas evocam os artistas que ele falsificou.

Essa variedade de estilos é ao mesmo tempo uma indicação do seu talento como também da sua incerteza. Depois de uma vida se fazendo passar por outra pessoa e mentindo sobre si mesmo (até mesmo para Forgy e entre outras coisas o seu nome) é difícil definir de Hory em seu próprio trabalho.

”A virtude da originalidade é supervalorizada”, insistiu Forgy. Certa vez quando ele perguntou a de Hory se achava que lhe faltava alguma coisa do ponto de vista artístico, ele respondeu: “talvez imaginação”. Mas de Hory era original e imaginativo no que fez, por meio da narrativa e seus truques de mãos, quando explorou um momento específico na história da arte. Uma inovação que poucos conseguem.

Gene Shapiro, da Shapiro Auctions, em Nova York, disse que a sua história tem valor para os visitantes dos museus e colecionadores. “Ele tem uma triste fama, mas é um nome que as pessoas reconhecerão. Um colecionador, por exemplo, pode se orgulhar das obras próprias de de Hory e contar sua história”.

A noite de inauguração no Hillstrom Museum of Art foi um evento modesto. Como no mês de janeiro de 1948 em Nova York, a neve em fevereiro em Minnesota impediu muitas pessoas de irem para o Gustavus Adolphus College onde fica o museu. Mas Forgy estava extasiado: “finalmente estou prestando o último tributo ao meu amigo”, afirmou.

O quadro mais revelador talvez seja o autorretrato de de Hory. Escuro e com olhos opacos, é uma obra inacabada. A incerteza quanto a como pintar uma imagem dele mesmo talvez mostre o que ele tinha de mais honesto e mais humano.

Tradução de Terezinha Martino

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