A velha guerrilha incansável

As Farc ainda são fortes, ricas e seu poder desestabilizador alcança toda a América Latina

Luiz Felipe de Alencastro*, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2008 | 10h49

As repercussões do ataque colombiano à coluna guerrilheira das Farc em território equatoriano, no dia 1º, deram pleno destaque a uma realidade geopolítica até então subestimada no Brasil e na América Latina. De fato, há várias décadas o governo colombiano perdeu o controle de parte substancial de seu território para as Farc, uma força militar centralizada, bem equipada, cujos efetivos atingem milhares de combatentes. Em 2005, o Council on Foreign Relations (CFR), entidade não governamental sediada em Nova York que conta entre seus diretores Madeleine Albright, ex-secretária de Estado americana, considerava que as Farc tinham entre 12 mil e 18 mil combatentes, constituindo "um dos mais ricos e poderosos exércitos de guerrilha no mundo". Hoje, o número pode ter diminuído para 9 mil ou 10 mil combatentes, mas o poderio militar das Farc continua sendo considerável. Embora a guerrilha esteja mais presente nos departamentos do sudoeste, vizinhos do Equador, e em departamentos do norte, relativamente próximos da Venezuela, é sabido que as Farc transitam nas zonas fronteiriças dos cinco países vizinhos da Colômbia, entre os quais o Brasil. Um breve retorno à história do país ajuda a compreender os atuais acontecimentos. Dividida por oligarquias regionais que entravaram a emergência de instituições nacionais, flagelada por longos conflitos civis, entre os quais a Guerra de los Mil Días (1899-1902), a Colômbia conheceu mais uma série de episódios sangrentos na primeira metade do século 20. Na seqüência, a partir do Bogotazo (1 948 - insurreição da capital do país após o assassinato do líder liberal Jorge Gaitán), o período denominado La Violencia (1948-1953) causou a morte de mais de 300 mil colombianos. Cifra que correspondia a 2% da população nacional na época. Sucedem em seguida repressões contra movimentos camponeses, massacres, vinganças e formação de milícias armadas que desembocam no surgimento de organizações de guerrilha. As Farc, fundadas em 1964, nascem da política de autodefesa camponesa propugnada pelo Partido Comunista da Colômbia (PCC). Inspirado na Revolução Cubana, o ELN (Exército de Libertação Nacional), outra facção guerrilheira ainda em atividade, terá em suas fileiras notadamente o padre guerrilheiro Camilo Torres, morto em 1966. Na mesma altura, aparece a guerrilha de orientação maoísta ELP (Exército de Libertação Popular) e o M-19 (Movimento 19 de Abril, 1970), agrupamento populista criado para protestar contra as fraudes eleitorais que acaba aderindo à luta armada. Paralelamente, a logística da violência também é mobilizada pelas redes de narcotráfico, que transformam a Colômbia no maior produtor mundial de cocaína a partir dos anos 80. Atualmente, é da Colômbia que sai 90% da cocaína consumida nos Estados Unidos. Embora as Farc cobrassem um "imposto revolucionário" da cultura de coca desde os anos 80, foi o M-19 que se aproximou mais dos narcotraficantes. Tal aliança possibilitaria, em particular, a tomada do Palácio da Justiça de Bogotá pelo M-19, em novembro de 1985. Na época, alegou-se que Pablo Escobar, então chefe do cartel de Medellín, teria interesse no desaparecimento de documentos destruídos no Palácio da Justiça durante a operação. Por último, na virada dos anos 60, foram criados os grupos paramilitares, mobilizados pelos narcotraficantes e utilizados pelas Forças Armadas colombianas para combater as guerrilhas. Reunidos em 1997 nas AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), os paramilitares se dispersaram em 2006. Efetivamente, sucessivas negociações iniciadas no governo Misael Pastrana (1998-2002) e continuadas pelos dois governos Álvaro Uribe (2002-2006 e 2006 -) conduziram à dissolução de alguns movimentos armados. Restaram o ELN, atualmente em declínio, e sobretudo as Farc, cujo domínio se consolidou em algumas áreas do país, em parte graças ao narcotráfico. Conforme ainda o Council on Foreign Relations, as Farc obtinham, em 2005, entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões anuais do tráfico de drogas e outro tanto de seqüestros e extorsões da população colombiana. Estudos especializados registraram um total de 229 conflitos armados em 148 países entre 1946 e 2003. No meio tempo, a grande maioria dessas guerras cessou. Assim, excluídos os conflitos interétnicos (Palestina; território Karen, em Mianmar; Caxemira, na Índia), a guerra do governo colombiano com as Farc, na qual os combates começaram em 1966, configura-se o mais antigo dos conflitos mundiais. Considerando-se que tal fato ocorre num país independente desde 1819, a guerra civil colombiana apresenta-se como um caso único na história do mundo contemporâneo. Quais os motivos do agravamento do conflito nas últimas semanas?Em primeiro lugar, a pressão militar do governo Uribe contra as Farc atingiu outro patamar. Mais bem treinado, mais bem equipado e contando com o apoio material americano, o Exército colombiano debilitou as forças da guerrilha. Ações fora do território colombiano confirmaram a nova etapa da ofensiva anti-Farc. Assim, em dezembro de 2004, Rodrigo Granda, considerado o "ministro do exterior" das Farc e detentor de dupla nacionalidade, colombiana e venezuelana, foi seqüestrado em Caracas por agentes do governo colombiano e transferido para uma prisão na Colômbia. O fato gerou um incidente diplomático entre Bogotá e Caracas que terminou em fevereiro de 2005 com um encontro entre Uribe e Hugo Chávez, da Venezuela, após mediação do Peru, Brasil, Cuba e Espanha. Mas o antagonismo persistiu entre Chávez, engajado numa ativa política antiamericana, e Uribe, que aparece como o mais sólido aliado dos EUA na região. Ao mesmo tempo, cresciam as campanhas na Colômbia, nos Estados Unidos e na Europa em favor da libertação dos prisioneiros detidos pelas Farc. Cerca de 700 pessoas - políticos, militares, juízes, camponeses -, algumas por mais de dez anos, são atualmente reféns das Farc. Entre os seqüestrados mais conhecidos há três americanos e a franco-colombiana Ingrid Betancourt, ex-senadora capturada em 2002, quando era candidata à presidência da Colômbia. Em julho de 2003, o então chanceler francês Dominique de Villepin tentou organizar uma operação secreta de resgate de Ingrid Betancourt que provocou um pequeno incidente diplomático com o Brasil, após a aterrissagem de um avião militar francês em Manaus. O fracasso da operação fez aumentar o desapontamento da opinião pública da França, onde a libertação de Ingrid ganhou estatuto de causa nacional. Eleito presidente em maio de 2007, Nicolas Sarkozy, cujo estilo é bem mais voluntarista que o de seu predecessor, Jacques Chirac, obtém do governo colombiano que liberte Rodrigo Granda no mês de junho, com o fito de iniciar negociações com as Farc. Em novembro, um vídeo e uma carta confirmam a grande fragilidade física e psicológica de Ingrid Betancourt. Propondo-se como intermediário privilegiado, o presidente Chávez ganha o primeiro plano nas mediações entre Paris, Bogotá e as Farc. Entretanto, a opinião pública colombiana critica a "betancourtização" da questão dos reféns, que deixa de lado o destino de dezenas de colombianos detidos pelas Farc. Da mesma forma, o novo protagonismo de Hugo Chávez é malvisto nas esferas governamentais de Bogotá e Washington.Foi nesse contexto que cinco "bombas inteligentes" atingiram a coluna das Farc no território equatoriano, matando Raúl Reyes e duas dezenas de guerrilheiros. Reyes teria falado pouco antes no celular via satélite que carregava. Como é sabido, o rastreamento desses celulares é bastante complexo. Ora, segundo fontes francesas, os americanos já haviam fornecido há algum tempo ao governo Uribe as coordenadas do celular de Reys. O bombardeio teria sido precipitado para fazer abortar a libertação iminente de Ingrid Betancourt sob os auspícios de Chávez. Dias depois, a morte de um segundo dirigente da guerrilha, Ivan Ríos, confirma a extensão da ofensiva do Exército colombiano.A reação em cadeia do presidente do Equador e da Venezuela demonstrou o potencial desestabilizador que as Farc geram em toda a América Latina. Contenciosos do passado voltaram à tona. Desse modo, a ruptura de relações da Nicarágua com a Colômbia, atribuída de início à submissão do presidente Daniel Ortega à liderança dos presidentes Chávez e Rafael Correa, tomou outra significação. Ficou claro que Ortega punha de novo na mesa a questão das Ilhas de San Andrés, Providência e Santa Catalina, situadas no Caribe e pertencentes à Colômbia, que Manágua reivindica há 25 anos. No quadro da aliança militar que Ortega está propondo a Chávez, é toda a questão das reivindicações fronteiriças que pode reacender-se na região. Lembremos que a Colômbia também conserva pendências de fronteiras marítimas com Honduras e Venezuela, enquanto Equador e Chile guardam diferenças da mesma natureza com o Peru, o qual, a seu turno, se desentende com a Bolívia por igual motivo.Além do óbvio interesse em evitar um conflito armado numa região em que os países têm sua economia bastante integrada, a questão latente das fronteiras pode explicar os desdobramentos mais recentes da crise. Pode fazer entender a prudência do Peru e o notável silêncio de Evo Morales durante os últimos dias. Pode explicar, enfim, os sorrisos constrangidos e os apertos de mãos entre Hugo Chávez, Rafael Correa e Álvaro Uribe, na sexta-feira, na reunião de Santo Domingo.

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