Antonio Milena/AE
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A verdadeira marolinha

Crise econômica mundial deixa poucas marcas em Cuba: diplomados em escassez, nativos sabem como sobreviver

Leonardo Padura Fuentes*, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 23h38

Nós cubanos talvez sejamos o povo menos amedrontado pela propalada crise econômica que atingiu o mundo todo e já arruinou tantas pessoas. Uma prolongada convivência com a escassez e com as graves limitações que nos mergulharam no inferno da pobreza generalizada durante a década pós-soviética de 1990 - eufemisticamente chamada de "período especial em tempos de paz" - ensinou-nos a fazer frente a períodos marcados por todo tipo de escassez - alimentos, eletricidade, transportes, habitação, remédios, vestuário e muito mais - e a sair deles vivos, ainda que muitas vezes combalidos.

Foi na década de 90, quando os apagões eram normais e o meio de transporte mais comum era a bicicleta, que começou a circular a piada que melhor resumia a vida diária dos mais de 10 milhões de habitantes da ilha: na realidade, os cubanos têm apenas três problemas: o café da manhã, o almoço e o jantar. Diariamente.

Em um país onde a venda de casas é ilegal, onde é necessária uma série de autorizações oficiais infinitamente complexas para comprar um carro novo, onde o desemprego é voluntário porque os salários do Estado são baixos demais para se viver e muitos preferem obter seu ganha-pão de outras maneiras (usando o que chamam de "imaginação"), onde a quase impossibilidade econômica e prática de viajar para fora da ilha (e até mesmo dentro) há muito tempo eliminou esse desejo da mente dos cubanos, é evidente que os efeitos mais penosos e vistosos da crise atual mal chegaram a deixar marcas por aqui. É como se a ilha tivesse a vantagem - se é que se pode chamar assim - de ter caído numa galáxia diferente, alcançada somente pela poeira das explosões de estrelas remotas.

É claro que nestes tempos de crise global o governo cubano tinha de compensar o aumento exponencial dos preços dos alimentos importados (que representam cerca de 70% dos alimentos consumidos na ilha) e o salto dos preços dos combustíveis do ano passado, preservando a rede de segurança para os setores mais vulneráveis da sociedade. Mas é também óbvio que, no que se refere à situação da alimentação em Cuba, a crise prolongada que vivemos, exacerbada pelos três furacões que devastaram a ilha em 2008, não teve muito a ver com o que ocorria no resto do mundo e sua crise. Na realidade, a escassez de alimentos em Cuba foi amplamente causada pelo próprio, agora tradicional, nível reduzido de produtividade. Um dos reflexos mais previsíveis disso são os preços extremamente altos dos mercados e das lojas estatais, que aceitam somente moeda estrangeira - lojas em que quase todas as famílias são obrigadas a comprar dada a impossibilidade de sobreviver com os produtos subsidiados pelo Estado ou obtidos com os cartões de racionamento.

Por essas razões, os cubanos estão colocando suas esperanças não nas reuniões do G-7 ou do G-20, ou nas possíveis modificações do sistema capitalista financeiro ou econômico global que poderão decorrer desta crise, mas nas mudanças sociais e econômicas anunciadas pelo governo há dois anos, que, pelo menos em seu efeito sobre a vida de todos os dias, pararam depois da introdução de duas ou três medidas não estruturais e de algumas melhorias em setores cruciais, como o dos transportes.

Mudanças recentes, principalmente na equipe econômica herdada pelo governo de Raúl Castro, e os primeiros atos do governo Obama visando a abrandar as restrições às viagens e às remessas para a ilha de dinheiro de cubanos que moram nos EUA - mais a esperança de que, nas próximas semanas ou meses, embora Washington não deva acabar com o embargo, possa pelo menos introduzir outras medidas - suscitaram a expectativa de que a crise cubana possa se reduzir a qualquer momento.

E no entanto, a ausência de sinais de ação quanto à tão esperada abertura econômica ou à diversificação das formas de propriedade e produção tende a sugerir que a estrutura econômica socialista continuará sendo a preferida pela liderança do país e nada mudará.

Enquanto isso, uma geração de cubanos nascidos depois de 1980 viveu quase toda sua vida atormentada pela escassez. É para essa geração que a crise interminável teve seu maior efeito, e nela podemos agora ver claramente o que pode ser chamado de dano colateral: a escolha devastadora entre partir para o exílio, aumentar a marginalização e o comportamento violento, a alienação e a geração de tribos urbanas de gente esquisita - emos, roqueiros, rastas...

Porque, mesmo que a crise não nos assuste, ela deixa marcas, algumas indeléveis.

*Escritor e jornalista cubano. Seus romances foram traduzidos em várias línguas e sua obra mais recente, La Neblina del Ayer, ganhou o Prêmio Hammett de melhor romance policial em língua espanhola em 2005

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Após reunir-se com seis congressistas democratas americanos, o presidente cubano, Raúl Castro, disse que dialoga sobre qualquer assunto com o governo dos EUA. O presidente americano, Barack Obama, vem prometendo avanços nas relações com Cuba.

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