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A versão roedora de Dolly

Chineses criaram camundongos clonados e férteis a partir de células adultas. Poucos se deram conta do feito

Mayana Zatz*, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 01h51

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Dois grupos de pesquisadores conseguiram produzir camundongos clonados e férteis a partir de células adultas reprogramadas, as IPS (induced pluripotent stem-cells). Trata-se de uma revolução tão importante como o nascimento da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta reprogramada. É a prova definitiva de que, pelo menos em camundongos, as células IPS têm o mesmo potencial que as células-tronco embrionárias (CTE), derivadas de embriões. As IPS podem produzir qualquer tecido.

Surpreendentemente, a mídia não deu muito bola para o fato. A gripe suína e os escândalos do Senado ocuparam todos os espaços. Para os cientistas interessados em usar essa tecnologia a fim de gerar tecidos para pesquisas com aplicação médica, é uma excelente notícia. A nova tecnologia abre enormes perspectivas. Mas a experiência comprovou que tentar fazer clonagem reprodutiva humana, o que é rejeitado pela comunidade científica mundial, ficou muito mais fácil. Será que os grupos religiosos que se opuseram tão fortemente à aprovação de células reprogramadas pela clonagem terapêutica, mas aplaudiram as células IPS, estão conscientes dos potenciais riscos?

A palavra clonagem sempre causa confusão. Na realidade, as duas técnicas permitem a reprogramação de células adultas para o estágio de CTE. A diferença é que na clonagem terapêutica a técnica exige o uso de óvulos vazios (sem núcleo), enquanto as células IPS podem ser reprogramadas sem o uso de óvulos, o que torna a tecnologia muito mais fácil. Recordando, tudo começou com a clonagem da ovelha Dolly, em 1996. Foi a primeira demonstração de que células adultas de um mamífero - no caso da Dolly, de uma célula da glândula mamária - poderiam ser reprogramadas e voltar a se comportar como uma célula embrionária. Para isso, os pesquisadores escoceses Keith Campbell e Ian Wilmut inseriram o núcleo de uma célula da glândula mamária da Dolly em um óvulo sem núcleo de outra ovelha. "Enganaram" o óvulo e ele se comportou como se tivesse sido fertilizado por um espermatozoide.

O próximo passo foi inseri-lo em um útero de ovelha, uma experiência nada fácil. Foram quase 300 tentativas até gerar a ovelha Dolly. Seu nascimento foi a prova definitiva de que uma célula adulta poderia ser reprogramada e, se inserida em um útero, poderia gerar uma cópia (ou um clone) do animal doador da célula. Se foi possível gerar um animal completo, estava demonstrado que seria possível a partir dessas células gerar qualquer tecido no laboratório. Os cientistas vibraram com a descoberta. Não tínhamos nenhuma intenção de clonar ninguém. Mas poder usar essa tecnologia para produzir tecidos abria perspectivas fantásticas. A grande dificuldade, todos sabiam, era conseguir óvulos humanos.

A palavra clonagem suscitou enormes reações: "Isso vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva! Vai haver comércio de óvulos!" Os grupos religiosos se posicionaram fortemente contra e a clonagem terapêutica não foi permitida no Brasil. A Lei de Biossegurança, aprovada pelo Congresso em 2005, só permitiu pesquisas com células-tronco obtidas de embriões congelados que sobravam em clínicas de fertilização assistida.

E aí surgiram as primeiras células IPS... Em 2007, um grupo de pesquisadores japoneses, liderados pelo dr. Yamanaka, demonstrou pela primeira vez que em camundongos era possível reprogramar células adultas para que se comportassem como CTEs, sem o uso de óvulos. Esses cientistas conseguiram ativar alguns genes que estavam silenciados na célula adulta (introduzindo um vírus na célula) e ela voltou ao estágio de célula-tronco pluripotente , isto é, tornou-se capaz de formar todos os tecidos. Batizaram essas células de IPS - que significa célula pluripotente induzida. Logo em seguida foi demonstrado que isso também era possível com células humanas, o que ironicamente nunca havia sido conseguido com a clonagem terapêutica. Os grupos religiosos que se opunham às pesquisas com CTE derivadas de embriões ou à clonagem terapêutica aplaudiram as células IPS: "Não será mais necessário destruir embriões. As células IPS têm as mesmas propriedades que as embrionárias".

Os cientistas não tinham tanta certeza. No final do mês de julho, porém, dois grupos de pesquisadores chineses publicaram os resultados de uma nova revolução. A partir de células IPS obtidas da pele de camundongos adultos geraram Tiny (ou Xiao-Xiao, em mandarim), um animal clonado viável e fértil. No estudo mais bem sucedido, a pesquisadora Fanyi Zeng e seus colaboradores da Academia de Ciências da China conseguiram gerar 27 camundongos viáveis e férteis, que já produziram duas gerações com cerca de 200 descendentes saudáveis. Eles provaram ao mundo que células IPS de camundongos podem ser realmente pluripotentes. Não sabemos se esse experimento poderia ser repetido com humanos nem se as células IPS servirão algum dia para terapia celular (substituir tecidos). Entretanto, para gerar linhagens celulares para pesquisas, são fantásticas. Todos os cientistas concordam. Por outro lado, essa experiência - demonstrando que é possível clonar um camundongo a partir de células adultas reprogramadas - reabre o debate ético sobre a clonagem reprodutiva, iniciado com Dolly.

Produzir células IPS não é uma técnica trivial, mas é certamente mais fácil que a clonagem terapêutica. Como ela não requer óvulos, qualquer laboratório com experiência em biologia molecular pode repetir esse experimento. E é aí que mora o grande perigo. E se pessoas sem escrúpulos quiserem usar essa nova tecnologia para tentar gerar clones humanos? Elas poderiam inserir células IPS humanas em qualquer útero (humano ou animal) para ver o que acontece, o que é assustador. Poderemos controlar? Trata-se de uma discussão tão importante que não pode ser restrita ao ambiente acadêmico. É um debate do qual deve participar toda a sociedade. A grande questão é: e os grupos religiosos que se opuseram às pesquisas com clonagem terapêutica e/ou células embrionárias, mas aplaudiram as células IPS? Como eles vão se posicionar? 

* Professora titular de Genética Humana e diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP

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