A viagem da elefanta

De como essa senhora de meia-idade reacendeu a dicussão sobre o uso de animais em circos

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2009 | 13h11

Elefante não é bicho que se tenha em silêncio. Você, ele próprio ou a vizinhança, alguém há de trombetar essa rotunda presença. Nesse sentido, ninguém estranhou que Bambi tivesse sido descoberta por guardas ambientais num sítio em Limeira, a 154 quilômetros da capital paulista. Mais cedo ou mais tarde, aconteceria a delação. Ocorre que guardas ambientais a flagraram sob uma lona de circo, presa ao solo por uma cinta na pata dianteira, rodeada por cerca elétrica de baixa voltagem e corrente alternada, a balançar a cabeça de um lado para o outro. No parecer dos biólogos chamados para a ocasião, configurava-se um caso escandaloso de maus-tratos. A voz de soltura foi dada. Que Bambi fosse transferida de lugar.

 

Elefante também não é bicho de se acomodar num fusca. Os guardas ambientais sondaram um zoológico da região, o de Leme, a cerca de 35 quilômetros de Limeira. Nem ali havia espaço ideal para esse mamífero de porte, a saber: 750 metros quadrados, no mínimo, de área livre, com vala de 2 metros de largura por 2 de fundura, alambrado do lado de fora da vala, cobertura contra sol, chuva e, quiçá, casamento de viúva. Ficaram de providenciar.

 

Na terça-feira, a guarda municipal disse que era hora de partir. Afinal, afirmaram a guarda e o delegado da cidade, seus donos, os Stankowichs, além de tudo não possuíam autorização do Ibama para ter o animal. Sob protestos, os proprietários forneceram a carreta, que foi puxada por um cavalo mecânico emprestado de um amigo do secretário do Meio Ambiente de Leme. Bambi entrou calmamente no transporte e, depois de duas horas e meia pela Rodovia Anhanguera, chegou ao portão da nova hospedagem.

 

Pois não é todo portão que condiz com os largos quadris de uma carreta. Um trator foi chamado para derrubar uma das pilastras de concreto que seguravam a grade. Era a hora do "ufa" quando Bambi, a caminho do seu recinto, engata uma ré, e ré de elefante é coisa para se preocupar. O comando de Roberto, seu personal tratador, vira água. Bambi resolve sentar no terreno ciliar ao destinado a ela. E assim, paquidermicamente, faz sua pausa.

 

Se você pudesse rebatizar esse animal, talvez mudasse o registro, contaminado que deve estar pelo desenho da Disney. De fato, elefante não se afeita muito a um cervo. Elefanta, muito menos. Mas, há mais de 40 anos, Antonio Stankowich, filho de iugoslavos que passaram pela Romênia antes de bater na costa brasileira, entendeu que o bicho recém-adquirido de outro circo deveria ter denominação parecida com a do primeiro elefante de seu empreendimento circense. Um era Baby, o segundo seria Bambi. Não houve um seguinte para acompanhar a linhagem do "B".

 

Eram ambos indianos, estirpe famosa por sua memória. Conta-se que, passados anos a fio, esse animal ainda consegue se lembrar do caçador que tentou atirar nele ou de um cornaca que faça uso de maus-tratos. No geral, é dócil - e caro. Bambi custou, aos bolsos dos Stankowichs, US$ 150 mil, valor de mercado ainda atual. Fazia performances no picadeiro, entre elas girar sobre plataformas e ficar em pé sobre as patas traseiras, antes que leis como a estadual paulista, de nº 11.977/05, vetassem a apresentação ou utilização de animais em espetáculos circenses. Dessa data até então, diz Márcio Stankowich, diretor da unidade II do circo da família, Bambi somente participou de palestras didáticas para crianças, quando se explica quem ela é, de onde veio, quanto pesa, quantos anos tem.

 

O Atestado de Manejo e Sanidade, expedido por Augusto Francisco Paes, um dos dois veterinários da elefanta, indica que Bambi ostenta 45 anos, mas não menciona o peso. Em uma semana de apuração, sua massa adiposa variou de 4 a 7 toneladas, num efeito ioiô que seria estressante para qualquer lady. "Gorda e bonita", porém, é elogio num critério de saúde elefantino. O mesmo atestado discorre ainda que ela come cerca de 300 a 350 quilos de matéria verde por dia, ou melhor, por noite, que Bambi é animal de hábitos alimentares madrugadores. No cardápio constavam feno, capim-napier, ração laminada e, esporadicamente, 50 quilos diários de cana, a de açúcar, "pois ela se diverte mascando". Márcio Stankowich lembra que milho, nem pensar, porque desanda o intestino. Outro fator "nem pensar" é o sol à flor da pele. Fugindo à regra da espécie, Bambi descama-se no dorso devido ao aparecimento de erupções e feridas.

 

Quanto à presença da paciente no sítio em Limeira, tanto Paes quanto Marco Antonio Bastos da Silva, o outro veterinário do circo, explicam assim a situação: distúrbio comportamental. Bambi insistiria em fazer a apresentação a que estava acostumada, principalmente quando juntava gente em volta. Optou-se pelo tratamento homeopático, mas, como estava difícil para os veterinários acompanhar a rotina circense, Bastos da Silva sugeriu que os Stankowichs alugassem um lugar tranquilo enquanto se providenciava a transferência de Bambi para o Zoooparque de Itatiba, onde moram as elefantas Honey, Madras e outra Bambi (há quem repita a fórmula), também egressas de circos. Em manada, era capaz de se restabelecer. Hans Furrer, administrador do Zoo de Itatiba, afirma não ter recebido até então nenhum comunicado oficial requisitando a transferência.

 

Para os veterinários, o uso da cinta na pata, repetidamente mostrada pelas tevês no dia da apreensão de Bambi, se justificaria nas limpezas feitas por volta das 10h30 e das 16h30, já que a tenda ficava escancarada nesses momentos. Mas Roberto Luís Bernardes, o tratador de Bambi, dizia estender o uso da cinta a partir da segunda faxina do dia: "É muito perigoso deixar o animal solto durante a noite". Com o que Pedro Ynterian, diretor internacional do Projeto de Proteção aos Grandes Animais (GAP), corrobora: "Um elefante em espaço fixo tem que estar amarrado porque é a única forma de se garantir a segurança, mas, ao mesmo tempo, deixá-lo assim durante dias é mau trato". A solução? "Imensas áreas com muros ou cercas para não escaparem, como acontece nos zoológicos de primeiro mundo."

 

Os Stankowichs, tanto o pai quanto os filhos Márcio e Manito, não entendem o cenário assim. Augusto Stevanovich, dono do Le Cirque, e Marlene Querubim, proprietária do Circo Spacial, tampouco. São adeptos de uma tradição circense que inclui os animais no espetáculo, desde que o uso seja regulamentado. Há um projeto de lei na Comissão de Justiça, Legislação e Redação à espera dessa resolução. "Assim, só terá animal quem tiver condições", diz Augusto, que tentava explicar ansiosamente como se pode adestrar um animal, qualquer um deles, de vaca a burrico, de pato a periquito, sem violência. Enquanto isso, os circenses criticam a ação das ONGs. "Só pedem a guarda de animais exóticos, de grande valor, que enviam para zoológicos particulares", ataca Marlene. Também se dizem vítimas de preconceito: "Se, em vez de circo, meu negócio se chamasse rodeio, o papo seria outro", defende-se Márcio.

 

Depois de ter as orelhas puxadas em vão por um funcionário do zoológico e de seu dono receber uma gravata do guarda ambiental por atitude de desacato, Bambi leva uma corrente na pata e é conduzida até o recinto de Leme por uma passagem rapidamente arrombada num muro do zoológico. Dois dias depois, a elefanta parecia alheia a vaidades, intrigas, ilusões. Não se mostrava disposta a animosidades. Quebrava a cana de açúcar como se a tromba fosse um cotovelo, bebia água do regador porque, segundo o tratador de Leme, seria esse seu hábito no circo itinerante e estava amarrada por uma corrente de imensos elos na pata dianteira esquerda. No zoológico fechado para visitações, um terreno de 1.300 metros quadrados esperava pelas valas de proteção e por toda aquela série de providências. No paralelo, corria liminar de soltura impetrada pela família Stankowich e esquentava a chapa a próxima edição do jornal Atual, anunciando a mais recente atração do zoo da cidade.

Colaborou Bruna Rodrigues

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