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'A Vida de Vernon Subutex' narra a saga do hipster que virou mendigo

Livro de Virginie Despentes virou uma série de sucesso na televisão francesa e chega agora ao Brasil

Ronaldo Bressane*, Especial para o Estado

30 de novembro de 2019 | 16h00

Zanzando pelo centro de São Paulo, volta e meia vejo um cara em seus 40, barba comprida, camisa xadrez, camiseta de banda, tatuagens, calção curto, chinelos estranhos, mochila estilosa, andar rebolante. E me vem a dúvida: hipster ou mendigo? Estará saindo de uma hamburgueria, procurando um novo café orgânico, vindo de uma after party? Quando para perto da lixeira, olha distraidamente pros lados e enfia a mão lá dentro, em busca de um tesouro – uma latinha, um hot-dog largado pela metade, uma bituca –, percebo as manchas de sujeira em seu rosto e cai a ficha: o cara acabou de adentrar o território da vida ao ar livre. Não faz muito ele estava em uma balada descolada, no show da banda indie mais falada da última semana, na loja do momento. Mas o momento passou e ele foi pro olho da rua. Mais ou menos a história de milhões de hipsters pelo mundo nesse comecinho do século 21: a história de Vernon Subutex.

Primeiro volume de uma saga que acaba de virar série de sucesso no Canal+ francês, A Vida de Vernon Subutex, de Virginie Depentes (Companhia das Letras), narra com humor sarcástico e olhar compassivo a transformação de um roqueiro em sem-teto. Subutex é um representante de uma raça em extinção: o macho branco heterossexual de meia-idade, solteirão convicto, dono de um conhecimento e de um charme capazes de seduzir qualquer mulher que passe por perto. No caso, o fascínio advinha de ser dono da melhor loja de discos de Paris. “A vida costuma se apresentar em duas rodadas”, filosofa Depentes. “Na primeira ela te distrai, te fazendo acreditar que você está no comando; na segunda, ao perceber que você está relaxado e indefeso, ela se volta contra você e te f*”. 

A graça do romance de Depentes reside em registrar precisamente o momento em que alguém cool se torna uncool (vale o trocadilho em português). Lançado em 2015, cartografia de uma época em que o digital disruptivamente aposentou toda um estilo de vida, o livro já seria genial se só se conformasse em demonstrar a erosão da economia do efêmero na época pré-internet. Ao optar pelo registro do thriller, acaba por se converter em verdadeiro documento sociológico. Pouco depois de sua bancarrota pessoal, Subutex, o vendedor charmosão, vive literalmente do passado – vinis, CDs, camisetas, apetrechos ligados à cultura pop. Quando seu baú roqueiro e o auxílio-desemprego acabam, cola na aba de um amigo, Alex Bleach, um ultrasexy rockstar negro que lhe tem em alta conta por ter se formado musicalmente fuçando nos discos de sua loja. Só que Bleach, afundando no Zeitgeist depressivo dos anos 2010, morre de overdose na banheira de um hotel. Logo em seguida, Subutex é despejado. É a deixa para o ex-vendedor de discos começar uma via-crúcis por sofás de amigos e de mulheres que ainda caem em seu encanto cinquentão, adornado por um belo par de olhos azuis. Antes de Bleach morrer, presenteia o amigo loser com misteriosas gravações em vídeo que sua morte súbita tornaram um tesouro espreitado por produtores musicais vampirescos, e Subutex se torna o sujeito mais procurado de Paris. 

O processo de vampirização da cultura pop, em que o artista é sugado até a morte para, então, passar a valer mais do que quando vivo, é destrinchado com graça sardônica por Despentes – ela mesma uma ex-roqueira e jornalista de rock. Conforme o parasita Subutex vaga de apê em apê, flana por todas as classes sociais de Paris. Mesmo assentado sobre a cultura pop, o romance é um patchwork das figuras perdidas deste estranho século – no que lembra bastante o espetacular A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, outro livro que usa o rock como bússola para a decadência contemporânea: se todo roqueiro morre aos 27, o que acontece quando envelhece? “Depois dos 40 todo mundo parece uma cidade bombardeada”, define Despentes, que, ao contrário da romancista norte-americana, que a cada capítulo usa uma técnica narrativa diversa, narra todo o romance na terceira pessoa, em discurso indireto livre, acompanhando, com ironia e doçura, os vaivéns de músicos, artistas, jornalistas, produtores, atores, marqueteiros, lolitas e quarentonas – todos se agarrando a um vão ideal de juventude.

Esta é a segunda incursão de Despentes pelo romance, depois do chocante Baise-moi, publicado em 1992 e tornado um filme quase pornô que ela mesma dirigiu – uma história de duas mulheres que se vingam de machões idiotas e opressores. Libertária, Despentes é craque nas descrições de cenas de sexo – real motor do livro, já que o diabo é pai do rock e o centro da narrativa é ocupado por um Don Juan em queda livre: menos interessado em ostentar virilidade do que em desvendar o mundo dos gêneros não binários (perdoe o spoiler), Subutex se apaixona perdidamente por uma brasileira trans cujo instrumento é maior que o dele.

Internada em um manicômio aos 15, estuprada por três homens aos 17, prostituída aos 20 para se sustentar, Despentes sabe do que fala ao tratar da luta contra o machismo estrutural – é também autora do catártico Teoria King Kong (N-1 Edições), ensaio feminista dedicado às “mulheres feias”, cujos corpos foram excluídos do mercado de carne que se tornou a sociedade do espetáculo. Para nós, brasileiros, a boa notícia é que o final melancólico deste livro terá a companhia de mais dois volumes. Lançada no dia dos ataques ao jornal satírico Charlie Hebdo, a trilogia soma 1.200 páginas. Finalista do Booker e campeã de vendas na França, este ano a agridoce narrativa foi vertida ao formato série de TV, em nove episódios de 30 minutos, estrelada por Romain Duris (A Espuma dos Dias), e se tornou sensação na França. A confirmação da tese roqueira de que, quanto mais charmoso o tombo no underground, maior será o sucesso – uma vã esperança para todo hipster que um dia, não se iluda, acabará mendigo.

*RONALDO BRESSANE É ESCRITOR E JORNALISTA, AUTOR DO ROMANCE ’ESCALPO’ (REFORMATÓRIO), ENTRE OUTROS LIVROS

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