A vida dos outros

Autores aloprados de dossiês agem supondo que existam consumidores aloprados de dossiês ávidos por saber do caráter alheio

Renato Lessa

19 de junho de 2010 | 16h00

Guerra eleitoral. Onézimo teria sido sondado por petistas para espionar José Serra

 

 

Chappaquiddick entrou para os anais da história norte-americana como símbolo das relações entre reputação pessoal e vida pública. O acidente automobilístico que envolveu naquela localidade, em 1969, Edward Kennedy e Mary Joe Kopechne - membro do staff eleitoral do irmão de Edward, Robert, na campanha presidencial de 1968 -, vitimando-a fatalmente, arruinou, pelas suspeitas de extraconjugalidade e pela acusação de evasão do local do ocorrido, as chances eleitorais nas presidenciais de 1972 do então senador. A indicação democrata acabaria nas mãos de George McGovern. Massacrado por Richard Nixon, McGovern venceria apenas em Massachussets e no Distrito de Colúmbia. Conseguiu apenas macérrimos 17 votos no Colégio Eleitoral, contra 520 conferidos ao Tricky Dicky.

 

McGovern era bom sujeito, liberal americano das antigas. Sua plataforma incluía a imediata retirada dos americanos do Vietnã e a retomada dos valores e políticas da Great Society, iniciada no governo Johnson. O interessante é que sua campanha foi negativamente afetada, para além de seu "radicalismo", por um torpedo que atingiu a alma de seu candidato a vice - o senador Thomas Eagleton - "acusado" de maníaco-depressivo e de saúde mental duvidosa. Ele teria sido, ainda, a fonte da informação, disseminada pela direita, de que McGovern queria a legalização das drogas e do aborto. Haja dossiês.

 

Em um período de poucos anos, as chances eleitorais de dois importantes políticos norte-americanos foi arruinada por fatores ligados a condutas pessoais. No caso de Ted Kennedy, sua tentativa de retorno à corrida presidencial nos anos 80 foi impiedosamente marcada por alusões tais como: "Ontem nevou em Chappaquiddick". A simples declinação da toponímia, pela imprensa de direita, servia de passagem para uma aversão que escamoteava as razões políticas do veto, em incursão pura e dura pelo campo da moralidade. O pobre senador Eagleton retirou-se da política, na mesma década de 80, após "acusações" de bissexualismo.

 

Paro por aqui, mas essa história continua. Que o digam Clinton, nos anos 90, e, há pouco, um candidato derrotado nas primárias democratas vencidas por Barack Obama, o senador John Edwards. Há um muito de tudo a operar como fundamento dessas histórias: invenções, indícios e evidências. De resto, a vida não se espalha em compartimentos discretos e incomunicáveis, de forma que suposições ou evidências sobre a moralidade pessoal não possam aparecer como componentes do nosso juízo político. Não é esse o problema, mas sim o que ganhamos, em termos de politização e de qualidade de reflexão sobre a vida pública, se os nossos marcadores cognitivos são configurados, prioritária e exclusivamente, por impressões de natureza moral? Não se trata, digo logo, de promover um elogio da delinqüência ou um encorajamento à entrada de celerados na vida pública. A aversão a isso é sadia, tal como o demonstra o episódio Ficha Limpa. De passagem, é importante que se diga sobre ele: trata-se menos de um avanço na qualidade da vida pública do que uma tentativa de interdição de que ela venha a piorar cada vez mais. Mas, como a vida mede-se por grandezas relacionais, é natural que tomemos a segunda alternativa como sendo a primeira.

 

Assim como, segundo o dr. Johnson, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, a afirmação - da própria - e a negação - da alheia - da honra pessoal, como formas privilegiadas de ação no mundo público, são o abismo da política. Nesse sentido, elas são um refúgio de republicidas. Nos EUA, o apelo à moralidade, e à reencenação de um contínuo potlatch da pureza, esteve sempre a serviço de causas reacionárias. Entre nós, a coisa é mais confusa e disseminada. A obsessão à repetição dos mecanismos sombrios que envolvem o termo "dossiê" parece ser sintoma de uma cultura política assentada na desconfiança e na crença na eficácia da chantagem e da intimidação. No limite, não há conflito de natureza política, mas entre maquinações criminosas que procuram se apropriar da vida pública. Não nasci ontem e reconheço plausibilidade da suspeita. Por vezes, tenho mais do que suspeitas, mas isso não nos condena ao abismo da guerra moral.

 

Não foi por capricho que o filósofo político Thomas Hobbes, no não tão longínquo século 17, enumerou entre as condições necessárias para a paz civil uma regra que chamou de "anticontumélia", que dizia respeito a uma cláusula de não difamação. Trata-se de afirmar a incompatibilidade entre a prática da difamação e a qualificação da vida pública. É disso que se trata. Na última aparição, entre nós, dessa patologia, das duas uma: ou há difamadores que elaboraram um dossiê ou há difamadores que acusam inocentes de ter elaborado difamações. De qualquer forma, alguém está a difamar. Todos possuem boas razões para a desconfiança mútua.

 

Já não nos distinguimos pela faceta pública do que queremos e imaginamos, mas pelo que, com tal faceta, pretendemos esconder. Supomos que intenções inconfessáveis devem sempre estar presentes como configuradoras das motivações para a política. São elas, portanto, que devem ser exploradas, tanto como exigência de sentido quanto como forma de neutralização dos inimigos. Não deixa de haver, ainda, cinismo e curiosidade mórbida na coisa. Por mais odiosa que seja a prática dos dossiês, ela alimenta a curiosidade pública e define um padrão de informação a respeito da política. Em outros termos, autores aloprados de dossiês agem na suposição de que existam consumidores aloprados de dossiês, ávidos por informações a respeito do que verdadeiramente interessa: o caráter moral, o fundamento último da vida dos outros.

 

* Renato Lessa é professor titular de Teoria e Filosofia Política do Iuperj e da Universidade Federal Fluminense

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