A vida para buscar

Elas não desistem de achar netos nascidos em cativeiros da ditadura. Hoje são adultos e as julgam

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 21h40

A sala de espera da sede de Abuelas de Plaza de Mayo pode ser comparada a um cruzamento obrigatório. Sob uma luz tremeluzente, por esse pequeno espaço de pé-direito alto, alguns móveis apenas e pôsteres pelas paredes, passam senhoras e jovens o tempo todo. São as avós e seus assistentes. Vão de lá para cá, de cá para lá. Entram e saem batendo as portas de pinho-de-riga desse conjunto de salas, piso térreo de um edifício antigo no bairro de San Cristóbal, em Buenos Aires. A campainha toca pela enésima vez e um jovem casal entra. Serão atendidos em breve. Então a moça recém-chegada olha um dos pôsteres. Uma seqüência de rostos, perseguidos do regime militar argentino que foi de 1976 a 1983. Em outro cartaz, lê o slogan "No te quedes con dudas". Num outro, a mensagem vem no condicional: "Si tienes dudas...". Moça e acompanhante cochicham. Em minutos, um representante da organização lhes pede que o acompanhem até outra sala. E fecha a porta.Nos últimos tempos, tem sido cada vez mais freqüente moças e rapazes procurarem a equipe de Abuelas - também formada por advogados, psicólogos, assistentes sociais, geneticistas -, movidos por dúvidas sobre sua origem. Seriam mesmo filhos de seus pais? Sentem-se estranhos na própria família? Ouviram alguma história esquisita? Seriam o elo perdido de algum drama familiar, no país que fez mais de 30 mil desaparecidos políticos? Pois então, toda vez que uma moça ou um rapaz se acerca dessas salas em San Cristóbal, para uma consulta sigilosa, é bem provável que venha a se exumar o passado. Recuperar a identidade de crianças nascidas nos cárceres argentinos é, há 30 anos, o leitmotiv dessa organização de avós. Na semana passada, essas senhoras até poderiam celebrar três acontecimentos, não fosse o fato de considerá-los etapas de um processo: a prisão no Paraguai do médico argentino Norberto Bianco, um sinistro "parteiro" da ditadura; o julgamento de Benjamín Menéndez, el Cachorro, homem forte do regime, responsável por milhares de mortes e sumiços em Córdoba; e a identificação de mais um bebê surrupiado pelos militares. Trata-se de Laura Díaz, hoje com quase 30 anos, confirmada como filha de Silvia Dameri e Orlando Ruiz, dois militantes de esquerda desaparecidos no final dos anos 70. Testes de DNA dão 99,99% de certeza sobre a filiação. Para as avós, recupera-se o neto de número 90. - En el caso, nieta! Quem pontua é Rosa Roisinblit, 88 anos, vice-presidente da organização, minutos depois de abrir a porta de seu gabinete para esta repórter. Ocupa a mesa menor da sala, em cujo centro se destaca outra mesa, maior, destinada a Estela de Carlotto, a presidente. Quem será de fato a abuela-en-jefe? Rosa, com seu tom imperativo, ou Estela, com seu jeito doce? Dúvida.- Señora, somos 13 avós no conselho diretor desta organização e muitas avós pelo país. Todas as terças o conselho se reúne nesta casa. E algumas de nós trabalham aqui todos os dias. É o meu caso. Há 30 anos dedico todos os dias que Deus me deu a esta causa: localizar algo como 500 bebês que nos foram roubados pela repressão. A causa das avós - doravante chamadas de abuelas, porque, convenhamos, são uma classe de avós muito particular -, se rouba a tranqüilidade de muitos, agrega a simpatia de muitos mais pelo mundo. Foram indicadas para o Nobel da Paz deste ano e recentemente viraram nome de praça em Paris. Para se ter uma idéia mais doméstica dessa popularidade, dias atrás, em meio às tensões entre governo e produtores rurais, a presidente Cristina Kirchner saiu-se com esta: "Estes senhores deveriam ser como as Abuelas de Plaza de Mayo, que enfrentam a adversidade sem recorrer à violência". Pois as supracitadas nem se abalaram em mesuras. Dão-se bem com os Kirchners, assim como procuraram se dar bem com todos os governos constitucionais, pós-ditadura. O problema delas são os verdugos. Médias e altas patentes militares que hoje desfilam pela Argentina atrás de vidros escurecidos de carros, cumprindo prisão domiciliar - como Jorge Videla, de 82 anos, chefe da junta que tomou o poder em 1976. Com a revisão dos termos da anistia em 2006 - em especial, a revogação das leis de Ponto Final e Obediência Devida - todos os que participaram de desmandos do regime estão agora ao alcance da Justiça. Mandantes e executores. Mas, voltemos à causa: em 1977, essas mães (ou sogras) de militantes de esquerda viram-se numa situação humanamente desesperadora. Suas filhas (ou noras) chegaram aos aparatos da repressão grávidas. Além de sumirem sem deixar rastro nem esperança de retorno, iam supostamente tendo filhos em condições impensáveis. Eram mulheres na faixa dos 20, 25 anos, no auge do vigor reprodutivo. Foi o que aconteceu a Patricia Julia Roisinblit, a bela estudante de medicina cujo retrato se vê na parede ao lado da mesa de Rosa:- No começo buscávamos filhos. Não podíamos imaginar que também não iriam nos entregar nossos netos. Quando nos demos conta de que isso já acontecia, saímos, separadamente, a percorrer orfanatos, asilos, hospícios... ora, um filho adulto você busca na polícia. Mas, e um bebê? Um dia, indo ao juizado de menores, soube de avós que se reuniam no centro, com o mesmo tipo de problema. Fomos nos encontrando assim: buscando, buscando, buscando. A fundação da entidade, 22 de outubro de 1977, tem a ver com o dia em que aquele pequeno grupo de mulheres protocolou a primeira petição à Justiça, cobrando o paradeiro dos netos. Viram que precisavam de apoio internacional. Escreveram ao papa Paulo VI. "Temos batido em todas as portas, sem obter resposta. Por isso nos permitimos rogar a Vossa Senhoria (sic) que interceda para pôr fim a este calvário que estamos vivendo." (A carta nunca chegou àquele pontífice, mas João Paulo II bem que se ocupou das abuelas). De São Paulo, naquele momento, o cardeal Arns tratava de dar apoio às buscas das senhoras, já ciente da cooperação militar no Cone Sul, a Operação Condor. E assim as abuelas foram ganhando traquejo: passaram a fazer reuniões em confeitarias tradicionais de Buenos Aires; quando se juntavam em casas particulares não fumavam, pois o cheiro de cigarro daria a entender que muita gente estivera reunida ali; passaram a lidar com senhas e contra-senhas; aprenderam a fazer trabalho de detetive. Ao contrário das Madres de Plaza de Mayo, que cobravam o paradeiro dos filhos presos, num confronto mais aberto (tanto que há mães desaparecidas), no caso das abuelas não houve choque, mas o regime topou com um problemaço: elas defendiam inocentes. Como atacá-las? E assim foram levantando informações dos bebês em poder de famílias de militares ou de pessoas ligadas a eles. Com 90 casos solucionados num universo que pode chegar a 500, sustentam a tese de que havia um plano superior para que os recém-nascidos não fossem devolvidos a suas famílias, especialmente aos avós, pois estes os criariam à maneira como teriam criado os filhos - subversivos. O argumento bizarro ecoou nas palavras de Menéndez dias atrás, no tribunal, ao dizer-se "responsável por tudo, mas culpado de nada". Ainda hoje o oficialato justifica tudo: os centros de tortura, as valas comuns, os vôos da morte, o massacre de uma geração. Quanto mais se escava o passado, mais histórias emergem das maternidades clandestinas do regime, como a que funcionou na Escola Superior de Mecânica da Marinha, a Esma, tenebroso centro de tortura, ou em La Perla, centro de detenção onde el Cachorro dava ordens. Estudos monstram que o ano em que mais sumiram bebês na Argentina foi 1977: 82 casos. Em 1978, foram 28, dentre eles o neto de Rosa. Patricia, grávida de oito meses, foi presa com o marido, José Manuel Pérez Rojo, e a primeira filha, Mariana, de 15 meses. Patricia estava no último ano de medicina. José Manuel tinha um depósito de brinquedos. Militavam nos Montoneros. Quando o casal sumiu, Mariana foi entregue por um agente na casa dos familiares paternos. Nunca se soube do bebê que Patricia tivera no cárcere. Até que, no ano 2000, em Genebra - desde 1978, Rosa jamais deixou de denunciar os crimes da ditadura na reunião anual da Comissão de Direitos Humanos da ONU, nessa cidade suíça -, um grupo de ex-presos procurou a abuela para contar que sua filha tinha sido transferida para a Esma só para ter o bebê - um menino. Que o parto fora assistido por um médico do Hospital Naval. E que logo Patricia teria ido para outra prisão, sem a criança. Em 2000, uma denúncia anônima agregaria que o agente civil da Força Aérea Francisco Gómez e sua esposa, Teodora Jofre, tinham adotado ilegalmente o neto de Rosa.- Encontrei Guillermo quando ele estava com 22 anos. Comprovamos a identidade e a Justiça condenou seus apropriadores. Guillermo se voltou contra mim. Foi criado por uma mulher simples, que fazia serviços domésticos em casa de um alto membro da Aeronáutica, não gostou de vê-la presa, pagando pelo que fez. Ele não se preocupa tanto com o falso pai, mas com a falsa mãe, a quem chama de "mi vieja". Então pergunto: por acaso ela é a minha filha, Guillermo? Esse casal sabe como tudo se passou, o que fizeram com Patricia, e se cala. Todos se calam! Por isso luto por todos os netos. Com o tempo passando e os bebês crescendo, as abuelas tiveram de ajustar as táticas. Também ganharam mais apoio, mais dotações, fora as indenizações do regime. Decidiram criar um banco para armazenar amostras de sangue das famílias interessadas em recuperar filhos de filhos desaparecidos. Contaram com Marie Claire King, renomada geneticista americana, que desenvolveu estudos sobre o índice de abuelidad - ou como o material genético dos avós pode definir a filiação, na ausência dos pais - chegando a um confiável índice de parentalidad, que inclui amostras de outros membros da família. Até hoje as abuelas mantêm convênio com o centro da dra. King, em Seattle. Por outro lado, no governo Alfonsín (1983-89), criou-se o Banco Nacional de Dados Genéticos (BNDG), centro público acionado pela Justiça para peritagem oficial. Para a dra. Belén Cardoso, diretora do BNDG, o que vale são os testes do banco oficial. "Me incomoda quando pessoas chegam aqui dizendo já ter tirado sangue para bancos alternativos", admite. Para as abuelas, é preciso manter um banco de sangue fora do país. Medida de segurança? Desconfiança dos laudos locais? "Não", despista Rosa. "Ferramenta a mais."Hoje as abuelas não buscam bebês, mas adultos com vontade própria. Laura Díaz, a neta 90, recusou-se a colher sangue. Em ação impetrada por Abuelas, uma juíza expediu mandado de busca na casa de Laura. Recolheram sua escova de dente, um pente de cabelo, roupas usadas por ela. Desse material fez-se a prova de DNA. Laura, como seus dois irmãos mais velhos, foi seqüestrada e criada por militar. Só que o "direito de não saber" dela bate de frente com o "direito de saber" da família dos desaparecidos. Um drama. - Há netos tomados de boa-fé, por quem os encontrou no abandono, em orfanatos. Esses pais adotivos não podem ser penalizados. Outros agiram de má-fé. Ao roubar bebês dos braços de mães presas e torturadas, cometeram crime de lesa-humanidade. Não podem ficar impunes. O que posso lhe dizer, señora, é que não existem dois casos iguais. Temos netos que preferiram ficar com a família dos pais verdadeiros, outros dizem ter duas famílias, outros rejeitam a família recém-descoberta. Eu mesma disse ao meu neto: aceitarei de você o que puder me dar. Nada mais.Em 2001, María Eugenia Sampallo Barragán, de 30 anos, decidiu processar o casal que a criou, Osvaldo Rivas e Cristina Gómez Pinto. Eles a receberam de um comandante do Exército, Enrique Berthier. Feitos os testes genéticos, comprovou-se que era filha de um casal de desaparecidos. María Eugenia não teve dúvidas de que lado ficar. Crescera debaixo de maus-tratos e mentiras sobre sua origem. Era tratada como estorvo. Há dois meses condenou o trio, a 10 anos (para Berthier), 8 anos (para Rivas) e 7 anos (para Cristina). Encerrou o caso com uma coletiva de imprensa:"Os detalhes de nossa vida pessoal não contribuem para a tomada de consciência sobre o que de fato sofremos".Berthier, Rivas e Cristina estão presos.

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