Cortesia de Sousa Haz
Cortesia de Sousa Haz

A vida radioativa de um cineasta brasileiro radicado na Hungria

Sousa Haz foi indicado ao Festival de Berlim, quase levou um Jabuti ao imitar Paul Valery e contaminou-se em Chernobyl

Donny Correia*, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2018 | 16h00

Dizem que a linha entre ficção e realidade é tênue, e o constatamos todos os dias nas redes sociais, onde se proliferam as modas do momento: fake news, guerras de ideologia e linchamentos virtuais que alimentam a libido cultural das novas gerações. No entanto, esta esquizofrenia da realidade pode se tornar alimento de uma estética muito pessoal. Para o poeta e cineasta carioca Márcio-André, a tal linha da ficção simplesmente não existe.

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Márcio-André de Sousa Haz, 40, professor formado em Letras pela UFRJ e que hoje vive e filma em Budapeste, acaba de disputar a seletiva para melhor curta no Festival de Berlim com seu filme Man in the Crowd, baseado num conto de Edgar Allan Poe. Não conseguiu um lugar entre os finalistas, mas já tem conquistado críticas positivas na Europa. No filme, o personagem assiste à vida passar diante de si enquanto faz reflexões e especulações sobre toda sorte de assunto que aponte ao comportamento dos homens.

Diferente do ser estático na narrativa de Poe, Márcio-André botou a Terra para girar ao ritmo de seus devaneios. Cofundou a editora Confraria do Vento, em 2005, enquanto nutria o primeiro de vários planos no mínimo peculiares: voar até a Ucrânia, chegar a Chernobyl e executar uma performance poética solitária, ele e seu violino, em meio às ruínas radioativas de Prypiat. Uma espécie de retiro intelectual reprovado por sua família e proibido por seu médico. Em vão.

A experiência nuclear o inspirou a escrever Ensaios Radioativos (2007), em que descreve as etapas da viagem e faz diversas reflexões sobre Arte e Literatura. Desde então, ostenta: “Sou o único poeta radioativo do mundo”. Longe de ser esdrúxula, a máxima é verdadeira. Márcio-André contaminou-se, efetivamente.

Convicto de que dali por diante não haveria mais limites, foi morar em Santiago de Compostela, onde sobreviveu vendendo seus poemas e ensaios para revistas do Brasil e do exterior. Em 2012, casou-se com a artista plástica galega Ana Gesto, numa cerimônia que se tornou outra performance consistindo de uma peregrinação pelo centro da cidade, seguida por um coro.

Performances formam um capítulo aparte para Márcio-André. Uma das mais críticas e interessantes é um quadro minimalista. Sentados em banquetas, ele do lado esquerdo, Ana Gesto do lado direito. Ao centro, uma bacia branca com água. Ambos olham-se fixamente, até que passam a se alternar em imersões rápidas, com a cabeça, nessa bacia, enquanto tentam pronunciar “Estúpido” e “Estúpida” com a boca e o nariz inundados de água. Por vezes, se afogam, mas isso não impede os insultos, que, lá pelas tantas, passa a ser patético ao ponto de os performers não conseguirem segurar o riso. É um grito tragicômico da impossibilidade de uma comunicação no cerne da intimidade de um casal.

O matrimônio acabou, e Márcio-André rumou para a Hungria. Ao longo do caminho, vários festivais de poesia nos quais cavava situações das mais absurdas. Ao saber que uma antiga namorada participaria de um festival em Roterdã, zarpou para a Holanda porque precisava acertas algumas contas. “Eu a encontrei depois de três anos afastados, foi estranho. Ela empalideceu quando me viu. Estava com um namorado novo. Sentamos os três num café e ela me perguntou o que eu fazia ali. Disse que queria pedir desculpas por todas as pisadas de bola do passado. Falei em espanhol, para o namorado dela entender. No final, o cara estava me consolando... Não sei se vale a pena contar essa história.”

Na Macedônia, fez um pacto etílico com mais dois colegas poetas estrangeiros. Completamente ébrios, roubaram um barco à noite, no píer da cidade, com planos de cruzar o lago Ocride e chegar à Albânia antes do amanhecer. A algazarra era tanta que a desventura terminou com a guarda costeira conduzindo-os ao distrito policial onde puderam aguardar, tranquilos, por uma poderosa ressaca no dia seguinte.

Muitas personalidades e vivências cabem num corpo só, e Márcio-André publicou, em 2015, Poemas Apócrifos de Paul Valery. O entusiasta da poesia modernista francesa contenha-se. Foi o próprio Márcio-André quem criou os poemas rodeados de rara erudição, em francês, que ele mesmo “traduziu”. De quebra, escreveu um longo prefácio que explica ao leitor como lhe chegara às mãos um pacote de poemas inéditos de Valery e como conduziu a tradução. “Tive a ideia do livro quando conheci a neta do Valery em um festival na França. Comecei a pensar como seria se o poeta tivesse deixado algum trabalho inédito. Ao mesmo tempo pensei como ele era pouco estudado, de fato, mesmo sendo figurinha fácil nas pós-graduações. Resolvi trollar a “intelligentsia” universitária e escrevi os poemas. Quem iria desmentir?” O artista ficcionalizou a si mesmo ao ficcionalizar a História da Literatura.

A experiência quase lhe valeu um Jabuti na categoria Poesia e lhe deu munição para escrever o romance Leonardo contra Paris, em 2016. Nele, Leonardo Pontevedra é um escritor oportunista que, ao se ver abandonado pela noiva famosa, isola-se na Baixada Fluminense, onde ninguém o conhece e passa a usar as redes sociais para disseminar a notícia de que está lecionando na Sorbonne. A mentira toma dimensões tais que a própria Universidade passa a oferecer, em seu site o curso de Literatura do famoso escritor brasileiro.

Agora, Márcio-André prefere assinar Sousa Haz. Diz que é mais sonoro e o distingue, quando pronunciado em Húngaro. Após fazer assistência de produção e figuração em Blade Runner 2049 nas filmagens em Budapeste e colher os frutos de seu terceiro curta-metragem, The Last Time I Saw Francis Taylor He Was in Slow Motion, que ganhou mais de 12 prêmios em 2016, Souza Haz foi visitar Poe.

Verdade que o começo no cinema nem sempre é um idílio. Sousa Haz atuou na indústria pornográfica, em seus primeiros lances de dados no metiê. "Dirigi duzentos filmes de sacanagem para uma empresa holandesa, ao ritmo de três por dia. Ganhei experiência de set”. 

Voltando a Man in the Crowd, o cineasta traz, do conto original, o homem desprovido de uma alma na metrópole, em que todos se acotovelam solitários. “O conto do Poe me encantou pela forma como ele mostra a cidade. Um labirinto cíclico, infinito e que nunca para de se mover. Budapeste tem o clima perfeito para ambientar a trama. É cheia de glamour e decadência. Uma hora parece Paris, outra Madureira. Essa sensação de uma cidade feita de memórias esquecidas. Gosto desse personagem moderno e intelectual do Poe, sentado no café se opondo à visceralidade animal do homem que ele decide seguir. É assim que vejo a cidade moderna: uma grande camada de desejos reprimidos soterrada sob um fino verniz de civilização”.

O filme é um aquário cosmopolita com direito a peixes reais cruzando a cena de um típico café. O espectador consegue identificar, no filme, a maneira como seu diretor capta pela câmera as lacunas da pós-modernidade, o vazio que aumenta à medida que nos rodeamos de mais pessoas, o zero das veias que é comum a qualquer nacionalidade.

Márcio-André de Sousa Haz agora vai se dedicar exclusivamente ao cinema e já está rodando mais um trabalho. “O cinema é meu sonho desde que eu tenho sete anos. Eu escondi esse sonho de mim mesmo durante muitos anos, por medo, frustração e principalmente falta de oportunidade. Pegar na câmera foi como provar um vício pela primeira vez. Resolvi sair do armário e assumir o cineasta. Em Budapeste estão sendo filmadas parte das grandes produções hollywoodianas de hoje. Já trabalhei em Inferno, Atomic Blonde e o novo Robin Hood. Com isso consegui ter contato com gente da indústria, que ajudou nos meus filmes. Com a idade que tenho resolvi correr atrás do tempo perdido, por isso abandonei a literatura para me dedicar exclusivamente aos meus filmes”. Seu quinto filme é mantido em segredo, mas podemos antever o resultado, caso continue a imprimir em sua obra tudo aquilo que traz de uma vida dedicada a ser experimental.

*Donny Correia, poeta e ensaísta, é mestre e doutorando em Estética e História da Arte pela USP. Autor de, entre outros, 'Corpocárcere' e 'Zero nas Veias' 

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