A vida real por R$ 1

Ela compra histórias de transeuntes do Largo da Carioca, centro do Rio, para um livro e um filme

Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2009 | 22h37

"Posso contar a minha história? A minha é fresquinha, fresquinha, como se tivesse arrancada do pé. Minha história é de uma lição de vida que eu tive. Pelo seguinte: às vezes as pessoas pensam que a gente tem amigo, mas não é verdade. Eu conheci uma pessoa desde pequena, cresci quase com ela. Essa pessoa se chegou na minha casa, se fazendo de minha amiga, ia lá na minha casa, comia, fazia minha unha até (...) Aí o que que acontece, eu vi meu marido ficando diferente comigo e eu não sabia por quê. Pra mim, a serpente tava longe, mas tava perto e eu não sabia. E acabei descobrindo agora, no final do ano, que o meu marido se envolveu com essa garota que eu vi crescer."[ ]Entrevistadora: Vai chorar?[/ ]"Ainda não. Já chorei tanto que não tenho nem mais lágrima. Então aquilo me abalou demais, entendeu, aquilo afetou meu casamento de nove anos, afetou minha filha que sentiu." (Luciane Xavier Gonçalves, de 34 anos)...Munida de um pequeno gravador digital e de uma placa branca onde se lê em azul "Conte uma história e ganhe 1 real", a roteirista baiana Manuela Dias, de 31 anos, está no Largo da Carioca, um dos pontos mais movimentados do centro do Rio, atrás de histórias de gente simples. Gente como Luciane que, em troca de uma moeda, revela parte de sua vida a uma completa estranha. Manuela já foi, no último ano e meio, 27 vezes para as ruas em busca dos depoimentos que pretende transformar em livro. Em cada encontro, ouve em média dez pessoas, mas já chegou a coletar 15 histórias num só dia. Manuela diz que pensou no projeto ao perceber quanto a humanidade se achata no cumprimento dos afazeres diários. Por isso, diz, o trabalho "quer trazer um relevo para o cotidiano, desaplainar o terreno". Para ela, não interessa muito se a história é invenção, embora a sensibilidade lhe diga que são mesmo verdadeiros os dramas relatados. Dramas porque o que mais lhe chama a atenção é a força das experiências ruins. "A frase que mais escuto é ?minha história é muito triste e muito longa?", conta Manuela, que também se surpreende com a capacidade dessas mesmas pessoas de rirem da própria desgraça."Eu apanhava do meu marido, é mole? (ri) Ele era muito ciumento. Saía com ele na rua e, minha filha, só podia olhar pra frente. Não podia olhar pro lado, porque se olhasse pro lado, toma-lhe porrada. Teve um dia que o pai dele tava no quintal, acordei de manhã cedinho, né?, que minha filha acordava de manhã cedinho, aí eu saí pro quintal. Aí ele acordou me chamando, eu não escutei. Quando ele saiu na porta, tava eu e meu sogro conversando, ele me chamou pra dentro de casa e me meteu-lhe a porrada. Eu separei quatro vezes dele, em uma delas dei queixa. E voltei quatro vezes."Entrevistadora: Por que você voltava para ele? "Porque o amor é cego, o amor é lindo (todos em volta riem)? Porque eu gostava muito dele. Aí nisso dei queixa dele na polícia, tal, mas? Ele foi lá e deu queixa de mim também, que eu agredi ele. Joguei água quente nele porque ele me bateu muito (ri bastante). Aí eu fui lá, a água tava fervendo porque eu ia fazer um chá pra minha filha, que ela tava com cólica, aí ele pegou, me bateu, eu peguei a água quente e joguei nele. Caiu até na mãe dele, por acaso, sem querer." (Márcia Teles de Andrade, de 20 anos)...Manuela não aborda as pessoas, são elas que se aproximam. Mas quando alguém esboça a vontade de falar alguma coisa ela dá um sorriso cativante e aponta para a placa, como que estivesse convidando o personagem a se abrir. Tem gente que chega decidido. Lê a placa de longe e parte com firmeza em direção à entrevistadora. Foi assim com a primeira pessoa ouvida por Manuela no dia em que o Estado a acompanhou.Eram 13h17 de uma quarta-feira. O funcionário público, que se identificou apenas como Henrique, começou falando sobre as mazelas do País. "Vivemos em um país ridículo de semianalfabetos, saímos de uma ditadura militar para uma ditadura econômica (...) Por culpa do nosso Hino Nacional vivemos eternamente deitados em berço esplêndido." Manuela não gosta de perguntar muitas coisas, mas de estimular que a pessoa se abra, que se exponha. Como Henrique começou falando sobre política, muito impessoal, ela quis saber se ele era casado e perguntou como era criar um filho no país de tantas mazelas. Com cuidado, ela fez com que ele lhe contasse que é carioca, tem uma mulher que o "atura há 31 anos" e uma filha de 29 anos, nutricionista formada "com sacrifício e suor", que ele gosta muito de literatura, de "Dostoievski, de Machado de Assis e de um escritor que não é muito falado, mas muito bom, o Josué Montello". E diz ainda, com alguma tristeza, que a filha não "pegou gosto pela leitura". Gosta mesmo é de funk. A maior parte dos testemunhos é dada por homens de classes média baixa e baixa, muitos nascidos fora do Rio. "Os mais abastados têm vergonha de se expor", afirma. A maioria dos que param para conversar não está em busca do R$ 1, mas ela sabe que a moeda que entrega para cumprir sua parte do trato faz diferença para os pobres. Márcia Teles de Andrade, que apanhava do marido, ganha R$ 60 por semana, mais R$ 7,40 por dia da passagem para entregar panfletos. Como mora em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e gasta R$ 9 diariamente, disse que ia usar o R$ 1 para inteirar a passagem. A coleta de depoimentos é uma pescaria. Às vezes, demora bastante para que a primeira pessoa aceite conversar com ela. Nunca aconteceu, no entanto, de ninguém querer falar. Os relatos duram de cinco a dez minutos em média. Mas já teve gente que falou por 40 minutos sem parar. Com jeitinho, Manuela tira o que quer das pessoas."Eu tinha 10 anos. Aí minha mãe falou que não era pra eu sair pro baile, e eu adorava um baile. Aí eu comecei a se misturar, ir pra baile mesmo, não ligava nem pro que minha mãe falava. Aí eu fui conhecendo as meninas, aí acabou que eu virei homossexual. Aí minha mãe continuou falando, né, aí eu saí de casa, fiquei fora três meses e não dei nem importância pra ela. Depois eu fui vendo como é que era a rua e voltei pra casa. E minha mãe falando no meu ouvido ainda. Agora não tem nada mais disso, ela aceita, tá tudo bom, é uma boa, eu trabalho, vivo minha vida, não ligo pro que os outros falam, e tô indo (...) Já passei por poucas e boas. Já quase que eu morri no meio da rua. Teve um assalto, eu passei perto, e aí foi tiro pra lá, tiro pra cá, nunca mais eu quis ficar na rua. Foi esse o dia que eu voltei pra casa. Até o travesti ali na Central queria cortar minha cara, menina? Acho que ele pensou que eu queria tomar os pontos dele. Aí eu falei assim: ?Ah, querida, eu não quero tomar seu ponto?, até porque eu não vendo meu corpo. Aí ele falou ?viadinho?, eu falei ?viadinho é você, que tá vendendo seu corpo pra arrumar dinheiro. Eu trabalho, não fico vendendo meu corpo por aí...?" (Paulo Vinícius de Araújo, de 18 anos)...Manuela coleta os depoimentos para um livro que pretende ser um inventário do que chama de "malha de memórias" e, com isso, acha que é possível ajudar a mudar o jeito que as pessoas olham para a "massa". Diz ser fascinada pelos conflitos humanos e pelo dilema entre o anonimato e o reconhecimento. Para ela, as pessoas são protagonistas, embora sejam tratadas como figurantes. "Quando me contam a história deles, sentem-se relevantes." Duas coisas que lhe chamaram a atenção são a capacidade de performance do brasileiro e a prosódia de cada um. Os personagens revivem o que estão contando, dramatizam a história, atuam, enfatizam, fazem caras, bocas e interjeições. Para ela, o sotaque e as expressões escolhidas fazem parte da história. Ela formou-se em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia. Depois cursou cinema na Estácio de Sá, no Rio. Foi atriz até os 18 anos, quando descobriu que queria mesmo era escrever roteiro. Hoje trabalha para a Rede Globo - já participou da equipe da novelinha Sandy e Jr. e do programa Faça sua História. Agora integra o grupo que escreve o seriado Aline. Manuela também escreve peças e filmes em várias parcerias. Parte dos áudios que ela tem gravado vão ser usados no filme Transeunte, de Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha, e contam a história de um anônimo morador do centro do Rio."O projeto da Manuela tem tudo a ver com o projeto do filme, que vai ser uma desfronteirização entre a ficção e o documentário", conta Eryk. A roteirista, no filme, vira personagem e aparece em uma cena, com a placa branca de letras azuis. Os depoimentos vão ser incluídos em off e são eles, segundo o cineasta, que trazem vida ao filme. Transeunte deve ficar pronto em dezembro, prazo em que ela quer ter selecionado os relatos do livro. Até lá, espera ter conseguido uma editora para publicá-lo. Ao longo do ano, Manuela planeja voltar muitas vezes ao centro para coletar novas histórias, tanto para o livro, quanto para o filme. Mas não aguenta ouvir as pessoas por mais de três horas. "As histórias são fortes, abalam nossa estrutura emocional. A gente começa a olhar para as pessoas na rua de forma diferente. Ando por aí olhando para todo mundo e imaginando que história aquela pessoa me contaria." "Eu começo, né? Tá. Meu nome é Sérgio Luiz Celso da Silva. Artisticamente, eu me chamo Sérgio Luz. Eu sou cantor, compositor, instrumentista, arranjador, poeta, escritor, artista plástico? Sou espírita, e? Vim ao Rio de Janeiro direto de São Paulo. (...) Vim aqui tentar a música, tentar, só assim nos fetiches, mas a gente chega aqui com outra realidade chocante, né, pra nossa vida. E aí eu tô trabalhando de galho em galho, sabe? Fico num beco aqui, outro ali, dou uma canja num bar? Cheguei com um violão, tive que vender? Fico aí pela casa de amigos, às vezes não, às vezes tô na rua, durmo aqui, ali. Só que a gente vai crescendo. Penso muito em voltar pra Bahia, fico louco de vontade. E gosto de encontrar artista, assim, sabe, como você, de atitude, só precisa de atitude, né? Porque isso é correria, cara. Tá com seu projeto? que eu espero que dê certo." (Sérgio Luiz Celso da Silva, de 31 anos)

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