Lily Radziemski/The Washington Post
Lily Radziemski/The Washington Post

A vila francesa onde o pintor Marc Chagall encontrou inspiração

Saint-Paul de Vence parece uma pintura e alguns dos mais renomados artistas do século 20 concordariam

Lily Radziemski, Especial para The Washington Post

07 de outubro de 2021 | 10h00

Nas colinas do sul da França, a estrada estreita vai subindo por entre as árvores ondulantes contra o pano de fundo do Mediterrâneo. Parece que vai chegar ao céu. Dá voltas e mais voltas, roçando nas flores silvestres e nos longos galhos que transbordam pelas calçadas. A cada poucos segundos, pelos espaços vazios que as folhas deixam, o vislumbre de uma cidade murada começa a se revelar, cada vez mais perto, até que... lá está Saint-Paul de Vence, dominando a paisagem, mergulhada na luz da Riviera. Parece uma pintura. Alguns dos artistas mais renomados do século 20 tiveram a mesma impressão.

Anos atrás, numa viagem a Nice, uma amiga francesa se ofereceu para me levar a Saint-Paul de Vence, lugar que ela tinha visitado ao longo de alguns verões na infância. Relutei em concordar – porque estava bem confortável curtindo uma ressaca na praia – mas, uma hora depois, sem saber nada sobre a vila, me peguei arrebatada diante da lápide de Marc Chagall, o lendário artista franco-belarusso que havia tanto muito admirava.

Pula para agosto deste ano, quando, por um prodigioso presente do universo, acabei no sul do país e logo parti em missão para Saint-Paul de Vence.

Depois de chegar lá – e vê-la despertar do Le Café de la Place, café expresso duplo e um croissant, por favor – Marine Rostagni, a guia que faz o passeio “Seguindo os passos de Marc Chagall”, e eu nos encontramos para dar uma volta a pé.

Caminhamos morro acima pelo Chemin Sainte-Claire – a trilha, ela diz, que Chagall gostava de percorrer entre sua casa e a aldeia. A silhueta de Saint-Paul de Vence, sua parede de pedra envolvendo construções centenárias, brilhava à distância sob o sol do meio da manhã.

Ela explicou que, no século 20, a Côte d’Azur e seus arredores eram um paraíso para artistas como Jacques Prévert, Pablo Picasso e muitos outros. Mas isso não aconteceu por coincidência. A luz especial – um véu macio e dourado que cobre a paisagem – atraiu os pintores com uma força quase magnética. E, em 1920, Paul Roux e sua esposa, Baptistine, ambos aficionados por arte, abriram La Colombe d’Or, uma pousada que ainda hoje existe e funciona como hotel e restaurante. O lugar se tornou uma espécie de refúgio e ponto de encontro de artistas e escritores, entre eles James Baldwin.

Chagall nasceu em 1887 em Vitebsk, no que então era a Rússia e hoje é Belarus. Quando ele se mudou para Paris, em 1911, suas pinturas – que muitas vezes exibiam tons escuros e opacos – evoluíram drasticamente, explodindo em esmeraldas brilhantes e azuis inspiradas na Cidade Luz. Nas décadas seguintes, acrobatas, amantes e animais dançariam nas telas de Chagall, flutuando em nuvens de azul pintado a óleo.

Na sua vida atrás da tela, Chagall estava sempre em movimento – impulsionado primeiro por sua arte e, depois, pela guerra. Deixou a Rússia para sempre na década de 1920 e mais tarde fugiu para os Estados Unidos quando a França caiu nas mãos dos nazistas.

Por volta de 1950, após visitas frequentes à villa da famosa editora grega Tériade na Riviera, Chagall comprou uma casa em Vence e se estabeleceu definitivamente no sul. Logo em seguida conheceu Valentina “Vava” Brodsky, a russa que viria a se tornar sua segunda esposa.

Depois do almoço no La Colombe d’Or, parti para me encontrar com Isabelle Maeght. Olhando pelas janelas de seu escritório todo iluminado na Fondation Maeght, com vista para a costa azul-escura e as copas das árvores exuberantes, ela se lembra bem desse período. Tem cabelos claros e lustrosos, usa delineador de olhos cor de cobalto, um leve cheiro de fumaça de cigarro paira no ar, é o maço de Marlboro Reds ao lado de uma xícara vazia de café expresso.

Ela diz que Chagall “era da família” e todos os domingos vinha almoçar na sua casa, sempre na companhia de Vava, “uma esposa de artista, acima de tudo”. Era um homem muito simpático, ela diz, apesar do hábito que tinha de beliscar suas bochechas.

A Fondation Maeght, criada por seus avós em 1964, está localizada na outra extremidade do Chemin Sainte-Claire. A fundação de arte é cercada por um jardim que abriga esculturas de artistas como Joan Miró e Alexander Calder, amigos próximos da família. Para a inauguração, Chagall doou o quadro ‘La Vie’, uma homenagem à vida e aos sonhos do artista com dançarinos, músicos e acrobatas, que ainda está pendurado em suas paredes. E um de seus primeiros mosaicos, ‘Les Amoureux’, que se encontra diante da livraria da fundação, é um retrato dos avós de Maeght.

Refletindo sobre Chagall, Maeght – com uma fala pausada e casual – descreve como “ele era um homem muito simples na sua vida diária e pintava com uma força formidável”.

“Ele era bastante jovial. Mas, ao mesmo tempo, viveu algumas coisas que foram muito difíceis na infância, e às vezes essas coisas voltavam. Ele falava sobre a fuga da Rússia, falava sobre tudo isso com um tom de voz muito grave. E dez minutos depois, já estava dando suas gigantescas gargalhadas”, acrescentou ela.

Em 1966, Chagall se mudou de Vence para Saint-Paul de Vence. O arquiteto André Svetchine construiu sua casa nova, a chamada La Colline, algumas centenas de metros de estrada acima da fundação.

Meret Meyer, a neta de Chagall, se recorda das visitas frequentes à aldeia, da forte estrutura de pedra que sustentava a casa e de seu estúdio imenso e luminoso. Mas ele não era o tipo de avô que riscava a agenda para levar os netos para tomar sorvete, por exemplo. Ela se lembra que os dias do pintor eram regidos pelo processo artístico, com netos presentes ou não.

“Ele não era de ir à praia ou ficar passeando para cima e para baixo [no vilarejo]”, disse ela ao telefone, depois que eu voltei a Paris. “Era um artista muito trabalhador, levantava sempre à mesma hora, muito cedo, e passava a maior parte do dia no estúdio até às oito ou nove da noite, por aí. Então, os dias, independentemente de nós, eram sempre os mesmos. Ele era trabalhador e muito disciplinado, extremamente disciplinado”.

Um dos projetos que Chagall concluiu no sul foi ‘Mensagem Bíblica’, uma série de pinturas originalmente concebidas para uma capela de Vence. No entanto, com o passar do tempo, ficou claro que as pinturas iriam para outro lugar: o Museu Nacional Marc Chagall de Nice, inaugurado em 1973, em seu 86º aniversário.

O museu foi construído para dar a sensação de que é uma casa, todo rodeado por um jardim em verde, branco e azul – a cor de Chagall (ele costumava dizer “Je suis bleu”) –e para deixar as pinturas coloridas brilhar em seu interior.

No espaço de exposição, amarelos vibrantes e saturados se destacam nas paredes brancas e a luz natural entra pelas janelas. Vemos deuses, anjos e casais flutuando no céu, além de um buquê tão deslumbrante que Anne Dopffer, a diretora do museu, o descreveu para mim como algo quase psicodélico. A sala dos fundos contém a série carmesim “Cântico dos Cânticos”, dedicada a Vava, onde os amantes flutuam e voam em tons de rosa suave e vermelho profundo.

Dopffer conta que Chagall esteve extremamente envolvido na criação do museu e que ele mesmo decidiu quais peças seriam exibidas e onde seriam colocadas. Desde então, nada mudou. As molduras, porém, precisaram ser trocadas.

“Ele gostava de molduras muito simples, mas geralmente elas eram pregadas na pintura”, disse Dopffer, apontando para a borda direita de ‘Adam et Eve Chassés du Paradis Terrestre’. “Então trocamos as molduras, porque é melhor para a conservação da obra”. As marcas dos pregos ainda estão visíveis.

Chagall trabalhou até o último dia de vida, 28 de março de 1985, quando morreu de ataque cardíaco em sua casa. Ele tinha 97 anos de idade.

Meyer diz que, “como ele seguiu trabalhando sem parar, nunca pensou no fim da sua vida. Então ninguém preparou nada”.

O prefeito ofereceu uma vaga para Chagall no cemitério da aldeia, e a família aceitou.

Chagall já era famoso na época de sua morte; Meyer lembra que o funeral atraiu pessoas de toda a região. “Como a aldeia é pequena, você pode imaginar, logo ficamos com a sensação de que está lotada, porque (...) quando aparecem dois carros ou cem pessoas, você já sente que são milhares. Claro que foi um grande acontecimento, sim”, disse ela. Isabelle Maeght também esteve presente.

Chagall se inspirou muito em sua fé judaica, mas estava profundamente conectado ao aspecto espiritual da religião como um todo, acreditando que a Bíblia é a maior fonte da poesia de todos os tempos. Mesmo assim, é curioso encontrá-lo enterrado num cemitério que tem uma cruz na entrada. Mas, de acordo com Meyer, isso não foi uma renúncia à religião judaica.

“É uma escolha, porque ele era um cidadão do mundo”, disse ela. “Ele sempre olhou para o céu e pertence ao céu”.

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Se você for...


Onde ficar

La Colombe d’Or

Place du Général de Gaulle

011-33-4-93-32-80-02

www.la-colombe-dor.com/indexEN.html

Artistas como Joan Miró, Pablo Picasso e Marc Chagall costumavam se encontrar no La Colombe d’Or desde sua inauguração em 1920. Sua piscina tem vista para as colinas que cercam Saint-Paul de Vence. As reservas devem ser feitas por telefone ou por e-mail. Os quartos variam de cerca de US $ 290 a cerca de US $ 500 por noite, dependendo da época do ano.


Onde comer

Le Café de la Place

Place du Général de Gaulle

011-33-4-93-32-80-03

bit.ly/Le-Cafe-de-la-Place

Desfrute de uma bebida ou um lanche no casual Café de la Place, outro refúgio predileto de Chagall, com vista para o mercado local e jogadores de pétanque. Os croissants são crocantes, amanteigados e frescos.


Café Timothé

4 Rue du Bresc

011-33-4-89-15-70-74

cafetimothe.com

Escondido numa rua lateral da Rue Grande, atrás de camadas e camadas de plantas e flores, o Café Timothé serve refeições orgânicas de ingredientes locais e coquetéis criativos. Experimente o prosecco com uma pitada de xarope de lavanda e gengibre caseiro.


O que fazer

“Seguindo os passos de Marc Chagall”

Posto de Turismo

2 Rue Grande

011-33-4-93-32-86-95

bit.ly/Footsteps-Marc-Chagall

Faça um passeio a pé pela vila para aprender mais sobre a vida de Chagall em Saint-Paul de Vence, muitas vezes tendo como pano de fundo locais onde o artista costumava pintar. Prepare-se para subir e descer colinas. Passeios cerca de US $ 8 por pessoa; passeios privados com mínimo de duas pessoas por cerca de US $ 16 por pessoa.


Fondation Maeght

623, Chemin des Gardettes

011-33-4-93-32-81-63

fondation-maeght.com

Vá caminhando da vila pelo Chemin Sainte-Claire, ou pegue um ônibus gratuito na estação de correios no começo do Chemin, que vai e volta continuamente ao longo do dia. Visitas das 10h00 às 19h00 em julho e agosto e até às 18h00 durante o resto do ano.


Informações

saint-pauldevence.com/en

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