A vingança será maligna

Notifique-se que, em se tratando de Abadía, não se descarta um exu encarnado num paletó

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 22h11

Abadía, meu velho, você está aí trancafiado e por isso não posso deixar de mandar notícia aqui de fora: essa semana o negócio foi sinistro. Aquele juiz lá que lhe condenou, o doutor Fausto, mandou vender num bazar beneficente os seus pertences pessoais. Uma tranqueira danada, né, velho? Bíblia com panela de cozinha, abajur com tapete de banheiro, cueca, forno elétrico, árvore de Natal, fruteira de inox, roupão de banho, Papai Noel, duende, fronha de travesseiro, aspirador de pó, jogo americano, carrinho de chá, ferro de passar roupa, ralador de queijo, jaqueta de antílope. Carajo, meu irmão, o que apareceu de gente... Cinco mil pessoas! No bazar do Abadía, tinha gente saindo pelo ladrão. Foi na terça-feira passada. Todo o mundo se espremendo na porta do Jockey Club, aqui em São Paulo, as maria desmaiando, a polícia jogando gás de pimenta. Esse povo parecia urubu na carniça. Um sujeito levou de uma só vez duas botinas, três jaquetas, dois tênis, uma boina - e saiu lá de dentro vestido com os bagulho todo, meu irmão! "Agora tudo que era do Abadía é meu", garganteou ele, revirando um saco plástico com sapato da Gucci, uns bichos de pelúcia e uns frascos de perfume. Meu comparsa Abadía, eu tenho um amigo que não compra roupa em brechó. Ele tem medo de adquirir algum encosto, um espírito agregado na camisa, um Exu encarnado no paletó. De modo que é bom notificar esses vampiro brasileiro que você é acusado de matar 300 na Colômbia e 15 nos Estados Unidos. A vingança será maligna.Meu caro Juan Carlos Ramírez, você veio esconder sua égua no Brasil, agora agüenta: este país é uma comédia. Não bastasse o Bazar do Abadía, esse nome popular (e de fato muito sonoro) que se tornou praticamente uma grife, o símbolo da semana foi a sua cueca - a Cueca do Abadía. Vendida a R$ 1, o pessoal caiu de boca. Levaram todas rapidamente. As pessoas saíam do Jockey com a sua cueca como se fosse um troféu. Para elas a vingança será moleza, o tempo se encarrega. Agora, o impressionante é a quantidade de cueca que você tinha. Carajo, meu velho, você as utilizava como fraldas descartáveis? Fui atrás do inventário de seus bens e lá constam 133 peças apreendidas! Entendi a jogada: ao mesmo tempo em que lavava dinheiro, você se eximia da tarefa com relação às cuecas.Não pude deixar de correr o olho pelo resto do inventário, que permanecia sob sigilo da Justiça, mas tornou-se público essa semana. Abadía, meu camarada, você era proprietário de 285 camisas pólo, além de 188 das comuns! Possuía exatamente 131 bonés, 5 toucas e dois gorros. Tinha 152 livros, incluindo três Bíblias. Mas você gostava mesmo era de ver um DVD: em sua coleção contavam 1.282 filmes, fora "1 DVD George Foreman", curiosamente o único a ter o título discriminado na lista da Justiça. Pela aferição dos números, imagino-o de cueca na frente da televisão - você era dono de 33 aparelhos televisores e 23 players de DVDs. Deve ser porque você quase não saía de casa, já que estava escondido. Mas por que diabos, então, meu bom Abadía, você guardava no armário 207 pares de sapatos, além de 2 avulsos, 1 chuteira e 2 palmilhas? Por que apenas sete chinelos?Há outros mistérios, meu caro: constam de seu inventário "1 Superman", "1 Batman", "1 boneco torcedor", "1 cachorro elétrico", "1 moto do Batman", "1 bicicleta do Super-homem". Há também "1 cascata de bambu" e "1 aparelho detector de dinheiro". Yá a Yessica, sua concubina, achei ela muito comedida: possuía apenas 102 sandálias, 55 colares, 42 pares de brincos, 58 pulseiras, 34 elásticos de cabelo e 28 piranhas. Coitada, meu velho... Também, gastava tudo em produtos da Hello Kitty - contei 41 itens, incluindo uma geladeira. Coitada da Yessica, né, meu velho, eu li o que ela falou para o doutor Fausto: "Justificou que em seu país de origem as mulheres ostentam uma relação de subserviência e não interferem nas questões de seus cônjuges, daí é que, não obstante Juan Carlos Ramírez Abadía tenha alegado que sua saída da Colômbia decorreria de problemas lá enfrentados, não ousara questionar tais fatos ou mesmo sua vida pretérita". A Renilda não falou a mesma coisa? Qual a diferença? Só porque você fez 78 plásticas? E o Marcos Valério, que agora tem cabelo? Parece que o Brasil só tem preconceito com traficante de drogas. É por isso que você pegou 30 anos de reclusão e a Yessica, que estava ali apenas cuidando da casa (a de Angra, a do Jurerê, a de Guaíba, a de Pouso Alegre, a de Aldeia Grande), foi condenada a 11 anos.Meu caro, o Bazar do Abadía rendeu R$ 200 mil. Não se sinta diminuído - a pechincha era destinada ao populacho, para quem pimenta no olho é refresco e Abadía é um herói. No dia seguinte, meu velho, aí sim você ia ter orgulho da sua própria pessoa. Refiro-me ao Leilão do Abadía, organizado na quarta-feira, também no Jockey Club de São Paulo. Só gente da alta, emergentes de São Bernardo e do Tatuapé, todo o mundo bem alimentado, o empresariado de blazer e suas senhouras. Apenas o show do Roberto Carlos, ali perto, competia com o grande leilão. Mas como a minha dose semanal de povo já tinha se esgotado no bazar, optei acertadamente por conferir o arremate de seus relógios, televisores, carros antigos e bicicletas de competição. Logo na entrada, uma funcionária me avisa que os produtos não têm nenhuma garantia, "até porque não sei se eles confiscaram as notas fiscais e os manuais de instrução". La garantia soy yo! Quer dizer, é usted, né, velho. Assim que comecei a sorver o champanhe rosé que era servido ao público, comecei também a me animar. Depois migrei para o Red Label. E uns canudos de presunto - as coisas mudam, camarada Abadía. A essa altura, ainda em dúvida entre permanecer no Red ou migrar definitivamente para o prosecco, já me encontrava decido a sair dali com sua Rural Willys 1961. Mas Abadía, seu chicanão, você pegou a velha Rural e meteu rodas de liga leve, refez todo o interior, transformando-a num Corolla Fielder. Pôs duas telas para DVD, uma dúzia de caixas de som, vidro elétrico, motor de Ranger, freio a disco, cinto de três pontos e o carajo a quatro. Não se faz isso com uma Rural Willys, seu traficante de porta de escola! Você tirou toda a originalidade dela. Não vale nem R$ 10 mil... No grande salão oval, onde normalmente se comercializam cavalos, o leiloeiro vai dar início aos trabalhos. Antes, porém, quem adentra o ambiente é um grupo de 16 jovens trovadores, o qual imediatamente nos remete ao bloco que, no sábado de carnaval, vem de encontro ao "Simpatia É quase Amor" na praia de Ipanema - o "Que Merda É essa?". São crianças absolutamente inadequadas na festa do Abadía. Arranham constrangedoramente a viola: "As flores de plástico não morrem...". A música dos Titãs terá sido uma referência às flores plastificadas constantes de seu inventário, Abadía, no lote 120? Quando elas vão embora ninguém bate palma porque todo o mundo está segurando o copo de uísque. Vem afinal o leiloeiro: "Esqueçam de onde vieram os produtos!" O quê? O leiloeiro quer que todo o mundo vá embora? "Vamos começar pela Rural!" Um sujeito dá R$ 7 mil. Um outro, R$ 8 mil. R$ 10 mil. 12. 15. 17. 19. 20. 25. 28. 35. R$ 37 mil! Abadía, meu camarada, você não escondeu nada nos bancos daquela Rural, escondeu?Recolhi-me ao último andar da arquibancada de madeira. Entornando meu Red Label, elocubrava sobre os caminhos tortuosos por onde passara você, intrépido Abadía, com suas bicicletas profissionais. Por quantas Lucianas Gimenez terá Yessica zapeado antes que seu televisor estivesse ali embaixo, como num ringue de telecatch? O desfile dos relógios, um a um, já havia começado. "Este Cartier tem grande valor agregado", empurra o leiloeiro. Valor agregado nada, tem é cocaína agregada. Abadía, meu velho, você tinha muito relógio - 80. Foram eles os responsáveis pela ressaca que prematuramente se abateu sobre mim e metade do público. Ninguém agüenta desfile tão modorrento, um a um aqueles relógios de pulso sendo apresentados e arrematados. Para nos retirar do sono pulsante, o leiloeiro tem uma novidade: quatro caixas de vinho do Porto. Não me constava, velho Abadía, ser você um apreciador desta encorpada beberagem. Mas tudo se explica: "Pertence, senhores, a outro criminoso!" Opa, como é que é? Tipo facas Ginzu? Comprando um Abadía você leva também um Fernandinho Beira-Mar? "Edemar Cid Ferreira! Vamos agradecer à Justiça por essa oportunidade!" Um brinde ao Edemar!Foi graças a esse Edemar que a coisa se reanimou, permitindo que um relógio Bvlgari fosse arrematado por R$ 97 mil, a melhor oferta da noite. Tenho certeza que você vai me perguntar sobre aquele Breguet. Ele tinha lance mínimo de R$ 120 mil - o mais caro. Sabemos a pechincha que é. Mas o Breguet encalhou, meu caro Abadía. Vampiro brasileiro... Deixou o Breguet encalhar. Bom, é isso aí, velhinho, fique em paz, 30 anos não é nada. E sobre esses urubu aí, é aquela coisa: o que vem fácil vai fácil. Você sabe disso. A GARANTIA SOY YO"Não sei se confiscaram as notas fiscais e os manuais de instrução" BANQUEIRO PENETRA"Os vinhos, senhores, pertencem a outro criminoso: Edemar Cid Ferreira"MISTÉRIOS DA LISTA"1 Superman, 1 Batman, 1 boneco torcedor, 1 moto do Batman, 1 cachorro elétrico"

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