The New York Times
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A volta de A.S. Byatt em ritmo de conto de fada

'Medusa’s Ankles: Selected Stories'. reúne contos escritos entre 1982 e 2013, sendo o mais longo “The Djinn in the Nightingale’s Eye”

Dwight Garner, The New York Times

25 de novembro de 2021 | 20h00

Nos anos que se passaram desde Possession (1990), seu romance best-seller e ganhador do Booker Prize, a ficção de A.S. Byatt ficou cada vez mais ornamentada, coberta de mito e fantasia, incrustada de referências literárias e sem humor. Todas as minhas coisas menos favoritas na ficção, concentradas num só lugar.

Byatt lançou um livro este mês, Medusa’s Ankles: Selected Stories. Fazia tempo que eu não a lia, então resolvi encarar. Com certeza está na hora de olhá-la com outros olhos. Olhos límpidos, coração aberto, vamos nessa.

Essas histórias neo-jamesianas foram escritas ao longo de três décadas. A primeira apareceu em 1982; a última, em 2013. Quase todas encontraram bons lares. Três foram publicadas na New Yorker. A mais longa, The Djinn in the Nightingale’s Eye” – com quase cem páginas, é praticamente uma novela – saiu na Paris Review.

Ao lado de escritores tão variados quanto Italo Calvino, Angela Carter, Donald Barthelme, Salman Rushdie e, mais recentemente, Karen Russell, Byatt tem sido uma lúcida defensora da ideia de explorar as profundezas dos contos de fadas, de sondar as histórias mais primitivas em busca de ressonância.

Numa entrevista para a Paris Review em 2001, Byatt comentou: “Vivi um maravilhoso momento de libertação quando percebi que poderia escrever contos que surgiam do meu amor infantil por mitos e contos de fadas, em vez daquele senso zeloso de ‘preciso escrever sobre o jovem provinciano que vem de Sheffield e não consegue lidar com a aristocracia de Londres’. Qualquer pessoa prefere escrever sobre uma princesa que tinha de viver na neve”.

É um parágrafo impressionante, embora um espantalho (de Sheffield?) continue caminhando ao lado da princesa gelada. O estranho é que a ficção de Byatt ficou menos convincente que seus argumentos.

Ela é menos destemida que Carter, que certa vez começou um conto dizendo: “Meu pai me perdeu para a Besta no baralho”. É menos brincalhona que o minimalista Barthelme e menos filosófica que Iris Murdoch. Parece, na maioria das vezes, escrever com pena de pássaro, debaixo de um lustre de vidro todo trabalhado.

“Todas as histórias inglesas se atolam na questão de saber se a mobília é social e esteticamente aceitável”, escreve Byatt. Não as dela.

Aí entra a história da princesa – seu título é Cold. Essa jovem delicada se casa com um príncipe do deserto que, temendo que ela derreta sob o sol forte, constrói um palácio subterrâneo de vidro retorcido. Um conto intitulado Dragons’ Breath fala sobre enormes criaturas semelhantes a vermes – sombras de Duna – que deslizam montanha abaixo, destruindo as casas, comendo cabras infelizes e sugando lagos inteiros no caminho.

Heavenly Bodies conta a história de uma cantora chamada Lucy Furnix e um magnata chamado Brad Macmamman. Lucy, ou seu avatar, é transformada numa “mulher celeste” e brilhante, com “seios levemente arfantes” e “calças de harém”, que enche o céu noturno. O mundo fica pasmo. Esse tipo de coisa provavelmente vai dar algumas ao casal Grimes e Elon Musk e também à sua terapeuta de relacionamento – pelo menos até Lucy ser dilacerada por corpos celestes mais veneráveis.

The Djinn in the Nightingale’s Eye fala sobre uma mulher de meia-idade, uma “narratologista” chamada Gillian, que esfrega a garrafa de uma loja de antiguidades e, shazam!, encontra um gênio lindo no seu quarto de hotel. O gênio faz imitações de Helmut Kohl e Pato Donald, traz figos frescos e concede seus três desejos.

Seu ato sexual – “Gillian parecia nadar para sempre em seu corpo, feito golfinhos num mar verde sem fim, até se tornar túneis arqueados sob as montanhas que ele perfurava e percorria, cavernas onde ele se deitava todo enrolado como os dragões” – é livre para todas as idades e soa bem quando lido em voz alta sob a música de uma flauta de Pã.

Outras histórias voam um pouco mais perto da Terra, embora raramente você sinta que está lendo sobre seres com os quais deva se importar ou que tenha alguma coisa importante em jogo.

Há muitas histórias dentro das histórias. Se fossem boas, não estariam dentro de uma história diferente. Enquanto lia, muitas vezes olhava para minha esposa do outro lado da sala e fazia aquele novo e brilhante gesto internacional que significa “me tire daqui”.

Um tema humano de fato surge no livro. Byatt é uma escritora perspicaz na hora de falar sobre o envelhecimento, sobre a sensação de que se está desaparecendo do mundo, feito Homer Simpson sumindo dentro daquela cerca viva.

Tanto homens quanto mulheres sentem essa aflição. Jim Harrison a expressou da melhor maneira: “Quando você tiver mais de cinquenta anos, elas” – as mulheres – “vão só olhar por cima da sua cabeça, como se você fosse um zelador”.

O motivo para comprar este livro – bom, para pegá-lo emprestado – é o conto que dá nome à coletânea. Sua história gira em torno de Susannah, uma tradutora no final da meia-idade que ganhou um prêmio e precisa aparecer na televisão. Aí ela vai ao salão para cortar o cabelo e fazer um penteado.

Byatt é excelente na narração de toda essa experiência: a estranheza do cinto e das ancas do dono do salão roçando o rosto de Susannah enquanto se move de um lado para o outro, suas memórias de um antigo cabelo, “comprido, reto e pesado, uma cortina castanha e brilhante” – tudo virou “uma espécie de pelo frisado”.

A melhor frase: “Ela passou a confiar sua desintegração a ele”.

A história fica cada vez melhor. O proprietário inconscientemente começa a insultá-la. Não quer dedicar os melhores anos de sua vida a “deixar as velhinhas suburbanas mais apresentáveis”. Byatt continua aumentando a tensão.

Quando vem a explosão, você vê que valeu a pena esperar: já não sente que está lendo um texto todo melado, escrito em alta dicção, cujo único vigor parece aquela fumacinha que sai das narinas de um touro de desenho animado. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Medusa’s Ankles: Selected Stories

A.S. Byatt

Alfred A. Knopf - 445 páginas - US $28

 

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