A volta do rei zuku

Khumalo 'ressuscitou' e levou milhares às ruas na África do Sul

O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2012 | 03h09

IVAN MARSIGLIA

Um espectro ronda o continente africano. O nome dele é Khulekani 'Mgqumeni' Khumalo, premiado guitarrista e cantor de música popular na África do Sul. O astro de etnia zulu, falecido abruptamente - e, talvez, provisoriamente - em dezembro de 2009, recebeu funerais dignos de um chefe de Estado. Foi velado, no início de 2010, por uma multidão de fãs, autoridades locais e a imprensa sul-africana. Até a semana passada, Khumalo continuava inerte no cemitério de KwaGxobanyawo, vivo apenas na memória e nos corações de seus milhares de fãs.

Ocorre que no último dia 5 o espírito do popstar sul-africano se fez presente como nunca, por assim dizer, na pequena cidade de KwaZulu-Natal. Foi quando, após bater na porta de familiares e de duas de suas viúvas, um homem se apresentou como... Khulekani 'Mgqumeni' Khumalo.

"Sempre estive vivo. Estou um pouco mais magro, mas sou eu", declarou ele, em cima de um jipe militar e usando um alto-falante, para milhares de pessoas que foram ver com os próprios olhos o rei redivivo da canção zulu. Sua rentrée fez um sucesso tal que a polícia teve de usar canhões de água para conter o público.

Embora as imagens do Khumalo original e do genérico, captadas pela rede de TV britânica BBC, revelem discrepâncias maiores que a alegada perda de peso, a fantástica história contada por ele aparentemente colou. Vítima de feitiçaria, o artista teria sido aprisionado numa caverna por zumbis. Lá, nos últimos dois anos, alimentou-se de lama e foi forçado a cantar para o deleite estético dos mortos-vivos.

Assombradas, duas das numerosas ex-esposas do ídolo reconheceram-no como o saudoso falecido. Sua avó materna, Zintombi Mseleku, declarou com olhos cheios d'água: "Não existe possibilidade de estar enganada. É ele mesmo, o meu querido 'Kwarkhe'!" Já uma ex-namorada e parceira de Khumalo nos palcos, a compositora Zehlise Xulu, disse não ter reconhecido naquele estranho o homem que a cantava tão bem.

O que estaria por trás desse mistério? Espalhado por diversos países do sul do continente africano, como a Suazilândia, o Zimbábue, Moçambique e Lesoto, o povo zulu representa hoje cerca de 23% da população da África do Sul. Mesmo com costumes, hábitos e idioma próprio - o isiZulu é uma das onze línguas oficiais faladas no país -, sempre foi um agrupamento humano marcado pela heterogeneidade.

"Os zulus não são propriamente uma etnia, eles inventaram uma etnia. Eram, desde o século 19, guerreiros que incorporavam vencidos, homens e mulheres, no grupo", explica o diplomata, escritor e africanólogo paulistano Alberto da Costa e Silva. Não por acaso, durante a guerra civil que pôs fim ao apartheid, embora grande parte dos zulus fosse partidária do Inkatha, aliado estratégico do governo racista, outros membros da etnia apoiavam o Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela. A religião, no entanto, permanece como elo de identidade. "Eles acreditam na transmigração das almas e na ideia de que todo o mal que nos acontece é causado por feitiçaria", diz Costa e Silva.

Escravos descerebrados. Carregada de significados políticos e culturais, a crença na existência de zumbis já foi relacionada ao passado escravocrata. Zumbis são seres passivos e descerebrados que servem a um senhor que os enfeitiçou e vagam como párias sociais. Bem antes que George Romero praticamente inaugurasse um gênero de cinema nos EUA com A Noite dos Mortos-Vivos (1968), o diretor britânico Jacques Tourneur já havia acertado, com precisão, no tema: no clássico B de horror A Morta-Viva (I Walked with a Zombie, de 1943) o sobrenatural surge em um engenho de açúcar na ilha caribenha de São Sebastião, assolada por banzos e doenças tropicais.

No Haiti, onde supostos zumbis caminham pelas ruas à luz do dia, histórias como a ocorrida na África do Sul essa semana são comuns. Em 1980, um homem surgiu numa vila rural dizendo ser Clairvius Narcisse, cidadão cujo atestado de óbito havia sido assinado no hospital Albert Schweitzer, na cidade de Deschapelles, em 2 de maio de 1962 - igualmente ressuscitado e transformado em zumbi por um feiticeiro.

Mas quando a lenda foge ao controle, homens da lei são chamados a repor a ordem. Para acalmar a histeria que se instalou no país, a polícia sul-africana deteve o ressurreto Khumalo e recolheu amostras para um exame de DNA, cujo resultado não saiu até o fechamento desta edição. Informações preliminares, no entanto, dão conta de que o exame das digitais do dito cujo revelaram não um morto-vivo, mas um impostor: Sibusiso John Gcabashe, de 28 anos, que pode ser processado por fraude. Um horror.

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