A voz dos aterrorizados

Coletivo de economistas dissidentes levanta-se contra soluções impostas para a crise pelos mandachuvas do sistema financeiro

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2012 | 03h10

Seriam os economistas os filósofos do nosso tempo?

Ouvi de novo essa pergunta, dias atrás, formulada dessa vez pelo escritor e diplomata madrilenho José María Ridao. Prontamente respondida: sim, são. Mas sem regozijo. Afora lastimar que os economistas desfrutem hoje o status oracular que antes pertencia aos filósofos, Ridao destes também desconfia desde que leu Les Chiens de Garde, o panfletário ensaio do então jovem filósofo comunista francês Paul Nizan.

Há exatos 80 anos, Nizan deu tchau para os estudos filosóficos com aquele ensaio, no qual acusava seus colegas de ofício de se extraviarem numa logomaquia de conceitos para manter fora de seu campo de preocupações os múltiplos problemas que acabariam desencadeando o flagelo que se abateu sobre a Europa sete anos depois. Ridao acha que chegou a hora de se repetir o mesmo gesto de Nizan com os novos cães de guarda, os economistas.

Eles até podem ser os filósofos da atualidade, já que muito especulam e palpitam - com notável margem de erro, ressalte-se. Numa gincana de futurologia patrocinada pelo Financial Times e iniciada em meados da década de 80 do século passado sobre o que aconteceria com a economia mundial dali a sete ou dez anos, os lixeiros europeus sagraram-se campeões, com a maior margem de acerto. Os economistas chegaram em terceiro ou quarto lugar.

Impossível estimar como os lixeiros, esses intuitivos arúspices do consumo e do desperdício, teriam se saído em igual pesquisa na década seguinte, mas é sabido que os economistas não foram capazes de prever a crise econômica e financeira de 2008. O que não seria de todo grave se muitos deles, justamente aqueles com maior poder decisório, não insistissem em "fortalecer a dominação dos esquemas de pensamento que orientam as políticas econômicas há 30 anos".

As aspas pertencem ao manifesto de um coletivo de economistas dissidentes criado na França e em franca expansão, Les Économistes Atterrés, que, como o nome indica, estão arrasados, aterrorizados, com as soluções impostas à crise na Europa pelos mandachuvas do sistema financeiro internacional. Clamam esses economistas que nada mudou no discurso que sustenta a ortodoxia neoliberal na economia e nas políticas que levaram à catástrofe das subprimes (créditos de alto risco), quatro anos atrás. A teoria do similia similibus curantur pode funcionar na homeopatia, não na economia.

Pressionados por instituições financeiras europeias e internacionais e agências de classificação de risco que já se mostraram incompetentes ou mal-intencionadas, governos da zona do euro estão aplicando, com renovado rigor, um chorrilho de reformas e ajustes estruturais que no passado concorreram para aumentar a instabilidade econômica e as desigualdades sociais. Seus atuais malogros não saem das primeiras páginas dos jornais.

Com a participação de estudiosos de outras áreas, Les Économistes Atterrés já têm dois anos de estrada, mas sua oficialização só se deu em fevereiro de 2011, simultaneamente à publicação do manifesto acima mencionado. No documento, pesadas críticas aos dez postulados que inspiram a atual política de austeridade à outrance, comandada desde a Alemanha, acompanhadas de 22 contrapropostas.

Outras diatribes e sugestões alternativas foram, desde então, divulgadas em intervenções públicas, artigos, num pequeno livro (L'Europe Mal-Traitée), lançado em junho, e no próprio site do grupo (www.atterres.org), constantemente atualizado ao que ora sucede na Europa, principalmente na Grécia e na Península Ibérica, as maiores vítimas da Sparmassnahme, que é como se diz austeridade econômica no país de Frau Merkel e Jens Weidmann, diretor do Bundesbank, o BC alemão, férreo defensor do arrocho.

As estatísticas do fracasso são de aterrar. Na Grécia, o número de suicidas quase dobrou entre 2010 e 2011. Um estudo da revista Lancet concluiu que uma alta de 1% na taxa de desemprego pode provocar um acréscimo de 0,8% na taxa de suicídios entre os que têm menos de 65 anos de idade. Os casos de distúrbios mentais também aumentaram exponencialmente nas economias mais afetadas da zona do euro, abalando a produtividade. Um círculo vicioso.

Dois fracassos europeus puseram o mundo em guerra, no século passado. Se a Europa não superar sua atual crise financeira, não teremos necessariamente uma nova guerra mundial, mas um caos econômico mundial é líquido e certo. A luta, portanto, deveria ser de todos. Somos todos aliados. Contra as forças da ortodoxia econômica. E que entre si falam alemão, conforme insinuou Hal S. Scott, na página de opinião do New York Times, quarta-feira passada.

É no mínimo curioso esse reincidente protagonismo teutônico. Pela terceira vez, a Europa estremece diante da Alemanha. Antigamente seus vizinhos temiam seu poderio militar, agora temem seu poderio econômico. Se superar discordâncias internas, ela poderá ajudar os países em crise, mas não salvar a Europa, missão multinacional que, segundo Scott e outros analistas, exigiria um esforco concentrado dos Estados Unidos, China, Japão, via FMI, eventualmente com um novo Tratado de Bretton Woods.

Em que termos? Se olharmos para o passado imediato da Europa, tão ou mais importante do que descobrir o que fazer agora é ter a noção exata do que não fazer, recomendou, em recente conferência, o Nobel de Economia Amartya Sen. Os economistas aterrorizados já haviam entendido essa sutileza.

A unificação europeia custou 100 milhões de vidas (o total de mortos das duas guerras mundiais) e começou como uma cruzada pela consolidação da paz continental, da harmonia entre antigos inimigos, gradualmente evoluindo para uma integração política. A certa altura a incorporação financeira passou à frente da unificação política, e os problemas gerados por essa inversão de prioridades estão na raiz da bananosa atual, salientou Sen na mesma conferência, dando a entender, no final, que mais urgente do que salvar o euro é salvar os europeus.

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