Laurie Goodstein/NYT
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Acertos de conta Oportunistas

Não é correto cobrar da Igreja o mesmo método e poder do ordenamento civil. Seu método ao lidar com crimes é penitencial

Márcio Fabri dos Anjos

17 de abril de 2010 | 16h00

Os escândalos de pedofilia na Igreja Católica têm suscitado várias polarizações que desafiam uma compreensão mais analítica. Nessa situação de fragilidade afloram vários acertos de conta enrustidos, que explodem conjuntamente. Sem entrar por um caminho de acusações e defesas, e sempre reconhecendo a gravidade das acusações e a necessidade de transparência sobre os fatos, trazemos uma modesta contribuição para entender um contexto maior em que o atual debate se insere.

 

De início, é fácil perceber que a Igreja Católica, como todo grupo institucionalizado, tem regras internas para sua vida. Esse ordenamento eclesiástico se distingue do ordenamento civil, e com isso se torna indispensável respeitar o âmbito em que os problemas são tratados, ao se lerem documentos eclesiásticos. Não convém cobrar da Igreja o mesmo método e o mesmo poder do ordenamento civil. Seria sugerir uma espécie de teocracia, cujos resultados indesejáveis conhecemos. O foco do problema é se o ordenamento interno da Igreja é protecionista de modo a eximir seus membros de responsabilidades civis em crimes como a pedofilia e outros. Aí se alocam as suspeitas levantadas contra bispos e o próprio papa.

 

Para entrar nesse tema é bom notar que, em teoria, o método eclesiástico de lidar com crimes é penitencial, isto é, centrado na misericórdia e no perdão, visa basicamente a defender o bem da comunidade e a recuperação dos faltosos. A responsabilização por danos ali implícita se impõe também de forma penitencial e se cumpre como procedimento de conversão. Mas assumir a penitência é gesto de adesão livre. Aos resistentes em questões graves se aplicam restrições em que o dispositivo máximo é a excomunhão, ou seja, exclusão da participação eclesial.

 

Há com isso um hiato entre o crime visto como pecado e suas responsabilidades civis. Esse hiato de fundo religioso parece ter se consolidado sociologicamente ao longo do tempo. Acompanhada por um processo de centralização interna do poder na Igreja, a posição de privilégio conseguida por autoridades religiosas no regime de união entre Igreja e Estado teve o efeito de eximir em grande parte o clero de suas responsabilidades civis.

 

No caso específico da pedofilia, pode-se somar ainda um despreparo científico por parte de segmentos do clero, padres e bispos, para saber lidar com transtornos psíquicos e perversões. Reflexos disso foram sentidos na seleção vocacional e no processo educativo em seminários. Mas aparece também em atitudes de bispos se mostrando crédulos para solucionar graves problemas de comportamento através de bons conselhos e correspondentes promessas de mudança.

 

O desafio que a Igreja enfrenta é, portanto, mais amplo que simplesmente passar a limpo os crimes de pedofilia apontados entre o clero. As atuais acusações provocam a Igreja a se interrogar em todos os campos da ética e não apenas em questões de desvios sexuais. Enquanto muitos aproveitam este momento de fragilização da hierarquia como uma chance para desabafar ressentimentos, outros veem nele a grande oportunidade de a Igreja dar um passo substantivo: da ética assumida com fé para sua transparência civil.

 

O papel do papa Bento XVI tem sido cobrado frequentemente sobre a condução da Igreja em seus modelos de organização interna, em suas relações com os diferentes segmentos da sociedade e no diálogo inter-religioso. Não é um momento fácil de administrar, quando tantos problemas se somam e se avolumam. No caso específico de problemas sexuais entre o clero, antes mesmo de ser papa, em 2003, Ratzinger deixou clara a orientação para os bispos que os procedimentos internos de Igreja devem se guiar sempre também pela exigência do "direito civil em matéria de informação dos delitos às autoridades civis". Parece ter sido uma boa sinalização, em um contexto que, como vimos é certamente mais amplo e exigente.

 

A credibilidade da Igreja foi abalada na opinião pública pelos escândalos de pedofilia. Mas na base de suas convicções está a força de sua superação. Em seu próprio estatuto ela se reconhece "santa e pecadora". A assimilação de acusações e o reconhecimento de seus erros fazem parte de sua dinâmica de vida. Por outro lado seria uma distorção grosseira se polarizar nos erros e desconhecer os incontáveis testemunhos, tantas vezes heroicos, de pessoas e instituições impulsionadas pela Igreja em atividades pelo bem social, defesa e promoção dos pobres, amparo às crianças. Em sua abertura efetiva para superar seus erros, a Igreja se reencontra com sua credibilidade.

 

*Márcio Fabri dos Anjos é teólogo, padre e docente da pós-graduação em Bioética no Centro Universitário São Camilo

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