ACM causa luta na Bahia

Diante da briga familiar por sua herança, o senador não treme em seu túmulo. É mais grave: ele ameaça voltar

Raimundo Carrero*, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2008 | 23h27

Não, ACM não é Associação Cristã de Moços, eles rezam ao Senhor e não brigam com ninguém, não acertam, não erram e não assanham o cabelo; ACM é Antônio Carlos Magalhães, tocador de trombone, médico, líder político dos campos baianos e alhures. Agora não tem trombone, não cuida da saúde de ninguém, o que na verdade nunca cuidou, nem lidera nem Bahia nem alhures. O rei está morto e nu. Desprotegido debaixo da terra, assiste - do latifúndio que lhe cabe, entre vermes e insetos -, ao destroçar daqueles bens que amealhou ao longo da sua aventurosa e nem sempre recomendável vida política. Olhos arregalados e, ao ranger de dentes, filhos, netos e genros devoram-se entre si, em busca de cofres e fortunas, obras de arte e apartamentos de luxo.Shakespeare, onde estais que não respondes?Está bem, nem todo mundo se lembra do episódio do trombone. Basta voltar um pouco no tempo, essa estúpida máquina de matar, para não esquecer o dia em que ACM renunciou por causa do episódio do placar eletrônico do Congresso Nacional, manipulado por ordem dele. Dizem. Pois ele voltou à Bahia, a televisão mostrou, entre aplausos e beijos dos soterapolitanos, a barriga gorda e mole, tocando, num palanque improvisado, o trombone vingador. Vingava-se dos seus pares bailando e tocando. Quer dizer, tocar mesmo, com toda a arte do trombone, ele não tocou, fez beicinho. Sem som e sem graça. Mas a barriga, bem, a barriga saltitava de tanta felicidade. Afinal, ele tocava e quem dançava era o povo brasileiro ao som dos seus abusos. E tem coisa mais engraçada do que essa?O que não é engraçado, mas tem jeito de comédia - e aqui entra Shakespeare -, é a partilha dos seus bens ou herança - calculada em cerca de R$ 345 milhões -, disputada a notas de jornais e insultos, gritos e gemidos, numa ação que envolve desaforos e desconfiança. Feito Paulo Maluf na Suíça. Ao juiz, que investigava os depósitos bancários, o paulista garantiu de pés juntos: "Esse dinheiro não é meu, doutor". Do lado de cá, o coro acrescentava: "É nosso, é nosso, é nosso". E o magistrado satisfeito: "O senhor tem razão". Nessas coisas de dinheiro eles se entendem muito bem. Não é dele, não é nosso, não é de ninguém. E, como não é de ninguém mesmo, repetem o velho refrão brasileiro: vamos repartir entre nós enquanto seu lobo não vem.Em silêncio, mas num silêncio que geme e gargalha, os baianos acompanham sem estarrecimento - nada ali causa estarrecimento - o ranger de portas e janelas do império. Lêem com avidez as notas publicadas nos jornais e vêem com interesse as notícias nos telejornais. No lusco-fusco desse silêncio, a luta é renhida. Mas o senador treme no túmulo, diante de tanta polêmica? Não, meu filho, absolutamente, o senador não treme. Ele não treme no túmulo porque o que vai acontecer é ainda mais grave: ameaça voltar. Sem espanto. Mas é isso mesmo: Antônio Carlos Magalhães, em plena glória da eternidade, deve ressuscitar forte e vigoroso, balançando a pança, aos gemidos: "Ser ou não ser, eis a questão". Dessa vez sem trombone. Não duvide. Arregale os olhos e não duvide. Eis que um filho da sombra - e que já ganhou um apartamento no Morumbi, em São Paulo -, nascido da relação entre ACM e uma suposta amante, até então não revelada, e que ninguém conhecia mais gorda, reclama a exumação do cadáver para confirmar a paternidade e exigir a herança. A família está indignada. Como é que esse homem, do alto dos seus 40 anos, ameaça esse dinheirinho que está protegido com tanta gana? Assim, mesmo gana e grana abundam nessa briga. Trocadilho infame, meu Deus.Nos jornais baianos também tremeluzem acusações. Logo nos jornais, onde a família sempre triunfou, à custa de manchetes e fotos, nem sempre verdadeiras, nem sempre mentirosas. Ou na TV Bahia, origem de toda a herança, onde está enterrada a botija de cerca de R$ 300 milhões. Parando um pouco para respirar: tudo isso envolve personagens que acumulam acusações, pequenas e mesquinhas vinganças. De um lado, Antônio Carlos Magalhães Júnior, administrador dos bens da família, e que é lembrado pelas artimanhas e armadilhas nos corredores. Ele teria negociado a TV Bahia, sem avisar ao seu cunhado, o também poderoso dono da OAS, César Mata Pires, casado com Tereza Helena Magalhães Mata Pires, que acusa a família de esconder a fortuna do finado. Por causa dessas manobras é que César Mata Pires já decidiu morar em Salvador, largando tudo que administra em São Paulo.Vai enfrentar a ousadia do filho mais velho do ex-senador. Até porque descobriu que as peças raras e riquíssimas do casarão da família, na capital baiana, estavam desaparecendo, feito filme infantil e de fantasma, voando pelas janelas. Entrou com uma solicitação de invasão do apartamento da família, na Avenida Oceânica, em Salvador, arrebentando portas e janelas, cansado de perguntar nas reuniões de família: "Cadê o docinho que estava aqui?", e de ouvir a resposta viciada: "O gato comeu". Corre o boato que desapareceram mesmo uma escultura de Victor Brecheret e um quadro de Cândido Portinari. Ali ainda estão enterrados talentos e tesouros que ele não quer dividir com ninguém. E mais ainda: não tolera a intervenção de familiares que, mesmo com todo direito, desejam o ouro e que também não dividem. Por isso agora está planado em Salvador. O pior é a mulher dele, d. Tereza Helena, que está acusando a mãe de esconder o patrimônio de ACM. A fanfarronada estala feito chicote de feitor no sombrio apartamento da família.Mas o chicote também geme do outro lado. Júnior reclama que a irmã não respeita a mãe nem a memória do pai. Por isso, porteiros, empregados, zeladores são contratados para, armados de lupa e de capote quadriculado, investigar os movimentos de irmãos, irmãs, genros e noras. Ou de quem passar pela calçada. No entanto, para desgraça de todos eles, a luta está apenas começando, e até o telefone da família foi grampeado. Pode nem ser verdade, mas parece que ali as pessoas estão aprendendo a falar no telefone apenas com gestos. O que não deve ser complicado. Complicado mesmo é disputar as peças e as relíquias da família ao som do trombone vingador.Aos gritos, unhadas e cotoveladas. * Raimundo Carrero é jornalista e escritor - autor, entre outros, de O amor não Tem Bons Sentimentos (Iluminuras)

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