ACM, o velho coronel, morre no ocaso

Dono do último ?ismo?, ele já não mandava em seu feudo, a Bahia. Não era mais obedecido nem no interior do Estado e os novos líderes de seu partido fugiam dele. Em Brasília, ninguém o ouvia

Marco Antonio Villa*, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2007 | 10h49

Com a morte do senador Antonio Carlos Magalhães encerra-se um ciclo político na Bahia. Mas não só: com o desaparecimento do senador a política nacional perde seu último líder pessoal - caudilho da velha tradição latino-americana - e a direita, um dos seus principais quadros. Durante a República, a Bahia teve líderes que polarizaram a luta política no Estado: Luiz Vianna, J.J. Seabra, Octávio Mangabeira e Juraci Magalhães. Todos tiveram expressão nacional, especialmente os três últimos. Contudo, foi Antonio Carlos Magalhães que marcou de forma mais longeva e profunda tanto a política estadual como a nacional.Dos políticos brasileiros que atuaram no momento final da "república populista", ACM é o último que se manteve no primeiro plano da cena política. José Sarney, por exemplo, foi um deputado federal de pouca expressão no final dos anos 50 e depois permaneceu boa parte do regime militar como figura de pouca importância política, além do que, seu Estado - o Maranhão - nunca desempenhou papel relevante na política nacional. ACM também não procurou, tal qual Sarney, se apresentar nacionalmente como um acadêmico, um intelectual. Pelo contrário, a truculência - o Toninho Malvadeza, apelido que o marcou em boa parte da carreira - foi durante muito tempo seu cartão de visita. Dessa forma, nunca teve vergonha de mostrar o lado cruel do coronelismo, do mandonismo secular das elites brasileiras, especialmente as do Nordeste. Como um senhor de engenho dos primeiros quatro séculos do Brasil, sempre fez questão de deixar claro quem mandava. Dos seus inferiores exigia obediência absoluta, tratava a pão e água os opositores. Fazia justiça de sua forma e andava sempre acompanhado de um séquito. Porém, diferentemente do antigo senhor da casa-grande, estabeleceu boas e sólidas relações com os "homens livres" e com os trabalhadores braçais. Se a sua liderança era arcaica, a relação com a sociedade de classes era moderna, hábil e plural. Para fortalecer sua liderança local tinha de modernizar a economia baiana e para isso necessitava ter influência no poder central. E teve. Em alguns governos - como durante o qüinqüênio presidencial de José Sarney - foi o ministro civil mais influente e poderoso. Mandou e desmandou - e como bom coronel fazia questão de mostrar que detinha o mando.A modernização no Estado passou pelo estabelecimento de uma sólida aliança com um corpo técnico competente que acabou indo para a política conduzido por suas mãos (como Paulo Souto e Antônio Imbassahy), especialmente após a eleição de 1990, quando retomou o controle do Estado, após a desastrosa gestão Waldir Pires/Nilo Coelho, este último celebrizado, segundo o velho senador, por estabelecer o quilômetro de 700 metros, quando pagava as construtoras pelas obras nas estradas do Estado. Os "jovens carlistas" foram bons administradores públicos, mas sempre viveram sob a sombra do caudilho, que impedia que consolidassem a própria liderança. E a constante afirmação de força pessoal acabou solapando a formação de um partido político regional. Nada se decidia sem a consulta ao "chefe".O estilo agressivo foi sendo adocicado pelo hábil Luiz Eduardo Magalhães, seu filho, que abria a possibilidade de o poder político estadual ficar sob controle da família Magalhães por mais algumas décadas. Mas a morte precoce do deputado acabou enterrando esse projeto e foi mostrando as primeiras frestas no carlismo - o último "ismo" da política brasileira, marcada agora pela vida partidária e não somente pela liderança pessoal.Mas não bastou o chicote para manter por tanto tempo o poder local. Já durante a abertura, durante o sexênio da presidência Figueiredo, ACM buscou sustentação entre os intelectuais. Jorge Amado apoiou João Durval para o governo do Estado, em 1982, o "poste", como o senador gostava de dizer, que elegeu no lugar de Cleriston Andrade, que tinha morrido 60 dias antes das eleições. Desde então, os artistas baianos mais conhecidos foram apadrinhados por ele em shows, filmes, edições de livros, exposições e no carnaval. Até sua forma de andar foi elogiada por Caetano Veloso - cuja mãe, dona Canô, sempre fez questão de demonstrar seu apreço pelo senador. Jogou o seu peso político no fortalecimento da "baianidade". Os artistas adoraram. Associou o destino da Bahia ao seu. A maioria dos intelectuais permaneceu em silêncio. Bahia e ACM viraram sinônimo. Qualquer comentário sobre ele em algum congresso realizado na Bahia era recebido com um sorriso, como se o "estrangeiro" não entendesse como funcionava a política na terra de Castro Alves. Em tempo: o poeta, caso estivesse vivo, certamente estaria na oposição. Não ficaria calado, como tantos na Bahia, quando ACM determinou mudar o nome do aeroporto de Salvador de 2 de julho - data magna da Independência da Bahia - para Luiz Eduardo Magalhães. Cooptando artistas e intelectuais, ACM foi amortecendo as críticas. Mas não bastou: durante 20 anos fez da TV Bahia - retransmissora da TV Globo - um instrumento de seu grupo político. Ficou célebre o momento em que recebeu a concessão global, justamente quando exerceu com mão de ferro o Ministério das Comunicações e distribui centenas de concessões de rádios e televisões para garantir que a Assembléia Constituinte votasse os cinco anos de mandato para José Sarney- rompendo com a promessa de Tancredo Neves de um mandato de quatro anos.O poder do velho coronel foi sendo minado no século 21. Acabou sendo obrigado a renunciar ao mandato para evitar ser cassado, quando do escândalo da violação do painel de votação do Senado. Mesmo assim, voltou à Casa, eleito em 2002, tendo uma grande vitória no Estado, com a reeleição de Paulo Souto, e conseguindo na chapa senatorial eleger também César Borges. Nos cartazes eleitorais do trio, sua figura era a principal. Contudo, os atritos com Paulo Souto já eram evidentes e o governador dava sinais visíveis de desconforto: estava se esgarçando a política de correia de transmissão do carlismo, uma espécie de leninismo de direita.Como impedia o surgimento de novos líderes com vôo próprio, o caminho dos jovens carlistas era o de abandonar seu guarda-chuva político. A eleição de 2004 para a prefeitura de Salvador demonstrou que a capital se afastava novamente de ACM, depois de oito anos de uma gestão considerada eficiente de Antonio Imbassahy. Este, que pretendia ser candidato em 2006 ao Senado ou ao governo do Estado, rompeu com o carlismo, pois tomou conhecimento de que não seria candidato a nenhum dos dois cargos.Por outro lado, o governo central estava avançando sobre as suas bases municipais com o programa Bolsa Família. Os prefeitos, velhos aliados de ACM, perceberam que para sua sobrevivência política necessitavam ter uma relação mais firme com Brasília, que o velho senador não conseguia estabelecer como no passado. Estava na oposição. E pior: não assustava os novos donos do poder. Muito menos era necessário para compor a base governamental no Congresso Nacional. Outros antigos líderes nordestinos tinham se aliado a Lula desde o início do processo eleitoral de 2002, como o bi-senador do Maranhão e do Amapá, José Sarney. Quando se aproximaram as eleições de 2006, Antonio Carlos Magalhães, como nos velhos tempos, afirmava ter um poder que na realidade não mais existia. Muitas vezes blefou, até com apoio da imprensa, dando a entender que determinava o rumo dos governos. Um bom exemplo ocorreu durante o segundo governo Fernando Henrique Cardoso (1999-2002). Propalou aos quatro ventos que mandava e desmandava. Afirmava que o governo dependia dele. Contudo, quando rompeu com FHC, nada aconteceu. O governo continuou tendo apoio no Congresso Nacional e o veto carlista acabou virando piada de salão (antes, claro, dessa expressão se consagrar com o professor de matemática Delúbio Soares). O outono do patriarca se aproximava. Preparou-se para mais uma eleição, certo de que o tempo não tinha passado. Acabou politicamente derrotado na eleição para governador, senador e teve diminuída sensivelmente sua bancada na Assembléia estadual e na Câmara dos Deputados. Era o começo do fim. Seus antigos aliados começaram a questionar sua liderança, mas agora sem sair do partido. O tempo da imposição, da vontade absoluta do chefe, tinha passado. Teria de disputar espaço político na seção regional do seu partido, como na UDN baiana, nos anos 50.A morte acabou alcançando o senador no ocaso político. Não tinha mais nenhum poder na esfera federal. Na Bahia perdeu o governo do Estado, não tinha influência na prefeitura da capital e nos municípios do interior os líderes locais procuravam outros partidos que tivessem ligações mais eficientes com Brasília. O velho coronel não era mais obedecido. Ninguém mais o ouvia. O momento da renovação do mando se aproximava. Outros coronéis se apresentavam para assumir o comando. Mais novos, com discursos modernos, antenados às últimas novidades. Mas com os mesmos vícios. Pena. A democracia parece que tarda a chegar à Bahia. Lá, onde, como escreveu o poeta, "a praça é do povo/Como o céu é do condor/É antro onde a liberdade/Cria a águia ao seu calor/Senhor, pois quereis a praça?/Desgraçada a populaça/Só tem a rua de seu./Ninguém vos rouba os castelos/Tendes palácios tão belos/deixai a terra ao Anteu."

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