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'Adão e Eva se parece com um conto de Kafka', diz crítico americano

Stephen Greenblatt está publicando no Brasil seu livro 'Ascensão e Queda de Adão e Eva'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 16h00

No prólogo de seu livro Ascensão e Queda de Adão e Eva, o teórico e crítico literário norte-americano Stephen Greenblatt pergunta por que uma história que ocupa pouco mais de uma página e meia da Bíblia “se impõe com tanta eficiência e tanta facilidade”. Ele mesmo responde: “Porque nós a ouvimos quando crianças e nunca mais a esquecemos”. Greenblatt não só não a esqueceu como decidiu escrever um livro sobre nossos parentes mais distantes, concluindo que o primeiro casal da humanidade “é o epítome do nosso poder de contar histórias”.

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Greenblatt conversou por telefone com a reportagem do Aliás, esclarecendo que seu ensaio sobre Adão e Eva não pretende ser um manifesto anticlerical ou um resumo de como essa história foi absorvida pela cultura judaica, muçulmana e cristã. Antes, é um estudo sobre como ela foi interpretada por homens religiosos como o bispo africano Santo Agostinho, que deu à história um peso ligado ao sexo e ao pecado, ou por escritores como Milton, autor de O Paraíso Perdido, que fez do texto bíblico um pretexto para discutir valores humanos. Ou ainda por artistas como o pintor alemão Albrecht Dürer (1471-1528), o mais popular entre os renascentistas nórdicos, que revolucionou a arte europeia ao criar, em 1507, um Adão inspirado no Apolo Belvedere e uma Eva cercada por quatro bichos que representam a ideia medieval dos quatro temperamentos humanos.

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Assim como Dürer deixou o espírito científico de lado para definir esses temperamentos por figuras de animais que cercam Eva no jardim do Éden (um gato colérico, um coelho sanguíneo, um melancólico alce e um fleumático boi), Greenblatt argumenta que a literatura parece ter melhores ferramentas para explorar a história bíblica que a ciência.

As fontes literárias analisadas por Greenblatt são inúmeras. “Para mim, essa história de Adão e Eva se parece com um conto de Kafka”, diz ele, definindo a narrativa bíblica como paradoxal. Em seu livro, ele começa com mitos sumérios que remetem à história do paraíso perdido, como o épico Gilgamesh, que trata igualmente de iniciação sexual e da aceitação da mortalidade, e termina com uma pesquisa sobre chimpanzés em Uganda.

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“Mas, no lugar de mitos mesopotâmicos, o que nós herdamos foi o Gênesis”, observa o crítico, que se ocupa demoradamente no estudo de Agostinho sobre o primeiro livro da Bíblia. Foi por meio dele, argumenta Greenblatt, que a história de Adão e Eva “deixou de ser alegoria pura para se transformar em verdade literal”. Com Agostinho, conclui o autor, a queda do casal se torna a fonte do pecado original, projetando a própria luta do santo para manter a castidade e resgatar o estado de inocência do jardim do Éden.

Greenblatt não despreza o viés psicanalítico ao falar também de John Milton. Após descrever a rebelião dos anjos liderados por Lúcifer, que por isso perdeu o paraíso, Milton entra na vida dos pais da humanidade e, segundo Greenblatt, projeta uma visão do Éden que nem passou pela cabeça de Agostinho – o crítico vê no poema sinais de um erotismo incontrolado. “Parece claro que Milton imaginava o paraíso como um lugar em que Adão e Eva praticavam sexo desenfreadamente”. O que era um casal idílico, que só teria descoberto o sexo depois da queda, vira um casal de uma carnalidade extremamente real.

No cerne da história bíblica, continua Greenblatt, está “a escolha de comer o fruto proibido”, uma rebelião contra um poder que ele não hesita em chamar de “tirânico” – “que espécie de Deus proibiria suas criaturas de conhecer a diferença entre o bem e o mal?”, pergunta o crítico no prólogo, transferindo a responsabilidade da incômoda questão para os céticos que a Igreja perseguiu por tal ousadia. O Iluminismo, conclui Greenblatt, amplificou as vozes dissonantes desses céticos, entre os quais ele inclui Darwin e o escritor norte-americano Mark Twain. Em 1906, Twain, num sarcástico exercício de imaginação literária, publicou Os Diários de Eva, em que a primeira mulher conta como foi criada, explorou o Éden com Adão e dele foi expulsa com o companheiro. Na época do seu lançamento, o livro de Twain, que trazia 55 ilustrações do casal como veio ao mundo, foi considerado “pornográfico” por uma biblioteca americana.

Greenblatt cita ainda o livro de Saramago, Caim, como um dos seus preferidos sobre o Gênesis. E não esquece Spinoza, que, ao contrário de Agostinho, não acreditava ser a natureza humana corrompida a ponto de impedir a reconquista do paraíso. Eva foi frequentemente acusada de ludibriar o primeiro homem – em um livro recentemente lançado, O Martelo das Feiticeiras, dois frades dominicanos do século 15 acusam a mulher, e não o diabo, de ter enganado o homem e provocado a ruína humana, lembra Greenblatt. A história bíblica, enfim, antecipou temas contemporâneos como transgressão, diferença sexual e exílio. Há autores, entre eles uma freira do século 17, Arcangela Tarabotti, que condenou a difamação de Eva como um exemplo de “tirania patriarcal”?

O crítico americano não chega a tanto. Diz que Eva, antes de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “não entendia que estava sendo dominada por Adão, o que só veio a compreender depois de transgredir”. Greenblatt foi observar a vida dos chimpanzés num parque em Uganda e topou com inocentes vivendo no jardim do Éden. “Os chimpanzés têm algo de Adão e Eva antes da Queda”, afirma. “Embora não saibam a diferença entre o bem e o mal, em contrapartida são livres e sem culpa”, conclui.

Greenblatt lança lá fora, no próximo dia 8, mais um livro sobre Shakespeare, sobre quem escreveu o antológico Como Shakespeare se Tornou Shakespeare. Em Tyrant, o autor analisa os personagens mais doentios do bardo, de Coriolano a Ricardo III, passando por Macbeth, para entender a obsessão tirânica pelo poder na Inglaterra.

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