Nancy Ellyson
Nancy Ellyson

Adaptação testa força dos arquétipos da obra Wagner

'O Anel do Nibelungo' em quadrinhos é uma das várias releituras que a obra ganhou desde seu lançamento, em 1876

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2018 | 16h00

A adaptação do quadrinista norte-americano Philip Craig Russell da tetralogia O Anel do Nibelungo não é a primeira – e provavelmente não será a última – a testar a força de arquétipos pan-culturais na obra de Wagner. Várias leituras do Anel seguiram na direção de um ‘aggiornamento’ das questões formuladas pelo compositor já na época da estreia do ciclo, em 1876. Um dos primeiros ensaístas a destacar o potencial da tetralogia como investigação (política) da natureza humana foi Bernard Shaw, que viu nas quatro óperas (Wagner preferia ‘dramas’) uma alegoria anarcossocialista da sociedade industrial. O diretor e cineasta francês Patrice Chéreau (1944-2013), ciente da importância dessa observação de Shaw (em The Perfect Wagnerite, 1898), fez dela o leitmotiv de sua histórica montagem de O Anel do Nibelungo no ano do centenário de sua estreia, em 1976, tendo como parceiro outro mito da cena musical francesa, Pierre Boulez (1925-2016).

Há uma assimetria perturbadora entre deuses, semideuses e mortais na montagem de Boulez-Chéreau, personagens chamados por um crítico de “avatares do capitalismo do século 19”. Como Craig Russell percebeu, embora adotando um ponto de vista mais conservador e nostálgico, não se trata apenas da luta por um anel mágico forjado por um anão que garante a seu proprietário o poder de dominar o mundo. Trata-se, sim, de uma luta entre deuses poderosos e mortais superdotados em que os primeiros verão sua morada destruída na quarta e última ópera do ciclo, O Crepúsculo dos Deuses (Götterdämerung). Chéreau, um cineasta formalista (Rainha Margot), percebeu que teria de recorrer a uma composição visual mais sofisticada que a usual para não cair na armadilha de construir uma parábola neomarxista (e reducionista) da tetralogia.

Outros diretores além de Chéreau tentaram reinventar o ciclo, como o canadense Robert Lepage (no Metropolitan, entre 2010 e 2012) e o alemão Frank Castorf (em Bayreuth, em 2013), dois fiascos entre os wagnerianos ortodoxos. A montagem de Chéreau, pelo impacto da encenação, ficou como um marco da modernidade de Wagner. As ninfas do Reno, guardiãs do ouro, são reduzidas a frias prostitutas. Wotan é o supremo capitalista em luta contra o novo capitalismo que emergiu da Revolução Industrial – amalgamado na figura do anão Alberich (que, nas montagens dos anos 1930, era caracterizado como judeu). Os deuses, na montagem de Chéreau, vestiam roupas do século 18 e eram decididamente figuras anacrônicas num ambiente hostil à presença do sobrenatural.

Num cenário dominado pela presença de uma usina hidrelétrica, no lugar do rio Reno, Chéreau encenou sua parábola política sem esquecer a dimensão mítica das óperas de Wagner, tão bem explorada na adaptação para os quadrinhos feita por Craig Russell. A diferença é que o desenhista recuou em busca de uma estética pós-romântica que guiou as primeiras encenações de O Anel do Nibelungo, carregando na dose de violência (especialmente em Siegfried), ingrediente básico de todas as mitologias. Numa época marcada pelo recrudescimento da bestialidade, a adaptação feita pelo quadrinista é uma leitura mais que recomendável para as novas gerações.

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