Adeus, Iraque, e boa sorte

'Guerra ao Terror' já não sensibiliza mais os americanos. Ameaças mais concretas tomaram seu lugar

Timothy Garton Ash*,

20 de julho de 2009 | 12h06

A primeira coisa que vejo chegando a Nova Iorque é algo que não está mais aqui. A sensação cada vez maior de ausência das torres gêmeas no perfil de Manhattan continua sendo a presença mais constante desta cidade: um marco impresso no ar. Entretanto, a sombra produzida pelas torres ausentes não é mais a característica que define a política mundial como foi, durante quase 30 anos, a sombra produzida pelo Muro de Berlim. A maioria das pessoas não tem mais a sensação de que vivemos numa "guerra ao terror", como nos sentíamos quando vivíamos na Guerra Fria. Nem no mundo, nem nos Estados Unidos, nem mesmo em Nova York.

 

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No fim do mês passado, Janet Napolitano, a secretária da Segurança Interna dos EUA, confirmou que o governo Obama descartou totalmente a expressão "guerra global ao terror". Portanto, como slogan, a que foi considerada a guerra de uma época, como a Guerra Fria - ou a "4ª Guerra Mundial", segundo o neoconservador Norman Podhoretz, para quem a Guerra Fria foi a 3ª -, durou pouco mais de sete anos, do outono de 2001 ao outono de 2008, quando Obama venceu as eleições presidenciais.

 

Para a maioria dos americanos, "o Iraque acabou" - embora não, evidentemente, para os iraquianos que continuam vivos e precisam seguir em frente enfrentando as consequências. "Adeus Iraque, e boa sorte" é o título da coluna de Tom Friedman no New York Times de terça-feira. O título não faz justiça à coluna, mas resume perfeitamente uma atitude geral dos americanos que, se eu fosse iraquiano, me deixaria com muita raiva.

 

Como a Grã-Bretanha enlutada sabe muito bem, a guerra continua no Afeganistão. A resposta original, necessária e justificada, aos ataques de 11 de setembro de 2001 foi deformada e traída pelo desastroso desvio de fundos e das atenções para uma guerra desnecessária e injustificada no Iraque. Obama apostou sua reputação no sucesso no Afeganistão, mas a definição de sucesso foi reformulada de modo mais realista. Sua meta não é uma democracia florescente, apenas um país a meio caminho da estabilidade, que não seja nem porto seguro nem viveiro de terroristas. Mesmo nos EUA ele não pode mais contar com o apoio público para essa guerra. Uma pesquisa USA Today/Gallup de março mostrou que 42% das pessoas ouvidas afirmaram que os EUA cometeram "um erro" com o envio de forças militares ao Afeganistão. Em novembro de 2001, eram apenas 9% as que manifestavam essa opinião. O título "Adeus Afeganistão e boa sorte" talvez esteja distante apenas alguns anos.

 

Os americanos não acreditam necessariamente que hoje estejam muito mais seguros contra ataques terroristas, apesar de todas as medidas extraordinárias adotadas em nome dessa segurança. Em uma série de pesquisas de opinião, o Pew Research Center perguntou se eles achavam que a "capacidade dos terroristas" de atingir os EUA era maior, a mesma ou menor do que em 11 de setembro de 2001. Em agosto de 2002, 39% disseram que era a mesma, 34%, menor, e 22%, maior. Em fevereiro deste ano, 44% disseram que era a mesma, 35% menor, e 17% maior. Logo, quase oito anos depois, uma clara maioria considera que a capacidade dos terroristas de atingir os EUA é a mesma ou maior do que era em 2001. Talvez esteja errada, mas essa é sua opinião.

 

Portanto, existe uma sensação geral e seguramente correta de que a luta a longo prazo contra diferentes terroristas continuará. Entretanto, um número menor de americanos acha que sua segurança será garantida por guerras no exterior. E existe mesmo uma nítida divisão partidária a esse respeito. Na mesma pesquisa Pew, cerca de dois em três republicanos afirmam que as operações militares influiriam mais na redução da ameaça terrorista do que os esforços diplomáticos; entre os democratas, verificou-se o contrário. Ao todo, exatamente a metade das pessoas ouvidas acredita que a redução da presença militar americana no exterior reduziria a ameaça de terrorismo.

 

Fato igualmente importante: outros problemas somaram-se à ameaça terrorista, ou a ela se sobrepuseram. Alguns aparentemente mais urgentes, outros mais graves. O derretimento econômico é o primeiro. As pessoas que vi correndo para o trabalho em frente ao canteiro de obras do Marco Zero, terça-feira de manhã, com certeza não estavam pensando no colapso dos edifícios em consequência de um ataque terrorista. Esse mesmo distrito financeiro testemunhou o colapso dos bancos em consequência do que o economista Paul Collier, de Oxford, define como o massacre dos bancos. Portanto, os nova-iorquinos que correm para o trabalho provavelmente estão pensando apenas em salvar seu emprego, ou numa ainda que frágil recuperação do mercado.

 

Ao mesmo tempo, começam a aparecer outros desafios típicos de nossa época, como a mudança climática e a ascensão da China. Se os historiadores futuros perguntarem quem foi o vencedor da guerra entre os EUA e a Al-Qaeda, a resposta poderá ser "a China". Na realidade, de todo modo a China já vinha subindo. Mas, em termos geopolíticos, é também a beneficiária não intencional, nem tendo desejado isso, de uma luta diversionista na qual os EUA, durante o governo Bush, também prejudicaram a si próprios.

 

Mesmo sem considerar o custo econômico da "guerra global ao terror", Abu Ghraib e Guantánamo comprometeram muito mais os EUA do que a Al-Qaeda jamais conseguiria num ataque direto. Mas esse tem sido sempre o sonho dos terroristas: provocar o país que constitui seu alvo levando-o a prejudicar-se a si próprio. Não devemos esquecer que Dick Chaney continua conosco - e atualmente está sendo acusado de ter instruído a CIA a não revelar ao Congresso o desenvolvimento de uma operação secreta contra o terrorismo que previa até assassinato. E ainda tem o descaramento de sugerir que o abandono da "guerra ao terror" aumentará a ameaça terrorista contra os Estados Unidos.

 

Seguro e flexível, o presidente Obama procura faz o máximo para devolver aos EUA sua melhor forma - seja em Michigan (onde o desemprego agora ultrapassa os 14%), em Washington (onde a reforma do sistema de saúde e a mudança do clima finalmente estão sendo tratadas, ainda que com a previsão de penosos compromissos), no Egito (onde falou com eloquência ao mundo islâmico) ou em Gana. Mas embora o próprio Obama seja uma arma de sedução de massa, os recursos de poder nacional a sua disposição são significativamente menores do que se ele tivesse assumido a presidência em janeiro de 2001, enquanto os desafios que enfrenta, interna e externamente, são, em muitos sentidos, maiores.

 

No Marco Zero já são visíveis as fundações de uma nova torre. Dentro de cinco anos, haverá um novo marco histórico no perfil de Manhattan, e não apenas a presença persistente de uma ausência. Segundo as autoridades, o edifício será chamado oficialmente de World Trade Center 1, mas acredito que continuará mais conhecido como Torre da Liberdade. Sua base será fortificada contra ataques terroristas. Porém, se os EUA voltarão a ser um farol de liberdade, se o coração pulsará mais forte diante da perspectiva luminosa do perfil dos prédios de Manhattan - isso dependerá das estratégias que o país venha a adotar nas mais variadas frentes. Estratégias das quais a luta progressiva contra o terrorismo será apenas uma, e provavelmente, não a mais importante.

 

*Professor de estudos europeus da Universidade de Oxford, sênior fellow da Hoover Institution, da Universidade de Stanford, e autor, entre outros, de Free World (Penguin UK)

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