Agliberto Lima/Estadão
Agliberto Lima/Estadão

Admitir existência do racismo foi tabu durante a ditadura militar

Visando escamotear diferenças que pudessem expor a miragem de nossa igualdade racial, o IBGE apagou do censo de 1972 as indicações de cor das pessoas. Isso foi apenas o começo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2020 | 16h00

O que esperar de um país desgovernado por dois negacionistas? Notem como fiz um bom desconto, levando apenas em consideração o presidente e seu vice. 

Eles negam tudo; o capitão até mais que o general. Não havia pandemia (e sim uma “gripezinha”), nem desmatamento e queimadas, não haveria vacina obrigadória (perdão, obrigatória), não existe aquecimento global, nem houve ditadura militar entre 1964 e 1985. Num crescendo quase sem pausas, ambos chegaram à negação mais escabrosa: não há e nunca houve racismo no Brasil – especialmente insultuosa porque reiterada logo após o massacre de João Alberto Freitas no Carrefour. 

A inexistência entre nós de banheiros e bebedouros públicos segregados a negros, com havia nos Estados Unidos, é o argumento mais frequentemente sacado pelo general para desmentir a existência de racismo no Brasil. Ele, que ainda se refere a pretos como “gente de cor”, não percebeu até hoje a diferença entre o segregacionismo americano e o racismo estrutural brasileiro, este já estudado à farta por historiadores, sociólogos e antropólogos, além de documentado diariamente por celulares e câmeras de segurança. 

A bibliografia do general carece de uma atualização urgente. 

A três meses das eleições de 2018, Mourão fez, nas redes sociais, uma ode aos 487 anos das capitanias hereditárias, com a justificativa de que, por intermédio daquele programa de ocupação territorial, “o Brasil descobriu o empreendedorismo”, esquecendo-se, porém, de acrescentar que nas capitanias também brotaram o latifúndio, a monocultura e a mão de obra escrava. 

Algum tempo depois, ao divagar sobre nosso “cadinho cultural”, realejou as mesmas ideais bolorentas sobre a “indolência” dos índios e a “malandragem” dos negros, presumivelmente absorvidas das teses preconceituosas, algumas racistas, mesmo, de Nina Rodrigues, Oliveira Vianna, Azevedo Amaral e outros discutíveis intérpretes do caráter nacional brasileiro.

Mourão, vale esclarecer, não é um excêntrico, um estranho no ninhal militar. Nas forças armadas, ninguém parece admitir que existe racismo no Brasil. Faz parte da doutrinação castrense a crença de que vivemos numa democracia racial e que duvidar de sua existência é uma postura subversiva, quase um crime de lesa-pátria. Como se, ao constatar o óbvio, estivéssemos “importando para o nosso território tensões alheias à nossa história”, para usar as palavras não mais do vice, mas do próprio presidente, notoriamente ignaro da história do País e cego às evidentes similaridades entre João Alberto Freitas e George Floyd. 

Apesar de o Brasil ter sido signatário de todas as resoluções da ONU que denunciaram a discriminação racial, durante a ditadura, notadamente a partir do governo Médici, vicejou entre nossas autoridades fardadas um pavor paranoico a questionamentos sobre preconceito de cor e a tentativas de afirmação cultural das comunidades negras, com suas músicas, seu cabelo afro, e o que absorveram dos movimentos de conscientização e rebeldia afro-americanos. 

Visando escamotear diferenças que pudessem expor a miragem de nossa igualdade racial, o IBGE apagou do censo de 1972 as indicações de cor das pessoas. Isso foi apenas o começo. 

Quando se organizava para trocar ideias, discutir problemas comuns ou simplesmente promover bailes, o negro virava um transtorno para o regime; corria o risco de ser marcado, fichado, quando não perseguido pelos serviços de segurança, que o viam como um perigo para a sociedade. 

Ativistas como o ator Abdias do Nascimento, criador do Teatro Experimental do Negro, líder cultural e político de sua gente, só começaram a sair do radar da polícia pouco antes da Anistia, na gestão Figueiredo. 

Conheço pelo menos dois estudos sobre as lutas antirraciais de afrodescendentes durante o regime militar, assinados por Karen Sant’Anna Kossling e Lucas Pedretti, este mais especificamente voltado para os bailes soul nos subúrbios cariocas, vigiados e molestados pelos beleguins da ditadura. 

Agora, um testemunho pessoal. Em novembro de 1973, o semanário Pasquim publicou uma entrevista com a respeitada antropóloga negra americana Angela Gillian, da Universidade de Nova York, que passara uma temporada na Bahia e tinha muito o que falar sobre a tão decantada democracia racial brasileira. Gillian abriu o verbo: 1) havia racismo no Brasil sim; 2) o negro brasileiro continuava “com a vassoura na mão”; 3) Pelé escolhera uma mulher branca para “melhorar a raça” e “limpar o sangue”. 

E por aí foi, a enfileirar fatos incômodos e difíceis de contestar.

Os militares no poder cogitaram, num primeiro momento, apreender toda a edição do jornal nas bancas, e em seguida fechá-lo para sempre. Afinal puniram o general responsável pela censura ao Pasquim, aposentando-o de suas funções catonianas, e transferiram a tarefa censória para o Centro de Informações do Exército, em Brasília. Transferência, de resto, acompanhada de uma ameaça do mandachuva da Censura, o abjeto general Antonio Bandeira: “Daqui em diante não sai mais nenhum preto nesse jornal!”. 

Enquanto vigorou o ‘diktat’ do general, não saiu mesmo. Até inocentes fotos de Pixinguinha foram furiosamente rasuradas pela “Turma da Pilot”, ou seja, pelos burocratas da repressão que, em vez de paus de arara, eletrodos e outros apetrechos caros ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, manuseavam uma aparentemente inofensiva caneta hidrográfica.

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