Agatha Christie não foi convidada

Especialista em criar histórias a partir do nada - haja vista a novela do vazamento do dossiê -, a imprensa deixou passar entre as pernas um conto de Agatha Christie prontinho para chegar às bancas. O roubo das jóias de Hebe Camargo dia seguinte de uma festa para celebridades na mansão da apresentadora dá um romance policial tão bom quanto A primeira investigação de Poirot, Cai o pano ou outro best-seller qualquer da célebre escritora britânica.Hebe sabe disso. Ou não se apressaria em dizer aos jornais que uma coisa (a festa) não teria nada a ver com a outra (o roubo), ou seja, não paira qualquer desconfiança sobre nenhum convidado. "Juro por Deus!" Já pensou se - como, aliás, é comum nos livros de suspense - o investigador de polícia responsável pelo caso desconfia da devoção meio descabida na situação, e resolve reunir de volta na mansão todas as 140 pessoas que lá estiveram na véspera do crime? Festas assim são praticamente irreconstituíveis, mas, com a ajuda de Marília Gabriela, que a tudo vê nessas ocasiões, imagina a quantidade de coisas esquisitas que seriam rememoradas ao longo da perícia técnica.Alguém teria percebido João Doria Jr. de papo com Mônica Veloso, a ex-amante de Renan Calheiros, num cantinho do salão. O que conversavam? Já se conheciam de algum lugar? Será que ao menos um sabia quem era o outro? E o Otávio Mesquita? Onde esteve o apresentador da Band quando deixou sua Melissa conversando com Roberto Justus e sumiu até a hora do bolo? A propósito, teve mesmo bolo? Alguém bebeu demais ou foi inconveniente? Quem chegou sozinho e saiu acompanhado naquela noite? O José Dirceu estava lá?A turma da 2ª Delegacia de Patrimônio do DEIC decerto nunca leu Agatha Christie. Mas, ainda que não siga qualquer linha literária de investigação, como é que deixa escapar a oportunidade de interrogar Adriane Galisteu, Wanessa Camargo, Eliana, Ivete Sangalo...? De cara, questionou-se porque o ladrão não levou um certo colar de esmeraldas, coisa que num romance seria apenas um detalhe sórdido na trama. Descobriríamos lá pelas tantas tratar-se de jóia falsa, presente do Silvio Santos na renovação de contrato da apresentadora com o SBT.A rigor, além do natural estado de choque da anfitriã e de sua atitude elegante para livrar a cara de seus convidados, nada sabemos sobre o roubo das jóias de Hebe Camargo. Uma semana após o crime, não vazou pista nem no gabinete do senador Álvaro Dias. Da coleção de jóias que um dia a apresentadora espalhou pelo chão e cobriu todo um cômodo da mansão, não sabemos nem o montante do roubo, nem o tanto de preciosidades surrupiadas eram "emprestadas" por joalherias.Não é esquisito que todos os dias surjam novidades no caso Ronaldo Fenômeno - a gravidez, o contrato com o tônico capilar italiano ou a aversão do craque a tomate, por exemplo - e se deixe cair no esquecimento a crônica policial mais misteriosa e eletrizante da atualidade? Como diria Agatha Christie, aí tem!Só dá DudaO marqueteiro Duda Mendonça reapareceu em dose dupla no noticiário. Se, por um lado, a 4ª. Vara da Justiça Federal de Belo Horizonte instaurou ação penal contra o uso de caixa 2 na prestação de serviços ao PT, é bem verdade, também, que o publicitário começou a cuidar da capa da biografia autorizada de Paulo Maluf. A boa notícia, no caso, é esta última.Desaforo novoRonald Noble, o poderoso secretário-geral da Interpol, deu entrada no "Ambulatório da Notícia" com um xingamento desferido na lata. Hugo Chávez lhe chamou de "vagabundo internacional", chefe do "show de palhaços" na investigação que isentou o governo colombiano de manipulação de dados nos computadores apreendidos das Farc. Por muito menos, Noble já deve ter prendido muita gente boa sob acusação de desacato nos seus tempos de ronda nas ruas de Chicago.Quase unanimidadeAo completar seu primeiro ano no Champs Élysées, Nicolas Sarkozy bateu novo recorde de popularidade: há 50 anos um presidente francês não tinha desempenho tão ruim. Entre seus eleitores, só não teria ainda decepcionado a Carla Bruni, mas isso, comenta-se em Paris, é questão de tempo. Tá na cara que vai acontecer antes do fim de seu mandato.Perdidos no tempoO apresentador Fausto Silva comemora hoje à tarde seu milésimo programa na TV Globo. O que dá um total de 3.800 horas no ar em 19 anos ininterruptos do Domingão do Faustão na Vênus Platinada. Foram milhares de pegadinhas, milhões de homenagens de ocasião, bilhões em faturamento comercial, zilhões de vídeocassetadas, incontáveis arquivos confidenciais... Tanta coisa e, no entanto, parece que foi muito mais, né não?

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