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‘Ah, Manu, disso só eu mesmo posso falar’

Carta de Mário de Andrade revela o drama de quem viveu uma dualidade dilacerante

Eduardo Jardim, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2015 | 16h00

A revelação da carta de Mário de Andrade para Manuel Bandeira, depositada na Casa de Rui Barbosa, no Rio, deve ter frustrado as expectativas de quem esperava alguma revelação escandalosa. Não há menção a nenhum “caso” homossexual do escritor ou a detalhe picante que possa interessar a quem se habituou a um ambiente que desconhece a distinção entre as ordens pública e particular. 

A carta é um depoimento de grande nobreza sobre o drama de um homem que na vida e na obra experimentou uma dualidade que o dilacerava, e que foi o motivo do vigor de suas iniciativas.

Mário de Andrade depositou em Manuel Bandeira uma grande confiança. Eles se conheceram em 1921. Começaram a trocar cartas em 1922 e só pararam em 1944. São 420 cartas - quantidade e qualidade inigualáveis em língua portuguesa!

Bandeira foi o amigo que Mário de Andrade desejou que estivesse a seu lado na hora da morte. Confessou uma vez que via Manuel como uma propriedade sua, uma fazenda que tinha comprado com sua alma, e que portanto podia passear por ela de pijama. Mário de Andrade sentia frequentemente a necessidade de comentar a relação. Bandeira foi mais comedido. Sabia que havia um descompasso entre eles, que se devia, a seu ver, à grande diferença entre o Mário das cartas e o da vida. “Parece que os dois vocês estão trocados: o das cartas é o que é da vida e o da vida é o que é das cartas. Nas cartas você se abre, pede explicação, esculhamba, diz merda e vai se foder; quando está com a gente é... paulista.” Para Bandeira a afinidade entre os dois era sobretudo de ordem moral. 

Os dois se tratavam de forma carinhosa. Mário chamava Bandeira de Manuel, Manu querido, Manuelucho dear, meu querido Manuel, Manuel do coração, meu caro poeta, Mano Manu. Além disso, deu à sua máquina de escrever - o mais próximo objeto na vida de um escritor - o nome de Manuela. Manuel chamava Mário de Mariozão, Marião!, Marioscumque e de bichão.

Mário de Andrade foi sempre mais propositivo. Os dois opinaram sobre as obras de um e do outro. É conhecido o caso de Macunaíma: Bandeira achava que Mário de Andrade devia incluir ainda mais obscenidades no livro. Mário assentiu, mas na segunda edição voltou atrás.

No início dos anos 1920, Mário apresentou a Manuel sua proposta de atualização estética. Bandeira o acompanhou. A partir de 1924, propôs uma virada no modernismo, ao introduzir o tema da brasilidade, e apresentou a Bandeira sua ideia. Bandeira, até certo ponto, o acompanhou. Achava Mário exagerado, mas este dizia que se sentiria realizado se conseguisse criar uma língua literária brasileira. Nos anos seguintes, quando as preocupações políticas ocuparam Mário de Andrade, ele teve o cuidado de poupar o amigo de qualquer proselitismo. Assim, ao escrever a conferência de 1942, Mário avisou: “Agora vou me botar na escritura definitiva da conferência do dia 30, de que talvez você não goste nada”. 

A proximidade possibilitou a Bandeira formular a mais precisa definição do amigo. Em uma carta disse que Mário de Andrade era “um sujeito em quem a emoção poética se debate no círculo de ferro de uma inteligência perpetuamente insatisfeita”. Tinha em mente a presença, na obra poética do amigo, de uma dimensão lírica que contrastava com a crítica. Mas o valor dessa afirmação é maior, pois diz respeito ao sentido da vida e da obra de Mário de Andrade. 

Mário experimentou em diversos contextos a oposição de forças irreconciliáveis. Nunca evitou esses embates. Não sequestrou nenhuma dessas forças, para usar o termo que escolheu para se referir ao conceito de recalque, de origem freudiana. Sua poesia continha elementos de inspiração e de inteligência, seu nacionalismo teve um compromisso com o universal, seu individualismo extremado contrastava com a atenção ao apelo coletivo, a forma e a matéria na arte conflitavam, o Tietê e o Amazonas foram os seus dois sinais. A tudo isso Mário de Andrade chamou de bi-vitalidade. Nele cabiam uma vida de cima, elevada, e uma vida de baixo, sensual e impulsiva. 

Da mesma maneira viveu a experiência amorosa, como mostra a carta agora revelada. Mário de Andrade conheceu o amor sublimado por Bandeira e por outros amigos. Trata-se de um sentimento em que há abrigo, tranquilidade, sem aspecto sexual. O belíssimo poema “Rito do Irmão Pequeno”, dedicado a Bandeira, é uma das mais belas declarações de amor com esse feitio.

Em contraste, Mário de Andrade foi tomado pelo amor sensual, geralmente homossexual, que podia ter inclusive um componente destrutivo. Alguns poemas de A Costela do Grã Cão mostram isso. 

É possível a partir dos depoimentos dos que viveram no início do século 20 que a vida sexual era cercada de tabus e ainda imperava, em certos ambientes, uma rígida moral vitoriana. Quanto à homossexualidade, havia um claro interdito. Mário de Andrade deu notícia disso no conto Frederico Paciência. Dois rapazes se amam e sacrificam seu amor para evitar o massacre por uma sociedade hipócrita e conservadora.

Ao longo da vida Mário de Andrade contou com o apoio dos familiares, dos amigos e da mãe. Isso não o poupou de seus dramas, mas talvez o tenha poupado do destino trágico que tiveram Pedro Nava, Luiz Antônio Martinez Correa e tantos outros que são vítimas de agressões homofóbicas. As cartas depositadas em um arquivo público têm que ser abertas para consulta. Assim, é um avanço a decisão de possibilitar o acesso de todos a essa bela declaração de amizade. A distância, a leitura desse material pode engrandecer o perfil deste homem poliédrico, como chamou Tristão de Ataíde. 

EDUARDO JARDIM FOI PROFESSOR DA PUC-RIO E É AUTOR DE EU SOU TREZENTOS - MÁRIO DE ANDRADE - VIDA E OBRA (EDIÇÕES DE JANEIRO)

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